Em encontro de apoio à reeleição do Presidente Lula, profissionais da saúde relembraram os impactos da pandemia, defenderam o financiamento do sistema público e destacaram a importância da ciência e das políticas sociais
Profissionais da saúde, pesquisadores e professores universitários se reuniram na Casa de Portugal, em São Paulo, em um ato de apoio à reeleição do Presidente Lula e de defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). Com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o encontro reuniu relatos sobre a experiência de atendimento durante a pandemia de Covid-19, a trajetória de construção das políticas públicas de saúde e os desafios para ampliar o acesso da população aos serviços.
A reportagem tem como base a transcrição do evento, que contou com intervenções de médicos como Paulo Saldiva, Adriana Melo, Ludmila Hajjar e Marília Louvison, além de outros profissionais ligados à assistência, à pesquisa e à gestão pública. As falas combinaram a apresentação de iniciativas do governo federal com críticas à condução da saúde durante o governo de Jair Bolsonaro e apelos à mobilização eleitoral.
A defesa do SUS ocupou o centro dos discursos. Para os participantes, a continuidade do sistema depende de financiamento, valorização dos profissionais, fortalecimento da atenção básica e manutenção de políticas sociais capazes de reduzir as desigualdades que afetam as condições de saúde da população.
Paulo Saldiva: “Meu partido é o SUS”
Professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o médico e pesquisador Paulo Saldiva explicou que sua participação não decorria de militância partidária. “Eu não tenho partido político. Meu partido é o SUS”, declarou.
Saldiva relatou que sua experiência durante a pandemia de Covid-19 foi determinante para sua posição pública. Naquele período, trabalhou com exames post-mortem e acompanhou mortes provocadas pela doença, inclusive entre crianças sem comorbidades conhecidas. Ele mencionou o caso de uma menina de 11 anos cuja morte marcou sua percepção sobre as consequências da desinformação e da resistência ao reconhecimento da gravidade da crise sanitária.
O pesquisador também recordou uma manifestação realizada em 2020 na Avenida Paulista, na qual participantes negavam a existência da doença. Para ele, a cena contrastava com o trabalho dos profissionais que enfrentavam diariamente as consequências da Covid-19.
Ao explicar sua decisão de participar do ato, Saldiva afirmou que pretendia falar em nome das pessoas que morreram e dos estudantes que tiveram acesso à formação médica por meio de políticas de inclusão. Também chamou atenção para o peso das desigualdades sociais na determinação das condições de saúde.
“O código de endereçamento postal vale mais do que o código genético na determinação das mortes”, afirmou, ao relacionar as condições de vida, a falta de apoio e a dificuldade de acesso aos serviços de saúde aos riscos de adoecimento e morte.
A declaração sintetiza uma preocupação recorrente entre os participantes: o atendimento médico depende também das condições econômicas e sociais que permitem às pessoas buscar assistência, realizar exames e seguir tratamentos.
Adriana Melo relembra a pandemia e a falta de equipamentos
A médica e pesquisadora Adriana Melo, professora da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, relatou sua trajetória profissional e as dificuldades enfrentadas durante duas emergências sanitárias: a epidemia de zika e a pandemia de Covid-19.
Melo participou de pesquisas sobre os casos de zika associados a malformações fetais e descreveu o trabalho de investigação científica desenvolvido em articulação com pesquisadores e instituições de saúde. Segundo ela, a experiência mostrou a importância da colaboração entre profissionais, universidades e órgãos públicos para compreender doenças emergentes.
A chegada da Covid-19, porém, trouxe um cenário de insegurança. A médica relatou dificuldades para obter equipamentos de proteção individual, inclusive máscaras adequadas, e contou que precisou tomar medidas rigorosas para proteger familiares considerados vulneráveis.
Na assistência hospitalar, a situação se agravou com o adoecimento de profissionais e o aumento das mortes entre gestantes. Obstetra, Melo descreveu a angústia de acompanhar pacientes que chegavam ao hospital em condições aparentemente estáveis e apresentavam rápida deterioração clínica.
“Era desesperador ver aquele momento. E mais desesperador ainda era saber que tinha o que fazer”, afirmou.
A pesquisadora criticou a falta de coordenação nacional e as dificuldades de acesso a equipamentos e insumos. Também recordou iniciativas improvisadas de profissionais para arrecadar recursos, adquirir materiais e recuperar equipamentos hospitalares.
Ao tratar da vacinação, Melo defendeu que a experiência da pandemia não seja esquecida nas decisões eleitorais. “A gente deve a essas pessoas isso. A gente não pode, como médico, como profissional de saúde, simplesmente esquecer”, declarou.
Seu depoimento associou a memória das mortes à necessidade de preservar a capacidade do Estado de responder a emergências sanitárias, com planejamento, coordenação e respeito às evidências científicas.
Ludmila Hajjar associa saúde pública à democracia
A médica intensivista e professora da Faculdade de Medicina da USP Ludmila Hajjar defendeu que as decisões sobre saúde sejam orientadas por critérios éticos e pela garantia de direitos fundamentais.
“Quando a gente trata uma pessoa, quando a gente trata um paciente, a gente não pergunta qual é o partido, qual é a religião, qual é a cor, porque faz-se isso com amor e ética”, afirmou.
Hajjar argumentou que a proteção da vida exige compromisso com a democracia, a liberdade e a dignidade humana. Em sua avaliação, a continuidade das políticas sociais é necessária para assegurar que o desenvolvimento econômico produza melhorias concretas nas condições de vida.
A professora também defendeu a manutenção das políticas de cotas no ensino superior e destacou o papel da inclusão educacional na formação de profissionais. Para ela, a presença de estudantes de diferentes origens sociais nas universidades públicas representa uma mudança importante no acesso à educação.
A pesquisadora relacionou ainda o fortalecimento do SUS ao investimento em ciência, tecnologia e inovação. Mencionou iniciativas de digitalização dos serviços, integração de dados e desenvolvimento de ferramentas capazes de ampliar a eficiência do atendimento.
Ao abordar a pandemia, Hajjar criticou a atuação do governo Bolsonaro e recordou a crise de abastecimento de oxigênio em Manaus. Segundo seu relato, a experiência evidenciou as consequências de decisões administrativas que não priorizaram as necessidades dos pacientes e dos profissionais.
A médica também defendeu a gestão de Alexandre Padilha à frente do Ministério da Saúde, destacando a aproximação entre a administração pública, a pesquisa universitária e o desenvolvimento tecnológico.
Marília Louvison alerta para o subfinanciamento do SUS
A médica sanitarista e pesquisadora Marília Louvison destacou que o sistema público de saúde depende de políticas sociais capazes de garantir condições mínimas de vida e reduzir desigualdades.
Com quatro décadas de atuação na área, ela afirmou que o SUS precisa de recursos, profissionais qualificados, medicamentos e uma rede de atenção primária estruturada nos territórios. A ampliação da oferta de especialistas, segundo Louvison, deve caminhar junto com o fortalecimento dos serviços responsáveis pelo acompanhamento cotidiano dos pacientes.
A pesquisadora alertou que o sistema pode continuar formalmente existente e, ainda assim, perder capacidade de atendimento se houver cortes de recursos ou descontinuidade das políticas públicas.
“Quando a gente fala que o SUS tá em risco, o SUS pode continuar existindo, mas ele vai desidratar, ele vai escapar pelos nossos dedos”, declarou.
Louvison também ressaltou a importância de políticas de cuidado para uma população que envelhece. Na avaliação da sanitarista, garantir atendimento adequado exige considerar as condições sociais dos pacientes e oferecer suporte para que possam viver com dignidade.
Ao defender a continuidade das políticas públicas, ela associou a construção do SUS à trajetória democrática brasileira e à participação de profissionais, pesquisadores e movimentos sociais na formulação do sistema.
Saúde da mulher e transformação digital
A médica Mariane Pinote abordou os avanços e os desafios das políticas de saúde voltadas às mulheres. Ela destacou iniciativas de diagnóstico de câncer de mama e de colo do útero, além de medidas destinadas a ampliar a assistência às gestantes.
Pinote também criticou os impactos da pandemia sobre a mortalidade materna e apontou a necessidade de recuperar a qualidade do pré-natal e da assistência obstétrica.
Outro tema presente em sua fala foi a digitalização dos serviços de saúde. A médica mencionou o aplicativo Meu SUS Digital, as carteiras de acompanhamento de diferentes grupos populacionais e a perspectiva de ampliar o acesso dos pacientes a seus próprios registros médicos.
A integração de informações, segundo a abordagem apresentada no encontro, pode ajudar tanto no acompanhamento individual quanto no planejamento de políticas públicas. Para que os recursos digitais produzam resultados, porém, será necessário garantir sua integração com os serviços e sua utilidade para profissionais e usuários.
Alckmin defende investimentos e produção nacional
Em sua intervenção, Geraldo Alckmin afirmou que a saúde terá importância crescente na economia, tanto pela mudança demográfica quanto pelo desenvolvimento científico e tecnológico. O vice-presidente defendeu investimentos no setor e a ampliação da capacidade brasileira de produzir medicamentos, vacinas e equipamentos médicos.
Alckmin citou o Complexo Industrial da Saúde como uma área estratégica para reduzir a dependência de importações. Segundo os números apresentados por ele, a meta do governo é alcançar 70% de produção nacional nesse segmento.
O vice-presidente também mencionou o crescimento econômico, a geração de empregos e medidas de redução de impostos para defender a continuidade do governo Lula. Na avaliação apresentada no evento, o fortalecimento da saúde pública deve ser tratado como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
Alckmin ainda fez um apelo para que os participantes mobilizassem eleitores e trabalhassem para reduzir a abstenção no segundo turno. Ele afirmou que a disputa exigia tanto convencer pessoas que não haviam votado no primeiro turno a comparecer às urnas quanto dialogar com eleitores que haviam escolhido outros candidatos.
Um debate sobre o futuro das políticas públicas
O encontro também contou com intervenções de médicos e dirigentes ligados à história da saúde pública brasileira. Aitan Ciparri recordou sua participação no movimento estudantil e sua experiência durante a ditadura militar, relacionando a defesa da democracia à preservação das instituições e dos direitos sociais.
Jamil Murad, médico e ex-deputado federal, destacou a necessidade de investimentos em ciência, tecnologia e inovação para ampliar a capacidade de desenvolvimento do país. Já o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, em mensagem gravada, defendeu a construção de uma sociedade mais igualitária e o fortalecimento das instituições democráticas.
As manifestações tiveram caráter explicitamente eleitoral. Os participantes defenderam a reeleição do Presidente Lula e apresentaram a continuidade do atual governo como condição para manter e ampliar políticas de saúde, assistência social e inclusão.
O encontro também expôs uma preocupação compartilhada pelos profissionais: a capacidade de atendimento do SUS depende de decisões políticas sobre orçamento, organização dos serviços, formação de trabalhadores e investimento científico. A pandemia foi lembrada como exemplo dos efeitos que falhas de coordenação e de preparação podem produzir sobre pacientes, famílias e equipes de saúde.
Ao final, os participantes reforçaram a convocação para a mobilização de eleitores. A defesa do sistema público foi apresentada como parte central da disputa política, com o argumento de que o acesso à saúde precisa permanecer entre as prioridades do Estado brasileiro.






