Atitude Popular

Morre Renato Rabelo, dirigente histórico do PCdoB

Da redação – Nota oficial do Partido Comunista do Brasil

Em nota oficial, o PCdoB lamentou a perda de “um dos mais importantes dirigentes de sua história centenária”

O líder comunista Renato Rabelo, presidente de honra e dirigente histórico do PCdoB, morreu neste domingo (15), aos 83 anos, em São Paulo. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein e não resistiu às complicações de saúde.

Em nota oficial, o PCdoB lamentou a perda de “um dos mais importantes dirigentes de sua história centenária”. O documento é assinado pela presidenta em exercício do Partido, Nádia Campeão, pela presidenta licenciada, Luciana Santos, e pela Comissão Executiva Nacional.

“O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) comunica, com imensa dor, o falecimento aos 83 anos de idade de Renato Rabelo”, aponta a nota. “Nos últimos três anos, Renato dedicou-se a cuidar da saúde, sem deixar de contribuir com o PCdoB. No período mais recente, lutou de modo tenaz contra a evolução de um câncer. O seu coração parou de bater na manhã deste domingo, 15 de fevereiro de 2026”.

Renato – que presidiu o Partido de 2001 a 2015 – completaria 84 anos no próximo dia 22. O velório, aberto ao público, será no Palácio do Trabalhador, em São Paulo, em horário a ser confirmado. Já a cerimônia de cremação será restrita.

Conforme a nota oficial, “Renato deixa uma rica produção política, teórica e ideológica, um magnífico exemplo de vida e de militância política”. Sua atuação foi responsável “pelo engrandecimento do PCdoB, pela sua respeitabilidade e pela sua força como organização protagonista na luta política nacional e internacional”.

Do movimento estudantil à resistência à ditadura

Nascido em Ubaíra (BA), em 22 de fevereiro de 1942, José Renato Rabelo iniciou a militância através do movimento estudantil. Quando era aluno da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), passou a integrar a Juventude Universitária Católica (JUC), um dos braços mais ativos da Ação Católica Brasileira. Em 1965, já vinculado à AP (Ação Popular), foi eleito presidente da UEB (União dos Estudantes da Bahia).

Sob a ditadura militar (1964-1985), a perseguição logo atingiu Renato. Em julho de 1966, ele foi até Belo Horizonte (MG) para participar do 28º Congresso da UNE , (União Nacional dos Estudantes), realizado de modo clandestino. Os delegados o elegeram vice-presidente da entidade, numa diretoria encabeçada pelo mineiro José Luís Guedes.

Àquela altura, Renato já despontava como um dos principais quadros da AP. “Após o término de minha gestão na UNE, fui incorporado à direção nacional na Ação Popular, indo estudar na China por seis meses, em plena Revolução Cultural. No retorno ao Brasil, participei da luta política da AP em Goiás”, relatou Renato.

No PCdoB

Em 1971, a AP virou APML (Ação Popular Marxista Leninista). A repressão da ditadura a seus opositores estava no auge. Dentro da organização, ganhava força a ideia de incorporar a APML ao PCdoB, que organizava a Guerrilha do Araguaia. A incorporação foi concretizada em maio de 1973, e Renato passou a integrar o Comitê Central do Partido.

Porém, com os comunistas na mira da ditadura, boa parte dos primeiros anos de Renato no PCdoB foi vivida do exílio, especialmente em Paris. Foi nesse período que Renato estreitou seus vínculos com João Amazonas, principal dirigente do PCdoB. Eles voltaram ao Brasil em 1979, após a assinatura da Lei da Anistia.

Da redemocratização ao governo Lula

Nos primeiros anos da década de 1980, a abertura “lenta, gradual e segura” da ditadura permitiu ao PCdoB ter uma atuação semiclandestina. O Partido continuaria na ilegalidade até 1985, mas participou ativamente da luta pelas Diretas-Já. Em 1983, Renato foi um dos organizadores do 6º Congresso Nacional do PCdoB.

Desde então, ele se firmou como um excepcional dirigente, com dedicação integral ao PCdoB, assumindo funções cada vez mais importantes. Como vice-presidente por dois mandatos, ele foi responsável pelo trabalho de Juventude e pela Organização. No 10º Congresso, em 2001, chegou à presidência do PCdoB, substituindo o amigo e camarada João Amazonas.

À frente da direção, uma de seus primeiros desafios foi integrar a coordenação da vitoriosa campanha de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de 2002. O ciclo de governos democráticos e progressistas levou o PCdoB, pela primeira vez em sua história, ao comando de ministérios, secretarias, agências e outros órgãos federais. Renato não apenas estimulou a maior inserção de comunistas na frente institucional. Sob sua presidência, o Partido elegeu dois senadores, um governador e 106 prefeitos.

Socialismo

Outro feito liderado por Renato foi o Programa Socialista para o Brasil, aprovado no 12º Congresso do PCdoB, em 2019. O documento defende “o socialismo renovado, com feição brasileira”. Para isso, é necessário viabilizar um novo projeto nacional de desenvolvimento. O Programa foi sintetizado no lema “O socialismo é o rumo, o fortalecimento da Nação é o caminho”.

No 13º Congresso, em 2013, Renato iniciou a transição na presidência do Partido. Para seu lugar, indicou a ex-prefeita de Olinda e ex-deputada estadual pelo PCdoB-PE, Luciana Santos, que passou a exercer o cargo efetivamente em 2015.

O dirigente permaneceu no Comitê Central, e sua principal tarefa, na sequência, foi a de presidir a Fundação Maurício Grabois. Após sete anos, ele renunciou ao posto, em maio de 2023, por razões de saúde. Se a presença de Renato em atividades públicas escasseou, os tributos ao dirigente se multiplicaram. Ele se tornou presidente de honra da Fundação Maurício Grabois e do PCdoB. Em abril de 2025, foi lançada em São Paulo a biografia Renato Rabelo – Vida, Ideias e Rumos, de autoria do jornalista e escritor Osvaldo Bertolino.

Ainda em 2025, no processo do 16º Congresso do Partido, Renato foi homenageado em diversos estados. Sua última participação presencial numa atividade partidária ocorreu em 20 de setembro, na 22ª Conferência Estadual do PCdoB-SP, para a qual foi declarado “delegado de honra”.

À plenária final do Congresso, em outubro, Renato gravou um vídeo que pode ser visto, agora, como sua mensagem de despedida à militância. “Os comunistas, mais uma vez, assumirão seus postos de luta com a certeza de que caminhamos na direção do nosso objetivo estratégico – a conquista do socialismo em nosso país”, afirmou Renato. “Este plenário de delegados, delegadas e convidados representam nosso maior tesouro de nosso Partido: o consciente e combativo coletivo de militantes comunistas. Tenho confiança em vocês! Muito obrigado.”

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