Da Redação
A crise aberta no bolsonarismo cearense ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (24). Em vídeo de cerca de 30 minutos, Michelle Bolsonaro acusou o deputado federal André Fernandes, presidente do PL no Ceará, de agir contra a pré-candidatura de Priscila Costa ao Senado para favorecer uma aliança com Ciro Gomes. As declarações foram publicadas inicialmente pelo Blog do Eliomar.
Michelle afirmou que André estaria “prestes a trair” Jair Bolsonaro ao trabalhar para retirar Priscila da disputa. Segundo ela, a candidatura da vereadora foi definida pelo próprio Bolsonaro, por Michelle e pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
“Deixa eu ser clara sobre a indicação da Priscila. Essa candidatura foi definida por três pessoas: meu marido, eu e o presidente Valdemar. Não foi sugestão. Foi preferência. Foi decisão”, disse Michelle.
A ex-primeira-dama afirmou ainda que Bolsonaro havia determinado que o PL disputasse as duas vagas ao Senado no Ceará: uma com Priscila Costa e outra com Alcides Fernandes, pai de André Fernandes. Para Michelle, a tentativa de retirar Priscila da disputa teria como objetivo abrir espaço para uma composição com Ciro Gomes.
“O que aconteceu depois foi que, aproveitando-se da prisão do Jair, começaram a trabalhar para eliminar Priscila da disputa, cedendo a vaga dela para garantir uma aliança com Ciro Gomes. Isso mesmo. Ciro Gomes”, afirmou.
Michelle também questionou diretamente André Fernandes. “Se o André queria agradar o Ciro Gomes, por que não ofereceu a vaga do seu próprio pai? Será que ele acha que retirar a vaga de uma mulher seria mais justo e mais fácil?”
A fala amplia a divisão já exposta dentro da direita cearense. Como a Atitude Popular mostrou, a aproximação entre setores do PL e Ciro Gomes produziu um choque interno no bolsonarismo. De um lado, dirigentes que enxergam em Ciro uma alternativa eleitoral competitiva contra o grupo do governador Elmano de Freitas. De outro, lideranças que consideram incoerente uma aliança com alguém que foi um dos principais adversários públicos de Jair Bolsonaro.
No vídeo, Michelle insistiu nesse ponto. Ela acusou Ciro de ter sido “o principal responsável pelo processo que levou à inelegibilidade” de Bolsonaro e citou declarações antigas do ex-governador contra o ex-presidente e seus filhos. Para ela, uma aliança com Ciro no primeiro turno seria uma ruptura com a identidade da direita bolsonarista.
“Não é questão de política. É questão de coerência”, afirmou.
A ex-primeira-dama também saiu em defesa de Eduardo Girão, a quem chamou de “único representante das pautas da direita na disputa pelo Governo do Ceará”. Segundo Michelle, o apoio a Girão no primeiro turno seria a posição mais coerente para o campo bolsonarista. Somente no segundo turno, disse ela, poderia haver uma composição mais ampla para derrotar o PT.
“Se a direita quer se unir para derrotar o PT, tudo bem. Mas a coerência exige que isso aconteça apenas no segundo turno”, afirmou.
Outro ponto central do vídeo foi a defesa de Priscila Costa. Michelle lembrou que a vereadora teve papel importante na campanha de André Fernandes à Prefeitura de Fortaleza em 2024, especialmente na tentativa de reduzir sua rejeição entre mulheres. Para ela, a atual movimentação contra Priscila representa ingratidão.
“Priscila tinha acabado de ser eleita vereadora. Poderia estar cuidando do seu próprio mandato. Em vez disso, dedicou-se integralmente à campanha de André”, disse Michelle. “O trabalho da Priscila fez uma diferença real e significativa.”
Michelle afirmou que André “chegou a outro patamar” com a ajuda de Priscila e que a resposta recebida por ela agora seria “perseguição e desprezo”.
O vídeo também revelou desgaste dentro da própria família Bolsonaro. Michelle disse ter sido atacada por Flávio Bolsonaro e por seus irmãos nas redes sociais após a polêmica no Ceará. Segundo ela, os textos publicados pelos filhos do ex-presidente pareciam “combinados” e “premeditados”.
“Peguei o telefone. Procurei mensagens do Flávio. Procurei uma ligação perdida. Procurei qualquer sinal de que ele tinha tentado falar comigo antes de falar para o Brasil. Não tinha nada”, relatou.
Michelle disse ainda que tentou ligar para Flávio, mas que ele teria sido ríspido quando retornou a ligação. Segundo ela, o senador afirmou que seria melhor que ela ficasse fora das decisões do partido e disse que ela “havia chegado ontem” e “não entendia nada de política”.
A declaração expõe uma disputa que já não se limita ao Ceará. A crise envolve a reorganização da direita para 2026, a sucessão no bolsonarismo e o grau de pragmatismo que o PL está disposto a aceitar para ampliar alianças estaduais.
No Ceará, o caso tem efeito direto sobre três movimentos simultâneos: a tentativa de Ciro Gomes de se reposicionar no campo oposicionista, a pré-candidatura de Eduardo Girão ao Governo do Estado e a disputa pelas vagas ao Senado. A entrada de Michelle no conflito embaralha ainda mais esse tabuleiro.
Ao defender Priscila Costa e atacar a aliança com Ciro, Michelle pressiona André Fernandes no ponto mais sensível da direita bolsonarista: a fidelidade a Bolsonaro. Sua fala transforma a articulação local em uma disputa de legitimidade dentro do próprio PL.



