Militares dos EUA visitam áreas estratégicas do Brasil em meio à tensão com governo Trump

Da Redação

Militares dos Estados Unidos visitaram instalações das Forças Armadas brasileiras e conheceram atividades relacionadas à defesa da Amazônia e das faixas de fronteira do país em junho. Os intercâmbios ocorreram em meio ao agravamento das tensões entre os governos do Presidente Lula e Donald Trump e ao debate sobre os riscos decorrentes da nova estratégia de Washington para a América Latina.

Segundo informações publicadas pela Revista Sociedade Militar, militares da Academia Naval dos Estados Unidos visitaram, em 15 de junho, o Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus. Uma semana antes, integrantes da Academia Militar de West Point haviam conhecido atividades do Exército Brasileiro nas faixas de fronteira.

Os cadetes de West Point também passaram pelo Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, onde visitaram instalações militares, entre elas o Palácio Duque de Caxias.

As atividades fazem parte dos intercâmbios mantidos historicamente entre as Forças Armadas dos dois países. O momento político em que ocorrem, entretanto, amplia o debate sobre os limites da cooperação militar com Washington, especialmente depois das pressões econômicas e políticas exercidas pelo governo Trump contra o Brasil.

Amazônia e fronteiras no roteiro dos militares norte-americanos

As visitas envolveram áreas diretamente relacionadas à defesa territorial brasileira. O Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus, é uma das principais referências internacionais na preparação militar para operações em ambiente amazônico.

A região também ocupa posição central na política de defesa brasileira por suas dimensões territoriais, fronteiras internacionais, reservas minerais, biodiversidade e recursos hídricos.

A passagem de integrantes de West Point por atividades relacionadas às faixas de fronteira acrescenta outra dimensão ao intercâmbio. O Brasil possui milhares de quilômetros de limites terrestres com países sul-americanos e enfrenta problemas relacionados ao narcotráfico, ao garimpo ilegal e a outras redes criminosas transnacionais.

O intercâmbio militar, por si só, não é uma novidade. Brasil e Estados Unidos mantêm uma longa relação de cooperação entre suas Forças Armadas, com cursos, visitas institucionais e exercícios conjuntos.

A questão levantada agora está relacionada ao contexto geopolítico. O governo Trump ampliou sua pressão sobre a América Latina e passou a tratar o Hemisfério Ocidental como área prioritária de sua política externa e de segurança.

Relação militar continua apesar da crise diplomática

Em entrevista realizada em junho, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, afirmou que a relação entre as forças militares dos dois países permanece estável.

Segundo o general, militares brasileiros continuam realizando atividades nos Estados Unidos, enquanto militares norte-americanos permanecem em intercâmbios no Brasil. Tomás Paiva também citou uma viagem realizada aos Estados Unidos em março e afirmou que a relação institucional segue sem alterações relevantes.

A continuidade da aproximação militar contrasta com a relação política entre os dois governos.

Donald Trump já utilizou medidas econômicas para pressionar o Brasil e interferir no debate político brasileiro. O governo norte-americano também passou a tratar o combate ao narcotráfico latino-americano como questão de segurança nacional, ampliando preocupações sobre a possibilidade de ações unilaterais na região.

Em maio, os comandantes do Exército e da Marinha brasileiros também estiveram a bordo do porta-aviões nuclear USS Nimitz durante a passagem do grupo de ataque norte-americano pelo Rio de Janeiro. Os militares acompanharam atividades da embarcação durante a operação Southern Seas 2026.

Brasil já suspendeu exercícios conjuntos em momento de tensão

A relação militar entre Brasil e Estados Unidos já provocou controvérsias durante o atual período de tensão diplomática.

Em 2025, exercícios militares conjuntos previstos para ocorrer no Brasil foram cancelados. Entre eles estava a Operação Core, que teria participação de tropas brasileiras e norte-americanas em Pernambuco.

Oficialmente, a suspensão foi atribuída à necessidade de concentrar recursos na Operação Atlas, realizada pelas Forças Armadas brasileiras na Amazônia. Naquele momento, porém, o país enfrentava o primeiro grande período de tensão com o governo Trump, incluindo o tarifaço contra produtos brasileiros e as pressões relacionadas ao processo judicial de Jair Bolsonaro.

A realização de exercícios militares com tropas dos Estados Unidos passou a ser questionada por setores políticos que consideravam incompatível ampliar a cooperação militar enquanto Washington adotava medidas contra o Brasil.

As visitas realizadas em junho de 2026 mostram que, apesar das disputas diplomáticas, a cooperação entre os militares dos dois países continua.

Classificação de facções brasileiras aumenta preocupação

Outro ponto de tensão envolve a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital, PCC, e o Comando Vermelho, CV, como organizações terroristas.

O governo brasileiro tem manifestado preocupação com as consequências jurídicas e militares dessa classificação. O receio está relacionado à doutrina utilizada por Washington em outros países, onde a designação de grupos como terroristas ou narcoterroristas passou a integrar justificativas para operações extraterritoriais.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a enviar ao Congresso informações sobre os riscos relacionados a uma possível ação militar norte-americana em território brasileiro.

O governo dos Estados Unidos negou a intenção de realizar uma intervenção militar no Brasil. Em nota divulgada em julho, o Departamento de Estado classificou essa possibilidade como absurda e afirmou que suas medidas são destinadas ao combate de grupos classificados por Washington como narcoterroristas.

A resposta, entretanto, manteve acusações contra governos latino-americanos e afirmou que os Estados Unidos agirão contra organizações criminosas que, segundo Washington, operam em território norte-americano.

Cooperação militar exige debate sobre soberania

A presença de cadetes e militares estrangeiros em atividades de intercâmbio não significa, isoladamente, ameaça de intervenção ou violação da soberania brasileira. O próprio Brasil participa de treinamentos e missões de cooperação com diferentes países, e exercícios internacionais são uma prática comum entre as Forças Armadas.

O debate atual surge do contraste entre a normalidade das relações militares e o comportamento político do governo Trump em relação ao Brasil e a outros países latino-americanos.

Enquanto Washington pressiona economicamente o Brasil e adota uma política mais agressiva para o continente, integrantes de instituições militares norte-americanas conhecem estruturas relacionadas à guerra na selva e à proteção das fronteiras brasileiras.

A continuidade dessas atividades coloca para o governo brasileiro uma questão concreta sobre quais áreas da cooperação militar devem ser preservadas, quais informações podem ser compartilhadas e quais limites precisam ser estabelecidos diante das mudanças na política externa dos Estados Unidos. A resposta exige critérios de defesa nacional e transparência institucional, sem transformar intercâmbios regulares em ameaça inexistente, mas também sem ignorar o contexto político em que estão ocorrendo.