“Não é deixar de produzir, é produzir com responsabilidade”

Debate no programa Bancos da Democracia reuniu representantes da agricultura familiar, da sociobiodiversidade e do poder público para discutir mudanças climáticas, políticas de garantia de preços e valorização dos territórios**

O avanço das mudanças climáticas sobre os territórios brasileiros amplia desafios para comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais para produzir, gerar renda e preservar seus modos de vida. Essa realidade foi discutida no programa Bancos da Democracia, exibido em 14 de setembro pela Rádio e TV Atitude Popular, em uma conversa sobre biodiversidade, ciência, saberes tradicionais, economia solidária e políticas públicas para os povos do campo, das águas e das florestas. A entrevista reuniu Aparecido Alves, agricultor agroecológico e presidente da Associação UNICAFES Brasil; Ianelli Sobral, da Coordenação-Geral de Política de Garantia de Preços Mínimos do Ministério do Desenvolvimento Agrário; e João da Mata, gestor ambiental com atuação na promoção da sociobiodiversidade.

A discussão partiu da importância da Amazônia e do Cerrado, especialmente em um período marcado por temperaturas elevadas, alterações no regime de chuvas e eventos climáticos extremos. Na apresentação do programa, a jornalista Sara Gois destacou que setembro reúne datas dedicadas à valorização desses biomas, como o Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, e o Dia Nacional do Cerrado, em 11 de setembro. A proposta do encontro foi relacionar a preservação ambiental à vida concreta das comunidades que ocupam esses territórios e dependem deles para produzir e sobreviver.

Durante o programa, João da Mata chamou atenção para o impacto desigual das mudanças climáticas. Segundo ele, comunidades tradicionais e populações historicamente vulnerabilizadas sofrem de maneira mais intensa com secas, chuvas e outros eventos extremos, justamente porque sua existência está profundamente ligada aos territórios, aos recursos naturais e às formas tradicionais de produção.

“Essas populações historicamente são vulnerabilizadas, são muitas vezes invisibilizadas, e os impactos são muito mais severos em cima dessa turma”, afirmou João. Para ele, a resposta aos problemas climáticos exige políticas públicas capazes de reconhecer o papel dessas comunidades na conservação ambiental e na produção de alimentos.

O gestor ambiental também defendeu uma mudança na maneira como a sociedade se relaciona com os recursos naturais. Na avaliação apresentada durante a entrevista, preservar não significa interromper a produção, mas estabelecer formas de produção compatíveis com os limites ambientais.

“Não é deixar de produzir, é produzir com responsabilidade”, declarou João. A ideia, segundo ele, envolve reduzir práticas que provocam impactos negativos, preservar as condições ambientais dos territórios e garantir que as populações possam continuar vivendo e trabalhando nas regiões onde construíram suas histórias.

Aparecido Alves trouxe para o debate a experiência de mais de três décadas de atuação no Cerrado, especialmente no Norte de Minas Gerais. Ele destacou a diversidade biológica e cultural do bioma, mas também apontou ameaças provocadas pela expansão de monoculturas e pela mineração.

Segundo Aparecido, a expansão do eucalipto tem provocado impactos sobre áreas tradicionalmente utilizadas pelas comunidades. Ele citou as chapadas como importantes áreas de armazenamento de água e afirmou que a retirada da vegetação nativa para o plantio de monoculturas interfere na disponibilidade hídrica e na biodiversidade.

Apesar das dificuldades, o agricultor apresentou a sociobiodiversidade como uma alternativa para conciliar geração de renda e conservação. A experiência da Cooperativa Grande Sertão, segundo ele, mostra como produtos nativos podem ser transformados em fontes de trabalho e renda para as famílias sem que a preservação do bioma seja abandonada.

Entre os produtos citados estão pequi, buriti, baru, mangaba e coquinho azedo, também conhecido como butiá. A cadeia produtiva desses produtos envolve diferentes etapas, desde a coleta até o beneficiamento e a transformação em alimentos e outros produtos.

Aparecido destacou ainda o peso das mulheres e dos jovens nessas cadeias produtivas. Segundo ele, cerca de 90% das pessoas envolvidas nas cadeias do pequi e do buriti são mulheres e jovens, o que faz dessas atividades também instrumentos de geração de renda e permanência das novas gerações nos territórios.

A conversa também apresentou exemplos de como a biodiversidade pode se transformar em produtos com maior valor agregado. Além de polpas, óleos, doces, farinhas e sorvetes, a experiência da Cooperativa Grande Sertão inclui uma cerveja produzida a partir do coquinho azedo. O objetivo, explicou Aparecido, é também dar visibilidade a produtos e saberes que muitas vezes permanecem desconhecidos fora das regiões onde são tradicionalmente produzidos.

O pequi, por exemplo, aparece em diferentes preparações da culinária do Norte de Minas, enquanto o buriti pode ser utilizado na produção de óleo, doces e farinha. O baru também foi apresentado como uma castanha de grande potencial econômico e nutricional. Para Aparecido, ampliar o conhecimento sobre esses produtos é uma forma de fortalecer as cadeias produtivas e valorizar o próprio bioma.

A discussão sobre geração de renda levou diretamente ao papel das políticas públicas. Ianelli Sobral explicou durante o programa o funcionamento da Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade, conhecida pela sigla PGPM-Bio.

A política estabelece preços mínimos para produtos extrativistas e permite uma complementação financeira quando a comercialização ocorre abaixo do valor definido pelo governo. Segundo Ianelli, atualmente a política contempla 17 produtos da sociobiodiversidade, entre eles pequi, buriti, umbu, mangaba, açaí e pirarucu de manejo.

O mecanismo procura oferecer maior segurança de renda para extrativistas e comunidades tradicionais. A lógica é evitar que uma queda dos preços de mercado inviabilize a atividade e leve produtores a abandonar práticas que também contribuem para a conservação dos biomas.

Ianelli explicou que a Companhia Nacional de Abastecimento, a CONAB, é responsável pela operacionalização da política. Para acessar a subvenção, é necessário comprovar a comercialização do produto e apresentar a documentação exigida. O acesso pode ocorrer individualmente ou por meio de cooperativas e associações.

Segundo a entrevistada, há recursos destinados à execução da política que nem sempre são integralmente utilizados porque muitos produtores desconhecem o mecanismo. Ela afirmou que, em 2026, estão previstos R$ 20 milhões para o pagamento das subvenções e destacou a necessidade de ampliar a divulgação da política entre as comunidades que podem ter direito ao benefício.

Durante a entrevista, Ianelli também citou o preço mínimo estabelecido para a amêndoa do baru em 2026, de R$ 35,29. A política, explicou, permite complementar a renda quando o produtor comercializa o produto por valor inferior ao mínimo estabelecido.

Outro ponto destacado foi a necessidade de integrar diferentes políticas públicas. Ianelli explicou que existe atualmente um grupo gestor interministerial voltado à política, reunindo diferentes áreas do governo federal e a CONAB. A intenção é evitar que a questão do preço seja tratada de forma isolada e articulá-la com políticas de alimentação escolar, aquisição de alimentos, produção e conservação ambiental.

Para João da Mata, entretanto, a política de garantia de preços é apenas uma parte de uma agenda mais ampla. Ele apontou questões fundiárias, assistência técnica, acesso a mercados, alimentação escolar e qualificação dos processos produtivos como elementos necessários para fortalecer as comunidades tradicionais.

O gestor defendeu que os produtores não permaneçam restritos à comercialização da matéria-prima, enquanto outras etapas da cadeia ficam concentradas em empresas que agregam valor ao produto. Como exemplo, citou a diferença entre o valor recebido por extrativistas pela castanha e o preço alcançado pelo produto depois de beneficiado e colocado no mercado.

A questão fundiária apareceu, portanto, como um dos problemas estruturais para as populações que vivem nos biomas. Sem segurança sobre o território, o acesso a políticas públicas e a construção de cadeias produtivas sustentáveis tornam-se mais difíceis.

O debate também abordou a necessidade de investir em pesquisa e tecnologia. Aparecido ressaltou que algumas etapas do beneficiamento ainda exigem equipamentos e soluções tecnológicas que estão fora da capacidade financeira de muitos agricultores e cooperativas. Para ele, políticas públicas de pesquisa e inovação podem ajudar a transformar produtos da sociobiodiversidade em atividades econômicas mais estruturadas.

A mudança climática atravessou toda a conversa. João destacou que a preservação dos biomas não pode ser tratada apenas como uma questão ambiental, porque também envolve segurança alimentar, saúde, renda e permanência das populações em seus territórios.

Na avaliação apresentada durante o programa, uma exploração ambiental acima da capacidade dos ecossistemas pode comprometer tanto a própria produção quanto as condições de vida das comunidades. “A gente não vai ter mais condição de produzir, a gente não vai ter mais qualidade ambiental, a gente não vai ter mais saúde”, afirmou João.

O programa também discutiu a necessidade de incorporar os saberes tradicionais às políticas públicas. Para os participantes, o conhecimento acumulado por agricultores, extrativistas e comunidades tradicionais não deve ser tratado como elemento secundário, mas como parte das estratégias de preservação e produção.

Aparecido relatou que cooperativas e organizações da agricultura familiar vêm formando redes nacionais para comercializar produtos da sociobiodiversidade de diferentes biomas. A articulação entre essas organizações, segundo ele, pode ampliar a geração de trabalho e renda e, ao mesmo tempo, valorizar os conhecimentos e modos de vida tradicionais.

No encerramento, Ianelli avaliou positivamente a atuação da atual gestão do Ministério do Desenvolvimento Agrário na pauta da sociobiodiversidade. Segundo ela, a articulação entre diferentes áreas do governo é necessária para enfrentar problemas que ultrapassam a competência de um único ministério.

Ela citou ainda uma missão interministerial realizada em territórios de castanheiros no Pará como exemplo dessa tentativa de aproximação entre políticas públicas e comunidades. “É justamente isso, é trabalhar para as pessoas com as pessoas”, afirmou.

O debate mostrou que enfrentar as mudanças climáticas não envolve apenas reduzir emissões ou preservar áreas naturais isoladamente. A discussão apresentada no Bancos da Democracia relacionou conservação ambiental, renda, segurança alimentar, acesso à terra, políticas públicas, tecnologia e valorização dos saberes tradicionais.

Nesse sentido, a sociobiodiversidade aparece como uma possibilidade de construir atividades econômicas vinculadas à conservação dos territórios. Para os participantes, fortalecer essas iniciativas significa também criar condições para que agricultores, extrativistas e comunidades tradicionais permaneçam em seus territórios e continuem produzindo sem comprometer as condições ambientais das próximas gerações.

Referências citadas na entrevista

Carlos Nobre — pesquisador brasileiro citado durante o programa em referência a estudos sobre mudanças climáticas, semiárido e transformações ambientais.

Marina Silva — ex-ministra do Meio Ambiente, mencionada durante a entrevista em referência a uma declaração sobre os impactos das mudanças climáticas sobre o Pantanal.

Cooperativa Grande Sertão — organização citada como experiência de produção agroecológica e comercialização de produtos da sociobiodiversidade no Norte de Minas Gerais.

Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais — organização apresentada como parceira do debate realizado pelo programa Bancos da Democracia.

📺 Programa Bancos da Democracia tem apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (Termo de Fomento – MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO nº 00111/2025 // TRANSFEREGOV.BR Nº991217-2025)
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