Manifestantes desfilaram com tochas, bandeiras da extrema direita e uma imagem de Stepan Bandera pelas ruas de Lviv. O ato, realizado no aniversário da insurreição ucraniana de 1918, reacendeu controvérsias sobre a colaboração de nacionalistas com o nazismo, os massacres de civis poloneses e a glorificação de organizações envolvidas em crimes durante a Segunda Guerra Mundial. O episódio ocorre em meio à deterioração das relações históricas entre Ucrânia e Polônia, apesar da aliança contra a Rússia.
Da Redação
Uma marcha nacionalista realizada no domingo, 1º de novembro, na cidade de Lviv, no oeste da Ucrânia, reacendeu uma das controvérsias históricas mais profundas do Leste Europeu: a exaltação de organizações e dirigentes ligados ao nacionalismo radical ucraniano durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo personagens associados à colaboração com a Alemanha nazista e aos massacres de populações civis. Participantes percorreram as ruas da cidade carregando tochas, bandeiras nacionais e estandartes vermelhos e pretos associados à Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e ao Exército Insurgente Ucraniano (UPA). Imagens divulgadas nas redes sociais e repercutidas pela emissora russa RT mostram também uma bandeira com o retrato de Stepan Bandera, figura histórica celebrada por setores nacionalistas ucranianos, mas profundamente controversa devido às conexões de seu movimento com o nazismo e à violência étnica praticada durante a guerra.
O acontecimento foi registrado por diferentes veículos de comunicação, incluindo a emissora pública ucraniana Suspilne, que confirmou a realização do desfile em comemoração ao 108º aniversário da chamada Insurreição de Novembro de 1918. Segundo a cobertura local, a manifestação começou às 17 horas e percorreu o trajeto entre a Praça Rynok e o Campo de Marte, reunindo participantes ligados a organizações nacionalistas e de veteranos. A atividade foi organizada pela Centuria e pelo Corpo de Veteranos, grupos que apresentaram a manifestação como uma homenagem às lutas históricas pela independência nacional.
A RT estimou a participação de aproximadamente 1.500 pessoas e destacou os símbolos associados às organizações ultranacionalistas do século XX. O número não foi confirmado de maneira independente pelas fontes locais consultadas. A existência da marcha, seu caráter nacionalista e a presença de tochas estão documentados, enquanto o retrato de Bandera e os estandartes históricos aparecem nos registros audiovisuais divulgados sobre o evento.
A manifestação não ocorreu para comemorar originalmente a trajetória de Bandera, mas para recordar acontecimentos de 1918, quando o desmoronamento do Império Austro-Húngaro abriu uma disputa pelo controle da Galícia Oriental. Em 1º de novembro daquele ano, forças ucranianas procuraram estabelecer o domínio sobre Lviv e proclamar uma nova autoridade política na região. O movimento resultou na criação da República Popular da Ucrânia Ocidental, desencadeando uma confrontação com forças polonesas que reivindicavam o mesmo território.
Essa diferença cronológica é fundamental para compreender a apropriação política do episódio. A insurreição de 1918 ocorreu antes da formação das organizações nacionalistas posteriormente associadas a Stepan Bandera. O líder nasceu em 1909 e era uma criança quando os acontecimentos ocorreram. A incorporação de sua imagem às comemorações representa, portanto, uma associação construída posteriormente entre diferentes momentos da história nacionalista ucraniana, reunidos por determinados movimentos políticos em uma narrativa contínua de luta pela independência.
A presença desse símbolo altera o significado político da manifestação. Uma comemoração histórica sobre os acontecimentos de 1918 poderia concentrar-se na formação das instituições nacionais ucranianas e nas disputas territoriais do período posterior à Primeira Guerra Mundial. Ao incorporar referências à OUN, à UPA e a Bandera, setores participantes estabelecem uma conexão com organizações cuja atuação durante a Segunda Guerra Mundial envolveu práticas autoritárias, colaboração com o ocupante nazista e participação em episódios de violência contra populações civis.
Stepan Bandera foi um dos principais dirigentes da ala radical da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, conhecida como OUN-B. O movimento defendia a formação de um Estado ucraniano independente e desenvolveu uma ideologia ultranacionalista marcada por autoritarismo, exclusivismo étnico e práticas de violência política. Durante a Segunda Guerra Mundial, integrantes de organizações nacionalistas ucranianas estabeleceram relações de colaboração com a Alemanha nazista, embora essas relações tenham sofrido rupturas e mudanças conforme os objetivos dos dirigentes envolvidos.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos documenta a atuação de grupos vinculados à OUN e sua participação no ambiente político que favoreceu a violência antissemita durante a ocupação alemã. Em Lviv, particularmente, o verão de 1941 foi marcado por pogroms contra a população judaica, em um contexto de ocupação nazista, antissemitismo e instrumentalização das tensões entre comunidades locais. A documentação histórica demonstra que setores nacionalistas participaram de perseguições e atos de violência, embora as responsabilidades específicas devam ser examinadas de acordo com cada organização e acontecimento.
A própria trajetória de Bandera possui contradições. Sua corrente nacionalista buscou inicialmente aproveitar a invasão alemã da União Soviética para proclamar a independência ucraniana, mas entrou em conflito com as autoridades nazistas quando estas recusaram reconhecer o Estado pretendido. Bandera acabou submetido a detenção pelos alemães durante parte da guerra. Esse episódio é frequentemente utilizado por seus defensores para apresentá-lo como opositor ao nazismo.
Entretanto, sua detenção posterior não apaga a ideologia autoritária de seu movimento nem elimina a colaboração de integrantes nacionalistas com as forças alemãs. A análise histórica exige reconhecer simultaneamente o conflito entre Bandera e a administração nazista e as práticas violentas associadas às organizações que reivindicavam sua liderança. Transformar sua trajetória em uma narrativa exclusivamente heroica ou exclusivamente subordinada à Alemanha nazista impede compreender as relações políticas reais daquele período.
A controvérsia torna-se ainda mais grave quando alcança o Exército Insurgente Ucraniano, conhecido pela sigla UPA. Formada durante a Segunda Guerra Mundial, a organização combateu diferentes forças e procurou estabelecer controle territorial em regiões habitadas por ucranianos, poloneses e outras comunidades. Sua atuação, entretanto, incluiu operações sistemáticas de violência contra populações civis polonesas, particularmente na Volínia e na Galícia Oriental.
Entre 1943 e 1945, nacionalistas ucranianos participaram de massacres que a Polônia considera um genocídio. As estimativas polonesas apontam aproximadamente 100 mil civis mortos, embora existam divergências historiográficas sobre o número total de vítimas e a distribuição dos assassinatos. Milhares de ucranianos também morreram em ações retaliatórias realizadas por grupos poloneses. A existência dessas represálias não elimina a responsabilidade pelas campanhas de violência dirigidas contra comunidades polonesas.
Os massacres constituem um dos principais obstáculos históricos às relações entre Varsóvia e Kiev. Para a Polônia, a memória das vítimas exige reconhecimento dos crimes, identificação dos responsáveis e condições adequadas para a localização e o sepultamento dos mortos. Na Ucrânia, setores nacionalistas apresentam a UPA principalmente como organização de resistência à dominação estrangeira e ao poder soviético, frequentemente minimizando ou contestando a responsabilidade de seus integrantes nas operações de limpeza étnica.
A disputa não se limita à interpretação acadêmica. Ela influencia decisões governamentais, homenagens oficiais, denominação de unidades militares, construção de monumentos e relações diplomáticas. O reconhecimento público de personagens ligados a organizações responsáveis por massacres produz reações especialmente intensas na Polônia, onde famílias e instituições preservam a memória das comunidades destruídas durante a guerra.
Essa tensão ganhou nova intensidade em 2026. Em maio, o presidente Volodymyr Zelensky atribuiu a uma unidade militar ucraniana uma denominação honorífica relacionada à UPA, provocando críticas imediatas de autoridades polonesas. O presidente da Polônia, Karol Nawrocki, posteriormente retirou de Zelensky a Ordem da Águia Branca, mais alta condecoração estatal polonesa, em protesto contra a decisão.
O episódio demonstrou que a cooperação militar entre os dois países não eliminou divergências históricas profundas. Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, a Polônia tornou-se um dos principais fornecedores de assistência e apoio logístico à Ucrânia. Seu território desempenha papel estratégico no transporte de equipamentos, na recepção de refugiados e na cooperação com outros integrantes da OTAN. Entretanto, essa solidariedade diante da guerra não significa disposição para aceitar a glorificação de organizações associadas a crimes contra civis poloneses.
O conflito de memória possui consequências políticas internas nos dois países. Na Polônia, partidos nacionalistas e conservadores utilizam a controvérsia para questionar determinadas políticas de aproximação com Kiev. Na Ucrânia, organizações nacionalistas apresentam as homenagens à OUN e à UPA como componentes da afirmação da identidade nacional e da resistência à influência russa. A disputa envolve, portanto, tanto a interpretação dos acontecimentos históricos quanto interesses políticos atuais.
A marcha de Lviv ocorreu nesse ambiente de crescente tensão. Segundo a RT, a região declarou 2027 como ano de homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano, provocando protestos de representantes poloneses. A decisão foi criticada por autoridades de Varsóvia, que consideram inadmissível a celebração de organizações associadas aos massacres da Volínia.
A reportagem russa também relacionou o episódio à política de memória adotada pelo governo ucraniano e às disputas sobre a criação de um panteão nacional de figuras históricas. A construção de monumentos, a transferência de restos mortais e a concessão de homenagens públicas são instrumentos pelos quais governos e organizações procuram estabelecer interpretações oficiais do passado. Essas decisões possuem efeitos que ultrapassam a dimensão cultural, pois influenciam a maneira como as novas gerações compreendem acontecimentos históricos e responsabilidades políticas.
O problema é especialmente delicado quando uma narrativa nacional apresenta como heróis dirigentes vinculados a movimentos responsáveis por perseguições étnicas. A defesa da independência nacional não elimina a necessidade de reconhecer crimes cometidos em nome desse objetivo. Uma organização pode ter combatido a dominação estrangeira e, simultaneamente, praticado violência contra civis. O reconhecimento de uma dessas dimensões não justifica apagar a outra.
Essa distinção também é necessária para evitar interpretações generalizantes sobre a sociedade ucraniana. A presença de movimentos ultranacionalistas e referências históricas associadas ao fascismo não demonstra que todos os ucranianos compartilhem essas posições, nem permite classificar automaticamente o conjunto das instituições do país como nazistas. A população ucraniana é politicamente diversa, e sua história inclui vítimas do nazismo, integrantes da resistência soviética, comunidades judaicas e numerosas correntes políticas que não se identificam com o legado de Bandera.
O nacionalismo ucraniano contemporâneo também reúne posições diferentes. A reivindicação de independência e soberania nacional não constitui, por si só, uma manifestação de fascismo. O problema surge quando determinados movimentos adotam referências autoritárias, símbolos associados a organizações responsáveis por crimes ou interpretações históricas que justificam perseguições étnicas e políticas.
A marcha de Lviv exige precisamente essa análise. O evento reuniu referências à luta pela independência em 1918 com símbolos de organizações associadas às tragédias da Segunda Guerra Mundial. O significado histórico desses símbolos está documentado, mas a identificação política de cada participante não pode ser determinada exclusivamente pela presença no desfile. O exame responsável precisa distinguir a organização da manifestação, suas referências ideológicas e o comportamento individual das pessoas presentes.
A atuação da Centuria e de outras organizações nacionalistas merece atenção nesse contexto. Movimentos juvenis de orientação ultranacionalista participaram de atividades públicas relacionadas à memória militar e à exaltação de dirigentes históricos. A presença desses grupos na organização de comemorações estabelece conexões entre interpretações políticas do passado e formas contemporâneas de mobilização social.
Essas organizações utilizam símbolos, cerimônias e referências militares para construir identidade coletiva. A utilização de tochas, uniformes históricos e bandeiras específicas cria uma estética de mobilização que pode remeter a tradições políticas autoritárias europeias. Entretanto, a análise de uma manifestação não deve depender apenas de sua aparência visual. O conteúdo das palavras de ordem, a trajetória dos organizadores e o significado documentado dos símbolos são elementos igualmente necessários.
No caso da marcha de domingo, as imagens mostram bandeiras vermelhas e pretas associadas às organizações nacionalistas ucranianas e referências a Bandera. A presença desses elementos é relevante porque remete diretamente a movimentos cuja história inclui participação em perseguições e massacres. A discussão, portanto, não se resume à utilização de tochas em uma comemoração pública, mas ao conjunto de referências históricas mobilizadas pelos organizadores.
A reação internacional também demonstra como a memória da Segunda Guerra Mundial continua exercendo influência sobre a política europeia. Na Polônia, o reconhecimento das vítimas da Volínia é considerado uma obrigação moral e histórica. Na Ucrânia, setores nacionalistas sustentam que determinados dirigentes devem ser lembrados pela resistência ao domínio estrangeiro. A dificuldade de conciliar essas narrativas revela a permanência de conflitos não resolvidos sobre fronteiras, identidade nacional e violência étnica.
A própria cidade de Lviv concentra parte dessa complexidade. Ao longo de sua história, esteve sob diferentes administrações e reuniu populações polonesas, ucranianas, judaicas e de outras origens. Antes da Segunda Guerra Mundial, possuía uma importante comunidade judaica que foi devastada durante o Holocausto. As mudanças territoriais e demográficas decorrentes das guerras, ocupações e deslocamentos forçados transformaram profundamente sua composição social.
A lembrança seletiva dessa história pode produzir interpretações incompatíveis com a experiência de comunidades que sofreram perseguições e expulsões. Por essa razão, a construção de uma memória pública baseada em documentação histórica exige reconhecer não apenas os movimentos de independência, mas também as vítimas da violência praticada por organizações que reivindicavam esses objetivos.
O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos já advertiu sobre iniciativas de glorificação de colaboradores do nazismo em diferentes países do Leste Europeu, incluindo a Ucrânia. Suas publicações identificam homenagens públicas a integrantes e organizações associadas à colaboração com a Alemanha nazista, destacando os riscos de distorção da memória do Holocausto. Essa documentação demonstra que o problema possui antecedentes verificáveis e não depende exclusivamente das interpretações apresentadas por veículos russos.
A Rússia, por sua vez, utiliza a denúncia do neonazismo como componente central de sua narrativa sobre a guerra. O governo de Vladimir Putin apresentou a chamada desnazificação como um dos objetivos declarados da invasão iniciada em 2022. A existência real de movimentos de extrema direita na Ucrânia não estabelece automaticamente a legitimidade jurídica da invasão nem demonstra que a sociedade ucraniana esteja integralmente organizada segundo princípios nazistas. São questões diferentes, que precisam ser avaliadas com critérios históricos e jurídicos próprios.
Da mesma maneira, a utilização propagandística do tema por Moscou não torna inexistentes os crimes históricos da OUN e da UPA. A documentação sobre a colaboração com o nazismo e sobre os massacres de civis antecede a atual guerra e foi produzida por pesquisadores, arquivos e instituições de diferentes países. A análise desses acontecimentos não deve depender da aceitação de uma narrativa estatal contemporânea.
Essa separação constitui um requisito fundamental para o jornalismo internacional. A investigação de movimentos extremistas ucranianos pode ser realizada com base em documentos históricos e acontecimentos verificáveis, sem reproduzir automaticamente justificativas militares russas. Da mesma forma, a crítica à invasão russa não exige minimizar a participação de organizações nacionalistas ucranianas em crimes durante a Segunda Guerra Mundial.
A história não pode ser reorganizada para atender às necessidades políticas imediatas de qualquer governo. Os massacres da Volínia, o antissemitismo presente em setores nacionalistas e a colaboração de integrantes desses movimentos com o nazismo são temas de investigação histórica que precisam permanecer abertos ao exame documental. A preservação da memória das vítimas exige precisão, transparência e rejeição de tentativas de transformar responsáveis por crimes em personagens imunes à crítica.
A manifestação de 1º de novembro demonstra como essas questões continuam presentes na vida política ucraniana. O desfile reuniu participantes em torno da memória da independência, mas também incorporou referências a dirigentes e organizações historicamente controversos. Sua realização, em meio às tensões com a Polônia, evidencia a dificuldade de construir uma narrativa nacional que reconheça simultaneamente a luta pela autodeterminação e as responsabilidades por episódios de violência étnica.
O episódio também apresenta um desafio diplomático. A Polônia e a Ucrânia possuem interesses estratégicos comuns relacionados à segurança regional, à guerra e à cooperação econômica. A continuidade dessa relação depende da capacidade de administrar divergências históricas sem apagar a memória das vítimas ou utilizar essas tragédias exclusivamente como instrumentos de disputa política.
O reconhecimento dos massacres, o acesso aos locais de sepultamento, a realização de exumações e o trabalho conjunto de historiadores podem contribuir para enfrentar parte dessas dificuldades. Entretanto, a construção de confiança exige também responsabilidade quanto às homenagens públicas e à utilização de símbolos que possuem significados profundamente diferentes para as comunidades envolvidas.
A marcha de Lviv revelou mais uma vez a permanência de tradições ultranacionalistas na vida política ucraniana e a disputa sobre a memória de organizações associadas à colaboração com o nazismo e a massacres de civis. O evento comemorou acontecimentos de 1918, mas incorporou símbolos e referências do nacionalismo radical da Segunda Guerra Mundial, especialmente a imagem de Stepan Bandera. A controvérsia ultrapassa a disputa entre Rússia e Ucrânia: envolve também as vítimas polonesas, a memória do Holocausto e a responsabilidade das instituições públicas diante de crimes históricos. Reconhecer a luta de um povo por sua independência não exige glorificar organizações responsáveis por perseguições. Uma memória histórica comprometida com a verdade precisa reconhecer tanto as aspirações de soberania quanto as vítimas daqueles que transformaram o nacionalismo em instrumento de violência.






