Nelson Campos critica o governo de Benjamin Netanyahu, alerta para a desumanização dos palestinos e defende que a responsabilização por Gaza não seja confundida com hostilidade aos judeus
Da Redação
A morte de crianças palestinas em novos ataques israelenses contra a Faixa de Gaza, as declarações do rabino-chefe sefardita de Israel, David Yosef, e o reconhecimento de que militares israelenses dispararam contra o carro onde estava a menina Hind Rajab estiveram no centro do debate promovido pelo programa Café com Democracia nesta segunda-feira, 24 de agosto.
Em entrevista concedida à TV Atitude Popular, o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, conversou com o apresentador Luiz Regadas sobre a ofensiva conduzida pelo governo de Benjamin Netanyahu, a dificuldade dos organismos internacionais para proteger civis e a necessidade de distinguir judaísmo, identidade israelense e sionismo de extrema direita.
“Não se pode associar judaísmo a sionismo. O judaísmo é uma religião. O sionismo é uma escolha política”, afirmou Campos.
A distinção percorreu toda a entrevista. Para o professor, criticar o governo de Netanyahu e as operações militares realizadas na Faixa de Gaza não significa atacar os judeus como comunidade religiosa, cultural ou histórica. A generalização, além de produzir uma interpretação incorreta, dificulta o reconhecimento das vozes judaicas e israelenses que denunciam as violações cometidas contra os palestinos.
Declarações de David Yosef
A entrevista começou com a repercussão das declarações de David Yosef, rabino-chefe sefardita de Israel. Em discurso realizado em Jerusalém Ocidental, Yosef negou a existência dos palestinos como povo, afirmou que eles não teriam direitos e defendeu a destruição de Gaza e a implantação de assentamentos judaicos no território.
Nelson Campos classificou as declarações como uma tentativa de utilizar a religião para legitimar a expulsão e o extermínio de uma população. O professor destacou que os palestinos compartilham vínculos culturais, territoriais e históricos, o que torna insustentável a afirmação de que não constituiriam um povo.
“Quando ele diz que os palestinos não formam um povo, mostra apenas a sua ignorância. No sentido antropológico, um povo é constituído por pessoas que compartilham uma identidade cultural. Evidentemente, os palestinos têm uma identidade cultural”, declarou.
Campos também questionou a utilização da ideia de “terra prometida” como fundamento para decisões políticas contemporâneas. Segundo ele, narrativas religiosas podem integrar a identidade de uma comunidade, mas não autorizam a supressão dos direitos de outra população que vive há séculos no mesmo território.
“O que escutamos desse rabino é o uso do nome de Deus para justificar o massacre. Não se pode recorrer ao sobrenatural para negar a existência e os direitos de outro povo”, disse.
O professor observou que diferentes sociedades e religiões desenvolveram explicações sobre suas origens e seus vínculos com determinados territórios. A existência dessas crenças não elimina a necessidade de convivência política, respeito aos direitos humanos e reconhecimento das populações que habitam concretamente cada região.
Ataques matam crianças em Gaza
A entrevista ocorreu após novos ataques israelenses deixarem civis mortos na Faixa de Gaza. Entre as vítimas estavam crianças atingidas em diferentes pontos do território palestino. As forças israelenses afirmaram que parte das operações tinha como objetivo atingir integrantes e estruturas militares do Hamas.
Nelson Campos contestou o uso dessas justificativas quando as ações militares atingem famílias, abrigos, hospitais e áreas densamente povoadas. Para ele, a condição civil das vítimas precisa ocupar o centro da cobertura jornalística e das discussões diplomáticas.
“Eles não querem saber se são civis, se são crianças, se estão bombardeando escolas ou hospitais. Aquilo que está sendo feito contra a população palestina precisa ser chamado pelo nome”, afirmou.
O entrevistado utilizou o termo genocídio para classificar a atuação do governo de Israel em Gaza. A acusação também integra processos e debates em organismos internacionais, embora a definição da responsabilidade jurídica dos envolvidos dependa das decisões das cortes competentes.
Campos relacionou a violência no território palestino à presença de forças de extrema direita no governo israelense. Segundo ele, a desumanização de uma população permite que a morte de civis seja tratada como consequência aceitável de uma operação militar.
A morte de Hind Rajab
Um dos casos discutidos foi o de Hind Rajab, menina palestina de 5 anos morta em janeiro de 2024. Hind ficou presa dentro de um automóvel em Gaza, cercada pelos corpos de familiares, e permaneceu durante horas ao telefone com o Crescente Vermelho Palestino, pedindo que alguém a resgatasse.
Uma ambulância foi enviada ao local após uma tentativa de coordenação para permitir a passagem da equipe. Os socorristas Yusuf Zeino e Ahmed al-Madhoun também foram mortos. Os corpos de Hind, de seus familiares e dos profissionais de saúde foram encontrados dias depois.
As forças israelenses inicialmente afirmaram que não havia militares na área. Em agosto de 2026, o Exército reconheceu que soldados dispararam contra o automóvel e anunciou a abertura de uma investigação criminal sobre o caso, incluindo as falhas na coordenação do deslocamento da ambulância.
A história da menina foi retratada no filme “A voz de Hind Rajab”, dirigido pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania. A produção utiliza as gravações reais das ligações feitas durante as tentativas de resgate.
Nelson Campos afirmou que não havia assistido ao filme, mas acompanhava as informações sobre o caso. Para ele, a morte de Hind expõe a distância entre os discursos militares e a experiência concreta das famílias palestinas.
“Não interessa se é criança, mulher ou cidadão civil. Está se destruindo uma população. Não se trata de um confronto direto apenas entre pessoas armadas”, declarou.
O reconhecimento de que os militares dispararam contra o veículo não encerra o caso. Familiares de Hind e organizações humanitárias defendem uma investigação independente, diante da desconfiança sobre a capacidade das forças israelenses de apurarem a própria conduta.
A sociedade israelense não é homogênea
Luiz Regadas também apresentou o relato do ativista judeu-israelense Agmon Snir, que decidiu deixar Israel após décadas de trabalho em projetos de convivência entre israelenses e palestinos. Snir afirmou que a sociedade israelense estaria “doente” e que a maioria dos judeus israelenses não compreenderia a gravidade do que ocorre em Gaza e na Cisjordânia ocupada.
Nelson Campos ponderou que o conceito de sociedade não pode ser utilizado para atribuir uma mesma posição a todos os seus integrantes. Mesmo quando uma maioria apoia determinado governo ou tolera suas políticas, continuam existindo divergências, resistências e grupos que atuam em sentido contrário.
“Eu não gosto dessa generalização de que a sociedade pensa de uma determinada maneira, porque a sociedade é constituída por indivíduos. Mesmo no nazismo e no fascismo, nem todas as pessoas apoiavam aqueles regimes”, explicou.
Após Luiz Regadas apresentar a declaração completa do ativista, na qual Snir se referia à maioria e não à totalidade da população, Campos reconheceu a importância da ressalva. Ele observou que a extrema direita controla o governo israelense, mas enfrenta críticas de cidadãos judeus dentro e fora de Israel.
A existência dessas vozes, segundo o professor, demonstra por que a denúncia contra Netanyahu não pode ser convertida em acusação coletiva contra os israelenses ou contra os judeus.
“Esse cidadão é judeu, defende o seu povo e, ao mesmo tempo, não concorda com o que o governo está fazendo. São coisas diferentes. Ele percebe que parte significativa da sociedade está sob o controle político da extrema direita”, afirmou.
Crítica a Israel não é antissemitismo
Ao ser questionado sobre o risco de sofrer acusações ou processos por criticar Israel, Nelson Campos reiterou que suas declarações eram dirigidas ao governo de Netanyahu e à corrente política que sustenta as operações em Gaza.
“Eu não estou falando contra Israel. Estou falando contra o atual governo de Israel”, esclareceu.
O professor citou o jornalista Breno Altman, alvo de questionamentos judiciais relacionados às suas posições sobre o sionismo, para discutir a tentativa de apresentar qualquer crítica às políticas israelenses como manifestação de antissemitismo.
Para Campos, antissemitismo é a hostilidade dirigida aos judeus por sua origem, identidade ou religião. A crítica ao sionismo, por sua vez, refere-se a uma ideologia e a projetos políticos concretos. A diferença precisa ser preservada para que o combate ao preconceito não seja utilizado como proteção automática de decisões governamentais.
“Se alguém se opõe ao sionismo, tentam dizer que essa pessoa é antissemita, embora não seja o caso. É possível defender a paz e os direitos dos palestinos sem atacar os judeus”, disse.
O entrevistado também condenou o antissemitismo e recordou o extermínio de aproximadamente 6 milhões de judeus pelo regime nazista. Ele ressaltou que outras populações perseguidas pelo nazismo também foram assassinadas, incluindo pessoas com deficiência, ciganos, homossexuais, opositores políticos, prisioneiros de guerra e integrantes de comunidades religiosas.
Memória do Holocausto não pode justificar violência presente
Ao comentar a representação do Holocausto no cinema, Campos mencionou produções como “A lista de Schindler”, “O pianista” e “O menino do pijama listrado”. Essas obras contribuíram para registrar a perseguição nazista e apresentar suas consequências a diferentes gerações.
Para o professor, preservar a memória do Holocausto é necessário, mas o sofrimento imposto aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial não pode ser utilizado para minimizar as mortes de palestinos.
“É importante lembrar o que o nazismo fez contra os judeus. O que não se pode é repetir contra os palestinos aquilo que os nazistas fizeram”, declarou.
A comparação exige cuidado porque envolve períodos históricos, regimes e contextos diferentes. O argumento central apresentado por Campos foi o de que vítimas de uma perseguição histórica não recebem, por essa condição, autorização moral para negar os direitos de outra população.
Limites da ONU e das cortes internacionais
Nelson Campos também criticou a dificuldade da Organização das Nações Unidas para interromper guerras e proteger civis. O Conselho de Segurança possui cinco membros permanentes com poder de veto: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
Como os Estados Unidos mantêm uma aliança política e militar com Israel, resoluções consideradas contrárias ao governo israelense podem ser bloqueadas. Esse funcionamento limita a capacidade de ação coletiva das Nações Unidas e produz uma desigualdade entre os países submetidos às decisões internacionais.
“O próprio Presidente Lula já criticou o Conselho de Segurança da ONU. São cinco membros permanentes com direito a veto. Qualquer medida contra Israel pode ser impedida e, desse modo, o sistema não consegue funcionar”, afirmou.
O professor também comentou a atuação do Tribunal Penal Internacional, que expediu mandado de prisão contra Benjamin Netanyahu. A ordem enfrenta limites práticos, pois sua execução depende da cooperação dos países que reconhecem a jurisdição do tribunal.
Netanyahu evita territórios nos quais poderia ser detido e continua contando com a proteção dos Estados Unidos. Campos considera que essa diferença entre a existência de uma decisão judicial e a possibilidade real de cumpri-la demonstra a fragilidade do sistema internacional diante das grandes potências e de seus aliados.
Turquia pede alerta vermelho contra Netanyahu
Outro assunto apresentado na entrevista foi o pedido da Turquia para que a Interpol emitisse um alerta vermelho contra Netanyahu. A solicitação está relacionada ao processo aberto após a interceptação da Flotilha Global Sumud, que transportava ajuda humanitária para Gaza.
Um alerta vermelho não equivale automaticamente a um mandado internacional de prisão. Ele funciona como um pedido para que os países integrantes da Interpol localizem uma pessoa procurada e avaliem sua detenção provisória conforme as respectivas legislações.
Nelson Campos afirmou que Netanyahu já enfrenta acusações e decisões em instâncias nacionais e internacionais, mas permanece protegido porque restringe suas viagens a países onde não corre o risco de ser preso.
“Ele já está condenado por organismos internacionais, mas basta não ir aos países que poderiam cumprir a ordem. Nos Estados Unidos, ele se sente protegido”, observou.
Estados Unidos garantem proteção política e militar
Campos relacionou a continuidade das operações em Gaza ao apoio oferecido pelo governo norte-americano a Israel. Ele classificou Donald Trump e Netanyahu como representantes de uma extrema direita nacionalista, militarizada e disposta a ignorar os organismos internacionais.
Para o entrevistado, o governo dos Estados Unidos emprega seu peso econômico, militar e diplomático de forma desigual. Enquanto exige que outros países respeitem determinadas regras, recusa limites quando as decisões contrariam seus próprios interesses ou os de seus aliados.
O professor recordou intervenções norte-americanas no Vietnã e no Afeganistão para argumentar que uma potência militar pode invadir um território sem conseguir manter o domínio político sobre ele. A superioridade bélica permite destruir cidades e derrubar governos, mas não elimina a resistência das populações atingidas.
“O problema não é apenas invadir. O problema é manter o domínio sobre os territórios ocupados. No Afeganistão e no Vietnã, os Estados Unidos mataram muita gente, gastaram bilhões e acabaram obrigados a sair”, afirmou.
Violência prolonga o conflito
Na avaliação de Nelson Campos, a morte de civis e a destruição das condições de vida em Gaza não produzirão segurança duradoura para Israel. Crianças que sobrevivem aos ataques crescem cercadas pela perda de familiares, pela destruição de suas casas e pela ausência de perspectivas.
Esse processo alimenta novos ciclos de revolta e violência. O professor defendeu uma solução baseada no reconhecimento dos direitos palestinos, na responsabilização pelos crimes cometidos e na interrupção da política de expulsão e ocupação territorial.
“O ódio vai gerar ódio. Quando se destrói tudo e se mata uma quantidade enorme de pessoas, as crianças sobreviventes crescem, tornam-se adultas e passam a lutar contra quem massacrou seu povo”, disse.
A afirmação não foi apresentada como justificativa para ataques contra civis israelenses. Campos também criticou o fanatismo existente em organizações palestinas e defendeu que o enfrentamento ocorra no terreno político, com proteção à população civil de ambos os lados.
“As pessoas aprendem a odiar”
Ao final da entrevista, Nelson Campos retomou uma reflexão atribuída a Nelson Mandela para defender que o ódio não é uma característica natural das pessoas. Ele é aprendido por meio das relações sociais, da propaganda e de projetos políticos que transformam comunidades inteiras em inimigas.
“Nelson Mandela dizia que as pessoas não nascem odiando, elas aprendem a odiar. Portanto, também podem aprender a respeitar e a amar”, afirmou.
Para o professor, a saída exige a construção de uma sociedade capaz de reconhecer o outro independentemente da cor da pele, da origem, da religião ou da orientação sexual. Esse princípio precisa valer também nas relações internacionais, sem hierarquizar quais vidas civis merecem proteção.
“Temos que respeitar o outro ser humano porque ele merece respeito. É lamentável viver em um mundo que estabelece o ódio quando poderia construir a fraternidade”, concluiu.
Referências
O mundo como vontade e representação
Autor: Arthur Schopenhauer
Ano da primeira publicação: 1818
A lista de Schindler
Direção: Steven Spielberg
Ano: 1993
O pianista
Direção: Roman Polanski
Ano: 2002
O menino do pijama listrado
Direção: Mark Herman
Ano: 2008
A voz de Hind Rajab
Direção: Kaouther Ben Hania
Ano: 2025
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