Milhares de judeus ultraortodoxos desafiam recrutamento em Israel e chamam Exército de “inimigo”

Manifestação em Jerusalém homenageia homens presos por se recusarem a servir nas Forças de Defesa de Israel; crise sobre a convocação dos haredim expõe uma fratura interna que atravessa religião, guerra, poder político e o próprio significado do Estado israelense

Da Redação

Milhares de judeus ultraortodoxos tomaram as ruas de Jerusalém para receber como heróis homens que acabavam de deixar prisões militares por se recusarem a servir nas Forças de Defesa de Israel. Não foi uma manifestação convencional contra uma política do governo. Os participantes carregaram cartazes prometendo morrer antes de se alistar, chamaram o Exército israelense de “exército inimigo” e apresentaram os objetores presos como homens perseguidos por permanecerem fiéis ao judaísmo. A menos de um mês das eleições legislativas de 27 de outubro, uma das divisões mais profundas da sociedade israelense voltou às ruas.

A marcha ocorreu na noite de terça-feira, 29, no bairro ultraortodoxo de Geula, em Jerusalém, e provocou o fechamento de diversas vias. Cerca de uma centena de homens que haviam cumprido pena por não atender às ordens de recrutamento foram convidados para participar da homenagem. Dezenas compareceram. Eles chegaram de ônibus e foram recebidos pela multidão em uma celebração organizada por grupos haredim radicalmente contrários ao serviço militar, entre eles a chamada Facção de Jerusalém.

A linguagem utilizada pelos manifestantes mostrou que o conflito ultrapassou há muito uma discussão administrativa sobre quem deve ou não vestir uniforme. Em cartazes espalhados pela marcha, integrantes das Forças de Defesa de Israel foram tratados como pertencentes a um “exército inimigo”. Outros manifestantes compararam os presos por evasão aos reféns israelenses e prometeram que seus filhos não seriam sacrificados no que chamaram de “altar do sionismo”. Crianças presentes ao ato receberam pacotes com mensagens celebrando os homens que haviam passado pelas prisões militares pela “ofensa” de preservar o judaísmo.

Os organizadores também prometeram ajuda financeira aos homens libertados. Segundo veículos israelenses, os participantes poderiam receber cerca de mil shekels cada, aproximadamente US$ 300. Parte da imprensa local informou que os recursos teriam origem no exterior. O dinheiro acrescenta outra dimensão à resistência: comunidades organizadas começam a criar mecanismos materiais para sustentar aqueles que aceitam prisão e outras punições em vez do recrutamento.

O protesto revela uma contradição que a guerra tornou impossível manter nas margens da política israelense. Israel possui serviço militar obrigatório para grande parte de sua população judaica. Durante décadas, porém, homens ultraortodoxos dedicados integralmente ao estudo religioso em yeshivas foram beneficiados por um sistema de adiamentos e isenções. Aquilo que começou nos primeiros anos do Estado para algumas centenas de estudantes transformou-se, com o crescimento demográfico dos haredim, numa questão envolvendo dezenas de milhares de homens em idade militar.

Hoje os ultraortodoxos representam aproximadamente 14% da população israelense. A proporção deverá continuar crescendo porque suas famílias possuem, em média, taxas de natalidade superiores às do restante da população. Uma exceção concebida para uma comunidade relativamente pequena tornou-se, portanto, uma questão estrutural para um país mobilizado militarmente em diferentes frentes.

A guerra tornou a exceção cada vez mais difícil de sustentar

O conflito se agravou depois que a Suprema Corte israelense decidiu, em junho de 2024, que o Estado não possuía mais base legal para manter a ampla isenção dos estudantes ultraortodoxos e que eles deveriam ficar sujeitos ao recrutamento. A Corte também determinou a interrupção de determinados repasses públicos às instituições religiosas cujos estudantes não cumprissem as exigências de alistamento. Desde então, governo, Parlamento, Judiciário, Exército e partidos religiosos travam uma disputa permanente sobre como transformar essa decisão em realidade.

A guerra ampliou brutalmente a pressão. Centenas de milhares de israelenses passaram por mobilizações ou períodos prolongados na reserva desde 2023. Famílias se queixam do peso acumulado das convocações, enquanto as Forças de Defesa afirmam precisar ampliar seu contingente. Nesse cenário, tornou-se politicamente mais difícil explicar por que uma parcela crescente dos homens judeus permanece fora do sistema militar enquanto outros são convocados repetidamente.

Para grande parte dos haredim, entretanto, a questão é vista de maneira completamente diferente. Seus líderes sustentam que o estudo integral da Torá possui valor fundamental para a existência do povo judeu e que o ambiente militar ameaça destruir o modo de vida ultraortodoxo. O receio não se resume ao combate. A entrada no Exército significa contato cotidiano com uma sociedade secular, convivência entre homens e mulheres, disciplina subordinada ao Estado e afastamento das estruturas comunitárias e religiosas que organizam a vida desses jovens.

É importante também distinguir essa oposição da objeção pacifista à guerra. A maioria dos grupos ultraortodoxos que rejeita o recrutamento não o faz necessariamente por se opor às operações militares israelenses em Gaza, Líbano ou outras frentes. O núcleo da resistência está na relação entre religião, comunidade e Estado. Para seus setores mais radicais, o problema é o próprio projeto de incorporar jovens haredim a uma instituição secular e sionista.

A linguagem utilizada em Jerusalém mostra até onde essa ruptura chegou. Quando judeus vivendo dentro de Israel descrevem o Exército israelense como “inimigo” e apresentam o sionismo como um altar no qual seus filhos não serão sacrificados, o conflito deixa de ser simplesmente sobre distribuição das obrigações militares. Ele toca numa questão histórica muito mais profunda: quem possui autoridade sobre a vida judaica, o Estado de Israel ou a tradição religiosa representada por rabinos e comunidades?

Essa tensão existe desde a fundação do país. Nem todos os grupos ultraortodoxos mantêm a mesma relação com o sionismo. Alguns participam ativamente da política israelense e ocupam ministérios e cadeiras no Parlamento, enquanto correntes mais radicais rejeitam ideologicamente aspectos do Estado secular. O sistema político conseguiu durante décadas administrar essas diferenças por meio de coalizões, financiamento das yeshivas e preservação das isenções militares. O crescimento demográfico da comunidade e a prolongada mobilização militar tornaram esse equilíbrio progressivamente mais difícil.

O Exército recua diante das ruas

Há outro dado que mostra a dimensão adquirida pelo conflito. Nos últimos meses, manifestações contra o recrutamento bloquearam rodovias, cercaram centros de alistamento e provocaram confrontos com policiais. Em junho, a polícia utilizou unidades montadas e canhões de água contra manifestantes em Jerusalém. Em outras ocasiões, grupos bloquearam vias importantes e tentaram impedir jovens ultraortodoxos de comparecer aos centros militares.

Nos últimos dias, a imprensa israelense informou que o Exército e a polícia reduziram ou suspenderam operações proativas destinadas a prender homens procurados por evasão. Fontes citadas pela imprensa atribuíram a decisão ao impacto das grandes manifestações e ao risco de novos distúrbios. As Forças de Defesa alegaram necessidades operacionais e sustentaram que continuam buscando os infratores, mas os números mostram como a aplicação da lei permanece limitada: apenas 16 haredim procurados por evasão teriam sido presos durante o primeiro semestre de 2026.

A situação cria um paradoxo. Formalmente, a obrigação de servir existe. A Suprema Corte determinou que os ultraortodoxos não podem continuar protegidos por uma isenção geral sem base legal. Na prática, dezenas de milhares permanecem fora do Exército e a capacidade do Estado de obrigá-los a comparecer encontra uma resistência social suficientemente grande para tornar cada prisão potencialmente capaz de desencadear novas manifestações.

O Parlamento tentou oferecer proteção temporária aos estudantes de yeshivas contra prisões e outras medidas relacionadas à evasão. Em setembro, porém, a Suprema Corte derrubou a legislação, concluindo que o processo utilizado para aprová-la apresentava problemas fundamentais. O conflito institucional retornou, assim, ao ponto de partida: o Judiciário exige aplicação mais ampla do recrutamento, os partidos ultraortodoxos pressionam por novas garantias e o aparato de segurança enfrenta dificuldade concreta para executar as ordens.

Essa disputa também possui enorme peso político. Partidos haredim historicamente desempenham papel decisivo na formação das coalizões israelenses. Em troca de apoio parlamentar, conseguiram preservar autonomia religiosa, financiamento das instituições de ensino e diferentes formas de proteção contra o recrutamento. A crise atual coloca esse modelo sob pressão justamente quando Israel se prepara para votar.

O protesto de Jerusalém ocorreu a menos de um mês das eleições de 27 de outubro. Lideranças da oposição condenaram duramente os cartazes contra as Forças de Defesa e transformaram o recrutamento em tema de campanha. Para setores seculares e nacionalistas, a questão é apresentada como igualdade de deveres: enquanto soldados e reservistas enfrentam sucessivas mobilizações, homens ultraortodoxos não poderiam permanecer indefinidamente fora do sistema. Os partidos religiosos respondem que obrigar estudantes de yeshivas a abandonar sua formação ameaça a própria sobrevivência de sua comunidade.

É difícil exagerar o tamanho dessa contradição para Israel. O país construiu uma parte central de sua identidade política em torno das Forças de Defesa, instituição que funciona não apenas como aparato militar, mas como elemento de integração social e símbolo do Estado. Ao mesmo tempo, uma parcela demograficamente crescente da população judaica resiste à incorporação a essa estrutura e, em seus setores mais radicais, chega a descrevê-la como inimiga.

A manifestação desta semana condensou essa fratura numa única cena. Homens saíram da prisão militar depois de se recusarem a vestir o uniforme e foram recebidos não como infratores, mas como exemplos a serem seguidos. Crianças receberam presentes celebrando sua resistência. Dinheiro foi prometido aos libertados. Cartazes declararam que aqueles jovens preferiam enfrentar a prisão a servir.

Não se tratava apenas de pedir uma mudança na lei.

Tratava-se de demonstrar que existe dentro de Israel uma comunidade organizada disposta a desafiar materialmente a autoridade do Estado quando essa autoridade chega às portas das yeshivas.

A guerra aumentou a necessidade de soldados. O crescimento dos haredim aumentou o número de homens potencialmente sujeitos ao recrutamento. A Suprema Corte reduziu a capacidade jurídica de preservar as antigas exceções. E as ruas demonstram que impor a nova realidade pela força também possui custos políticos e sociais crescentes.

Por isso, enquanto Israel mantém operações militares e confrontos externos que ocupam as manchetes internacionais, uma disputa menos visível avança dentro de suas próprias fronteiras. Ela não envolve Hamas, Hezbollah ou Irã. Coloca frente a frente instituições do Estado israelense e uma parcela de sua própria população judaica.

Em Jerusalém, nesta semana, milhares de manifestantes deixaram explícito até onde estão dispostos a levar esse confronto.

Para eles, os homens que passaram pela prisão por se recusarem ao recrutamento não eram desertores.

Eram exemplos.