Debate no Bancos da Democracia defende energia como bem comum e critica modelo concentrador das renováveis no Brasil
No Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, celebrado em 16 de março, o programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes na TV Atitude Popular, reuniu especialistas para discutir os caminhos da produção e do consumo de energia renovável sob a perspectiva da economia solidária. A edição partiu de uma pergunta central: quem controla a energia — e para quem ela serve?
A matéria se baseia no debate exibido no canal da TV Atitude Popular no YouTube, com participação de Sávia Gavazza (Ministério da Fazenda), Ricélia Marinho (UFCG) e Guilherme Perdigão (Banco Palmas / PalmaSolar).
Logo na abertura, foi colocado o nó do problema: embora o Brasil avance na geração de energia limpa, esse crescimento tem sido apropriado por grandes grupos econômicos, reproduzindo desigualdades históricas e mantendo as comunidades apenas como território de exploração.
Transição energética sob disputa
A professora Ricélia Marinho destacou que o país vive uma disputa de modelos — não apenas tecnológica, mas política.
“O que nós estamos vendo é uma dicotomia muito forte de que modelo nós vamos adotar para fazer essa transição energética”.
Ela lembrou que o Brasil já possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o que exige cautela diante do discurso de urgência que justifica grandes empreendimentos.
O problema, segundo ela, está na forma como essa transição vem sendo conduzida:
“Os grandes empreendimentos ficam com o lucro e o prejuízo fica com o nosso povo”.
A pesquisadora relatou impactos concretos nos territórios, como deslocamento de comunidades, danos ambientais e adoecimento da população, além da ausência de planejamento e escuta.
“Não dá para trazer um novo projeto que vai fazer o deslocamento dessas pessoas. Elas não querem sair do seu território”.
O limite imposto às comunidades
Um dos momentos mais fortes do debate foi a crítica à estrutura regulatória do setor elétrico.
“É proibido a comunidade vender energia, a empresa vende, mas a comunidade não pode”.
A frase sintetiza uma contradição central: enquanto o mercado é apresentado como “livre”, ele é, na prática, restrito aos grandes agentes econômicos.
PalmaSolar: energia como prática comunitária
É nesse cenário que surge o PalmaSolar, iniciativa do Banco Palmas, no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, como uma experiência concreta de reorganização popular da energia.
O projeto é uma usina solar comunitária financiada e gerida com base nos princípios da economia solidária. Em vez de vender energia como mercadoria, o modelo funciona por adesão coletiva: os moradores se tornam participantes do sistema e passam a acessar uma energia mais barata e limpa, sem depender diretamente das grandes empresas.
“Por que não a própria comunidade fazer sua energia e consumir essa energia sem depender de uma grande empresa?”, afirmou Guilherme Perdigão.
Na prática, o PalmaSolar opera a partir da geração distribuída: a energia produzida pelas placas solares é injetada na rede elétrica e convertida em créditos para os participantes. Esses créditos reduzem o valor da conta de luz das famílias.
Mas o projeto vai além da energia.
Ele está integrado a um ecossistema mais amplo do Banco Palmas, que inclui moeda social, incentivo ao comércio local, hortas comunitárias e sistemas de reaproveitamento de resíduos. Parte do valor pago pelos usuários retorna em forma de crédito na moeda social, fortalecendo a economia do próprio bairro.
“Não é só energia solar. É um sistema que fortalece o comércio local, a alimentação, a renda e a própria comunidade”.
Outro diferencial é a lógica de pertencimento: os usuários não são tratados como clientes, mas como beneficiários de uma iniciativa coletiva. A gestão permanece no território, com diálogo direto com a comunidade.
O projeto também busca expandir seu impacto, com metas de ampliar o acesso à energia comunitária e inspirar outras experiências semelhantes em diferentes regiões do país.
Políticas públicas e o papel do Estado
Sávia Gavazza destacou que o governo federal tem buscado alinhar desenvolvimento econômico e sustentabilidade, citando o Plano de Transformação Ecológica.
Ela ressaltou que o Brasil já possui uma base energética limpa e que isso pode ser uma vantagem estratégica.
“A gente precisa aproveitar essa matriz limpa para gerar emprego, renda e melhorar a qualidade de vida das pessoas”.
Sávia também apontou o papel do Banco do Nordeste no apoio a iniciativas comunitárias, por meio de programas de microcrédito como CredAmigo e AgroAmigo, que utilizam mecanismos como o aval solidário para fortalecer redes locais.
“A gente precisa que o outro dê certo. Isso gera um ecossistema positivo dentro das comunidades”.
Nordeste no centro do futuro energético
O debate reforçou que o Nordeste não é apenas um território de exploração energética, mas um espaço de invenção.
Entre cooperativas solares, experiências comunitárias e redes de formação técnica, a região aponta caminhos para uma transição energética que não seja apenas tecnológica, mas social.
A questão que permanece é direta: energia será tratada como mercadoria ou como direito?
Experiências como o PalmaSolar mostram que, quando o controle retorna ao território, a resposta pode ser outra.
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🔗 Links interessantes
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- https://www.redebancoscomunitarios.org
- https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/energia/geracao-distribuida
- https://www.bnb.gov.br/credamigo
- https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&id=3797
- https://www.icmbio.gov.br/portal/faunabrasileira/biomas-brasileiros/caatinga









