Psicanalista explica por que ouvir exige presença, defende limites diante do desrespeito e mostra como a comunicação pode reduzir conflitos familiares, políticos e profissionais
Da Redação
A multiplicação dos meios de comunicação não tornou as pessoas necessariamente mais disponíveis para o diálogo. Embora mensagens, opiniões e conteúdos circulem o tempo inteiro, a pressa para responder, a necessidade de vencer discussões e o julgamento antecipado dificultam a construção de conversas nas quais os envolvidos estejam realmente dispostos a compreender o que o outro apresenta.
A análise foi feita pela psicanalista Mara Siqueira, especialista em gestão de conflitos, durante o programa Café com Democracia, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular na quinta-feira (20). Em entrevista ao apresentador Luiz Regadas, Mara discutiu a importância da empatia, da escuta ativa e da comunicação não violenta para a convivência em ambientes familiares, políticos e profissionais.
“Muito se fala, mas pouco se escuta”, resumiu a convidada.
Segundo Mara, conversar e dialogar não são práticas equivalentes. Uma conversa pode se limitar à troca de informações ou assumir a forma de um monólogo, enquanto o diálogo depende da disposição para oferecer ideias e acolher aquilo que o interlocutor tem a dizer.
Inspirada na formulação do educador Paulo Freire, a psicanalista definiu o diálogo como um encontro entre sujeitos. Nessa relação, ninguém deve partir da premissa de que possui sozinho todas as respostas ou de que o outro não tem conhecimento relevante a compartilhar.
“Dialogar não é apenas jogar conversa fora. Dialogar não é debater. É uma disposição de dois ou mais sujeitos para uma troca de saberes, entendendo que eu tenho algo a oferecer, mas também devo acolher o que o outro está me trazendo”, explicou.
Para ela, o diálogo também pode funcionar como método de resolução pacífica de conflitos. Isso não significa que todas as conversas terminarão em consenso. Em muitos casos, o resultado possível será o reconhecimento da divergência e o estabelecimento de condições mínimas de respeito.
Ouvir não é o mesmo que escutar
Mara diferenciou o ato físico de ouvir da disposição subjetiva necessária para escutar. Sons e palavras podem ser percebidos mecanicamente, mas a escuta exige atenção, presença e curiosidade sobre a experiência do interlocutor.
Em muitas conversas, a pessoa permanece em silêncio apenas enquanto prepara sua resposta. Em vez de acompanhar o raciocínio que está sendo apresentado, ela organiza argumentos, antecipa julgamentos e procura contradições que possa usar para rebater o outro.
“Quando a gente escuta pensando no que vai responder, fica desconectado do outro”, afirmou.
A dificuldade aumenta em um cotidiano marcado pela realização simultânea de várias atividades. Celulares, notificações e outras demandas dividem a atenção e impedem que as pessoas estejam inteiramente presentes na conversa.
Para a psicanalista, a escuta ativa também requer humildade. Quem inicia o diálogo acreditando que possui todo o conhecimento não encontra razões para fazer perguntas nem demonstra interesse pela formação da opinião alheia.
“Se eu entro num diálogo e acredito que o outro não tem nada a me acrescentar, que sou a dona do saber, não vai existir uma troca”, disse.
A curiosidade, nesse contexto, não equivale à concordância. É possível procurar entender como uma pessoa chegou a determinada posição sem aderir a ela. A escuta permite reconhecer o caminho percorrido pelo interlocutor e responder com maior clareza.
Polarização transforma divergência em julgamento
Ao analisar a polarização política, Mara observou que muitas conversas passaram a funcionar como disputas entre equipes adversárias. A pessoa escuta apenas para encontrar uma forma de contra-atacar, enquanto opiniões políticas são utilizadas para definir integralmente o caráter do interlocutor.
“Os diálogos estão seguindo para um viés de debate e julgamento, no qual quem pensa diferente não faz parte do meu time”, avaliou.
Segundo a convidada, esse comportamento não surgiu apenas com a política. Futebol e religião também motivam conflitos nos quais a identidade do outro é reduzida a uma preferência ou convicção. O problema se agrava quando essa classificação impede qualquer contato com as demais dimensões da pessoa.
“Por trás daquela posição existe um ser humano. Existe alguém que pensa para além da política, que tem sua família, sua profissão e suas atividades. Uma posição não define toda aquela pessoa”, afirmou.
Mara recorreu à comunicação não violenta, formulada pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, para explicar que posições aparentemente incompatíveis podem estar relacionadas a necessidades humanas semelhantes. Respeito, consideração e segurança podem ser buscados por pessoas que adotam caminhos políticos muito diferentes.
Compreender as necessidades envolvidas não significa aceitar manifestações violentas ou abandonar princípios. A proposta é identificar o que está sendo defendido para que a conversa não permaneça restrita a rótulos.
Entre “cuspir fogo” e “engolir sapos”
A psicanalista apresentou dois padrões de comportamento observados na gestão de conflitos. O primeiro é o da pessoa que “cospe fogo”, reage imediatamente e transforma qualquer incômodo em confronto. O segundo é o de quem “engole sapos”, evita manifestar descontentamento e acumula frustrações para impedir uma discussão.
Nenhum dos extremos favorece relações saudáveis. A reação impulsiva pode produzir ofensas e rompimentos, enquanto o silêncio prolongado mantém situações de desrespeito e contribui para o adoecimento emocional.
Mara explicou que uma resposta imediata reduz o tempo disponível para processar a informação e organizar uma comunicação assertiva. Nesse estado, a pessoa pode transformar o que chama de sinceridade em agressão.
“Hoje existe o que chamamos de ‘sincericídio’. A pessoa acha que está sendo autêntica, mas, na verdade, utiliza uma comunicação violenta, rotula o outro e o coloca numa caixa de falta de inteligência ou de qualidades”, afirmou.
A assertividade oferece outra possibilidade. A pessoa comunica o desconforto, descreve o comportamento que provocou o problema e apresenta um pedido concreto, sem desqualificar o interlocutor.
Esse processo exige autorregulação. Antes de responder, é preciso avaliar o próprio estado emocional e verificar se há condições para prosseguir com a conversa.
Nem todo diálogo pode continuar naquele momento
Embora trabalhe com mediação, Mara rejeitou a ideia de que toda conversa precisa continuar indefinidamente. O diálogo depende da participação de todas as pessoas envolvidas e não deve ser romantizado quando já existe desrespeito.
“Eu gostaria de dizer que o diálogo é sempre possível, mas não posso romantizar as relações. Para ele acontecer, é preciso que as duas pessoas estejam dispostas”, ponderou.
Quando o interlocutor está fechado, procura apenas atacar ou transforma cada frase em material para uma nova acusação, estabelecer um limite pode ser a escolha mais responsável. A conversa pode ser suspensa e retomada em outra ocasião.
A mesma honestidade deve ser aplicada ao próprio estado emocional. Quem está irritado, abalado ou sem condições de escutar pode comunicar que prefere conversar posteriormente.
“É importante dizer: ‘Neste momento, não me sinto confortável para continuar. Vamos tratar de outro assunto ou conversar em outro dia’”, exemplificou.
Para Mara, interromper uma discussão nessas condições não representa necessariamente fracasso. A pausa pode evitar agressões e permitir que os envolvidos retomem o assunto com maior disponibilidade.
Empatia não exige concordância
A psicanalista também abordou os conflitos familiares provocados por diferenças políticas. Ela relatou que possui divergências com o próprio irmão e procura compreender os valores e experiências que sustentam a posição dele.
“Eu busco entender, não no sentido de acolher a posição, mas de saber o que está por trás daquela forma de pensar e o que é tão importante que ele quer preservar”, explicou.
Cada pessoa interpreta o mundo a partir de uma trajetória particular. A formação familiar, as experiências sociais, as fontes de informação e as referências acumuladas influenciam as posições assumidas na vida adulta.
“A minha bagagem é diferente da sua e da bagagem do ouvinte. As nossas experiências, as fontes nas quais buscamos conhecimento e as pessoas que nos acompanharam desde a infância ajudam a explicar nossas posições”, disse.
A empatia, portanto, não exige que alguém abandone sua opinião. Ela permite reconhecer que o interlocutor possui uma história e que sua posição não apareceu sem contexto.
Essa compreensão possui limites. Discursos ofensivos, ameaças e tentativas de desumanização não precisam ser tolerados em nome da convivência. O respeito ao outro inclui a proteção da própria integridade.
Conflitos no ambiente de trabalho podem adoecer
No ambiente profissional, as dificuldades de comunicação são agravadas por hierarquias formais e informais. Colegas que ocupam a mesma função podem tentar controlar o trabalho alheio com base no tempo de serviço, na proximidade com a chefia ou na personalidade mais agressiva.
Mara alertou que esses conflitos não devem ser tratados como inconvenientes menores. Quando são prolongados, podem afetar a saúde mental, o desempenho e a permanência do trabalhador na empresa.
“As pessoas não precisam se amar nem andar abraçadas no ambiente de trabalho, mas deve existir um mínimo de respeito para que a relação funcione e o trabalho flua”, afirmou.
Quando existe um setor de recursos humanos ou uma chefia responsável, a psicanalista recomenda procurar uma mediação institucional. Caso essa instância não esteja disponível, uma conversa direta pode ser tentada.
A forma de iniciar o contato é decisiva. Acusar o colega de egoísmo, autoritarismo ou competição tende a provocar uma reação defensiva. Perguntar como ele percebe a relação de trabalho cria uma oportunidade para que exponha sentimentos e necessidades.
“O julgamento sempre vai afastar. Se você chegar julgando, o outro vai se armar. Para conversar, é preciso saber perguntar”, orientou.
Na comunicação não violenta, a pessoa pode descrever uma situação, explicar como se sentiu, apresentar uma necessidade e formular um pedido. Em vez de classificar o colega como autoritário, pode dizer que se sente desrespeitada quando recebe ordens de alguém que ocupa a mesma função e pedir que as tarefas sejam combinadas diretamente.
Mara ressaltou que nenhuma técnica oferece controle sobre a reação do outro. A pessoa pode utilizar recursos de diálogo, mas o interlocutor ainda poderá rejeitar qualquer tentativa de entendimento.
“Nós só temos garantia sobre os nossos padrões e as nossas reações. Sobre o outro, dialogamos na tentativa de trazê-lo para esse encontro”, afirmou.
Quando todas as possibilidades são recusadas e o ambiente começa a causar sofrimento, a profissional recomenda avaliar uma mudança de setor ou outro local de trabalho. Permanecer numa situação contínua de hostilidade pode gerar consequências psicológicas mais graves.
O acordo possível pode ser apenas o respeito
Mara contestou a imagem de que uma conversa bem-sucedida precisa terminar com reconciliação completa. Em determinados conflitos, o melhor resultado será um pacto para manter uma relação funcional e respeitosa.
“As pessoas pensam que o diálogo para a paz é aquele em que todos se abraçam e dão as mãos ao final. Não necessariamente. Às vezes, o necessário é um pacto de respeito”, explicou.
Esse entendimento é particularmente importante no trabalho e em relações familiares nas quais o afastamento completo não é possível ou desejável. As partes podem reconhecer suas diferenças e definir temas, comportamentos ou limites que tornem a convivência viável.
A mediação de uma terceira pessoa também pode ajudar quando os envolvidos não conseguem mais conversar diretamente. O mediador não decide quem venceu, mas organiza a comunicação e cria condições para que cada pessoa seja ouvida.
A expectativa também interfere na conversa
A sensação de vazio depois de uma conversa pode surgir quando não houve presença nem troca. Também pode resultar de uma expectativa não comunicada. Uma pessoa procura acolhimento, enquanto a outra oferece conselhos, críticas ou soluções que não foram solicitadas.
Para evitar esse desencontro, Mara recomenda explicitar a intenção da conversa. Alguém que precisa apenas desabafar pode dizer que não deseja conselho e que, naquele momento, busca somente ser escutado.
“É preciso demonstrar a intencionalidade do diálogo para conseguir uma conexão exitosa”, afirmou.
Também é necessário considerar que o interlocutor pode estar enfrentando dificuldades desconhecidas. Uma resposta fria ou distraída não significa obrigatoriamente rejeição. A pessoa pode ter vivido uma discussão familiar, recebido uma notícia ruim ou estar emocionalmente indisponível.
A empatia inclui avaliar o momento e reconhecer que nem toda conversa precisa acontecer imediatamente.
Diálogo exige disposição para a troca
Ao final da entrevista, Mara reforçou que a convivência com as diferenças depende da capacidade de escutar sem transformar toda divergência em disputa.
“É muito importante buscar o diálogo. Se ele não estiver sendo produtivo, estabelecer limites também será uma ferramenta importante”, resumiu.
Para a psicanalista, a contribuição de Paulo Freire permanece atual porque apresenta o diálogo como encontro entre pessoas que reconhecem a incompletude do próprio conhecimento. Quem entra numa conversa disponível para a troca não precisa renunciar às suas convicções, mas aceita que o outro também possui algo a dizer.
“Se perceber que não há possibilidade de continuar, siga seu caminho com respeito e empatia, entendendo que cada um tem sua história”, concluiu.
Referências
Paulo Freire, educador brasileiro citado por sua concepção do diálogo como encontro e troca entre sujeitos
Marshall Rosenberg, psicólogo norte-americano e formulador da comunicação não violenta
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
👥 Torne-se membro do nosso canal no YouTube
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O





