Netanyahu sofre derrota histórica

Pesquisas de boca de urna apontam a perda da maioria parlamentar da coalizão de Benjamin Netanyahu nas eleições israelenses desta terça-feira (27), após anos de guerra, destruição de Gaza e crescente isolamento internacional. O bloco liderado por Gadi Eisenkot aparece à frente em importantes projeções, mas a formação de um novo governo ainda depende da apuração e de negociações. Alvo de mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional, Netanyahu enfrenta acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, enquanto uma comissão independente da ONU concluiu que Israel comete genocídio contra os palestinos. O revés eleitoral representa um momento de esperança para seus opositores, mas a conquista da paz e dos direitos palestinos continuará exigindo transformações muito além da substituição de um primeiro-ministro.

Da Redação

Há noites em que as urnas não conseguem apagar a dor de um povo, mas podem anunciar o enfraquecimento daqueles que governaram enquanto essa dor se multiplicava. Israel vive uma dessas noites nesta terça-feira, 27 de outubro de 2026. As primeiras projeções das eleições parlamentares apontam uma derrota expressiva da coalizão liderada por Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro que comandou a ofensiva militar contra a Faixa de Gaza e se tornou alvo de um mandado de prisão internacional por suspeitas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Depois de anos de destruição, mortes, deslocamentos forçados e denúncias internacionais de genocídio, seu bloco político aparece enfraquecido diante de uma oposição que tenta encerrar um dos períodos mais controversos da história contemporânea de Israel.

Os números divulgados pelas emissoras israelenses indicam que a coalizão de Netanyahu perdeu parte importante da força parlamentar que sustentava seu governo. Pesquisas de boca de urna atribuem aproximadamente 50 cadeiras ao bloco governista, enquanto a oposição organizada em torno de Gadi Eisenkot aparece com cerca de 52 a 53 representantes em diferentes projeções. Os partidos árabes israelenses poderão ocupar aproximadamente 17 ou 18 assentos, tornando-se potencialmente decisivos para a formação da próxima maioria.

Outras projeções apresentam diferenças na distribuição das cadeiras, e nenhuma delas garante imediatamente a substituição do primeiro-ministro. A apuração oficial continua, e o sistema parlamentar israelense exige a formação de uma coalizão capaz de conquistar o apoio de pelo menos 61 dos 120 integrantes do Knesset.

Mas o significado político da noite já é profundo. O governo que entrou na eleição com uma base parlamentar de 68 deputados enfrenta a perspectiva de sair das urnas sem maioria própria. Uma parcela expressiva dos eleitores utilizou a primeira eleição nacional desde outubro de 2023 para manifestar insatisfação com a condução do país durante um período marcado por guerras, conflitos institucionais e acusações internacionais de violações gravíssimas.

A participação eleitoral também revela a importância atribuída à disputa. Segundo os dados divulgados pela Comissão Eleitoral Central, aproximadamente 77,7% dos eleitores compareceram às urnas, o maior percentual em mais de duas décadas.

Essa mobilização não pode ser explicada por uma única questão. Israel chega à eleição profundamente dividido sobre a atuação de Netanyahu, a segurança nacional, a guerra em Gaza, as relações com os palestinos, a independência do Judiciário, as acusações de corrupção e as disputas entre setores religiosos e laicos da sociedade.

Entretanto, nenhum desses debates pode ser completamente separado das consequências humanas e políticas da ofensiva militar conduzida pelo governo israelense nos últimos três anos.

A história dessa noite eleitoral não começa nos comitês de campanha de Tel Aviv ou Jerusalém. Começa também nas ruas destruídas de Gaza, nos hospitais devastados, nas escolas transformadas em abrigos, nas famílias deslocadas e nas comunidades palestinas que perderam parte de suas condições materiais de existência.

Desde outubro de 2023, a ofensiva militar israelense provocou uma catástrofe humanitária documentada por organismos internacionais, organizações médicas e jornalistas. Mais de 74 mil palestinos morreram em Gaza, segundo os dados das autoridades sanitárias locais citados pelas principais agências internacionais. Milhares de outras pessoas ficaram feridas, perderam familiares ou foram obrigadas a abandonar repetidamente suas casas.

Os acontecimentos tiveram início depois dos ataques conduzidos pelo Hamas e outros grupos armados contra Israel em 7 de outubro de 2023, que provocaram a morte de aproximadamente 1.200 pessoas e o sequestro de 251 reféns. Esses ataques incluíram graves violações contra civis e permanecem parte essencial da história do conflito.

Mas o direito internacional não permite que crimes cometidos por grupos armados sejam utilizados para justificar punições coletivas, ataques indiscriminados ou a destruição das condições de sobrevivência de uma população inteira.

É essa distinção que se tornou central nas investigações internacionais sobre a atuação do governo Netanyahu.

Em 21 de novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional expediu mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e o então ministro da Defesa Yoav Gallant. Os magistrados identificaram fundamentos razoáveis para acreditar que ambos possuíam responsabilidade criminal por atos classificados como crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Entre as suspeitas examinadas estavam a utilização da fome como método de guerra, o assassinato e a perseguição de civis e a imposição de condições de vida incompatíveis com a proteção da população.

A decisão não representa condenação definitiva. Netanyahu rejeita as acusações, contesta a atuação do tribunal e afirma que as operações militares israelenses se destinam à segurança do país e ao combate ao Hamas.

Mas a emissão dos mandados transformou sua situação internacional. O chefe do governo de Israel passou a enfrentar formalmente um procedimento criminal internacional relacionado à condução da guerra.

A acusação de genocídio ganhou novos fundamentos em setembro de 2025, quando a Comissão Internacional Independente de Investigação das Nações Unidas sobre os Territórios Palestinos Ocupados concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido atos genocidas na Faixa de Gaza.

A comissão identificou quatro das cinco modalidades de condutas previstas na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948, incluindo assassinatos, danos graves à integridade física ou mental, imposição de condições de vida destinadas à destruição de parte do grupo e medidas destinadas a impedir nascimentos.

Os investigadores também examinaram declarações de autoridades, padrões de operações militares e decisões relacionadas à assistência humanitária para fundamentar sua conclusão sobre a existência de intenção genocida.

A conclusão é de uma comissão investigativa independente vinculada ao sistema das Nações Unidas e não equivale a uma sentença definitiva da Corte Internacional de Justiça.

Ainda assim, constitui uma acusação institucional de enorme gravidade, fundamentada em investigação sobre acontecimentos concretos e responsabilidades estatais.

Nesta segunda-feira, 26 de outubro de 2026, apenas um dia antes das eleições israelenses, a mesma comissão divulgou um novo relatório afirmando que o genocídio em Gaza não havia terminado, apesar do cessar-fogo iniciado em outubro de 2025.

O documento denuncia a continuidade de mortes de civis, a expansão das áreas controladas pelas forças israelenses e a utilização de armamentos em regiões habitadas pela população palestina.

A comissão também concluiu que foram cometidos crimes contra a humanidade na Cisjordânia ocupada, incluindo extermínio, perseguição, tortura, estupro e outras formas de violência sexual.

Israel rejeita essas conclusões e acusa a comissão de agir de maneira parcial.

O fato politicamente relevante é que a eleição desta terça-feira ocorreu enquanto o governo israelense enfrentava denúncias internacionais sobre a continuidade de violações gravíssimas, mesmo depois do anúncio de um cessar-fogo.

A própria expressão cessar-fogo adquiriu um significado contraditório para milhares de famílias palestinas.

Embora as hostilidades tenham diminuído em determinados períodos, o relatório da ONU registrou novas mortes, restrições territoriais e condições humanitárias profundamente deterioradas.

O controle militar israelense sobre Gaza também aumentou depois do acordo. Segundo a comissão, a área sob presença das forças israelenses passou de aproximadamente 53% para pelo menos 60% do território.

Essas transformações interferem diretamente na possibilidade de retorno dos deslocados, na reconstrução das moradias e na recuperação de atividades econômicas.

Por isso, a eventual saída de Netanyahu do governo poderá ser recebida com alívio por pessoas e organizações que denunciam sua responsabilidade política pela ofensiva militar.

Mas a substituição de um governante não reconstitui automaticamente hospitais, escolas, sistemas de abastecimento, comunidades destruídas ou famílias separadas pela guerra.

A paz, para os civis palestinos, precisa significar uma mudança concreta nas condições de existência.

O impacto da eleição também deve ser compreendido a partir da trajetória de Netanyahu.

O político do Likud se tornou o primeiro-ministro que mais tempo permaneceu no poder na história de Israel. Governou o país em diferentes períodos desde a década de 1990, consolidou alianças com setores conservadores e religiosos e construiu uma identidade política centrada em segurança nacional, nacionalismo e desconfiança em relação às concessões territoriais aos palestinos.

A partir de dezembro de 2022, passou a comandar uma das coalizões mais à direita da história israelense.

Seu governo reuniu partidos religiosos e ultranacionalistas que defendem políticas de ampliação dos assentamentos na Cisjordânia e rejeitam diferentes propostas destinadas à criação de um Estado palestino independente.

Figuras como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich adquiriram influência importante na estrutura governamental, especialmente sobre questões relacionadas à segurança, ao território e às relações com os palestinos.

A expansão dos assentamentos e as operações militares na Cisjordânia tornaram-se objeto de denúncias constantes de organizações de direitos humanos e organismos internacionais.

O governo também enfrentou uma crise institucional provocada por propostas destinadas a reduzir determinadas competências do Poder Judiciário.

Antes mesmo de outubro de 2023, centenas de milhares de israelenses participaram de manifestações contra essas mudanças.

As críticas estavam relacionadas à independência da Suprema Corte, aos mecanismos de controle sobre o Executivo e ao risco de concentração de poder.

A guerra alterou profundamente o ambiente político e colocou a segurança nacional no centro das disputas.

Netanyahu passou a apresentar a continuidade das operações militares como uma necessidade estratégica para impedir novos ataques contra Israel e enfraquecer as organizações armadas palestinas.

Seus adversários, entretanto, passaram a questionar a capacidade do governo de evitar os ataques de outubro de 2023, sua condução das negociações sobre reféns e a duração prolongada das operações.

Familiares de vítimas e reféns também participaram de manifestações públicas, exigindo respostas do governo e medidas para garantir a libertação das pessoas sequestradas.

A contestação a Netanyahu, portanto, reúne setores que possuem posições muito diferentes sobre os direitos palestinos, a ocupação territorial e a política externa.

Esse ponto é fundamental para compreender o significado das urnas.

A perda de apoio parlamentar ao primeiro-ministro não significa necessariamente que a sociedade israelense tenha adotado uma posição favorável ao reconhecimento imediato de um Estado palestino ou ao encerramento de todas as políticas de ocupação.

O principal adversário de Netanyahu, Gadi Eisenkot, possui uma longa trajetória militar e já ocupou o cargo de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses.

Eisenkot participou do gabinete de guerra formado depois dos ataques de outubro de 2023 e posteriormente rompeu com o primeiro-ministro, criticando sua condução das operações e das decisões de segurança.

Durante a campanha eleitoral, apresentou-se como alternativa de reorganização institucional, maior confiança na administração pública e recuperação da unidade nacional.

Entretanto, suas posições sobre segurança e sobre a criação de um Estado palestino permanecem restritivas.

Isso significa que uma eventual vitória parlamentar do bloco de Eisenkot não poderá ser confundida automaticamente com uma vitória política do movimento palestino por autodeterminação.

A mudança de governo pode produzir alterações diplomáticas e institucionais importantes, mas a transformação das políticas territoriais e militares dependerá de decisões posteriores.

A possibilidade de continuidade de posições conservadoras em matéria de segurança demonstra que o problema palestino ultrapassa a trajetória pessoal de Netanyahu.

A ocupação de territórios, a expansão de assentamentos, as restrições à circulação e as dificuldades de reconhecimento da soberania palestina possuem uma história muito anterior ao governo atual.

Sua superação exige decisões estruturais sobre território, direitos políticos, segurança, fronteiras e cumprimento do direito internacional.

Por isso, o enfraquecimento eleitoral do primeiro-ministro constitui um acontecimento relevante, mas não encerra a discussão sobre as responsabilidades do Estado de Israel diante da população palestina.

Outro aspecto particularmente importante da votação é o desempenho dos partidos representativos da população árabe israelense.

As pesquisas de boca de urna apontam uma presença parlamentar expressiva dessas legendas, que poderão conquistar aproximadamente 17 ou 18 cadeiras.

A participação de eleitores árabes adquiriu importância especial porque esses partidos são contrários à continuidade de Netanyahu, mas enfrentam resistências de setores da oposição majoritariamente judaica para integrar uma coalizão governamental.

A situação revela uma contradição política significativa.

Os partidos árabes podem conquistar representação suficiente para influenciar a formação do próximo governo, mas sua participação permanece limitada pelas posições de outros dirigentes que rejeitam alianças formais com essas forças.

Essa exclusão dificulta a construção de uma maioria parlamentar alternativa, mesmo quando a soma dos grupos contrários a Netanyahu ultrapassa numericamente seu bloco.

A formação do próximo governo dependerá, portanto, não apenas da contagem dos votos, mas também do reconhecimento da legitimidade política das diferentes representações eleitas.

Essa questão possui significado particular num país em que cidadãos árabes constituem parcela importante da população e enfrentam debates permanentes sobre igualdade, identidade nacional e participação institucional.

A noite eleitoral apresenta, assim, duas imagens simultâneas.

De um lado, a perda de força de uma coalizão que governou durante os anos mais devastadores da guerra de Gaza.

De outro, a permanência de profundas divergências internas sobre a participação de partidos árabes e sobre os direitos nacionais do povo palestino.

O resultado final dependerá das negociações parlamentares.

Depois da apuração oficial, o presidente israelense Isaac Herzog deverá consultar os partidos representados no Knesset e encarregar uma liderança de tentar formar um governo.

O escolhido precisará reunir apoio parlamentar suficiente para assegurar a continuidade da administração.

Esse processo poderá se estender por semanas.

Se nenhuma coalizão alcançar as condições necessárias para governar, Israel poderá enfrentar novas negociações ou outra eleição.

Até a formação de um novo governo, Netanyahu poderá continuar exercendo suas funções de maneira interina.

Por isso, o revés anunciado pelas pesquisas não pode ser apresentado como uma deposição já consumada.

A noite de 27 de outubro representa uma derrota política nas projeções disponíveis, mas ainda não uma transferência definitiva de poder.

O impacto internacional do resultado também precisa ser considerado.

Netanyahu construiu relações próximas com setores importantes da política americana e encontrou em Donald Trump um parceiro para diversas iniciativas diplomáticas e estratégicas.

Durante os últimos anos, os Estados Unidos continuaram desempenhando papel central no fornecimento de armamentos, no financiamento da segurança israelense e na proteção diplomática de Israel em organismos internacionais.

A proximidade entre Trump e Netanyahu foi reafirmada durante a campanha eleitoral, quando o presidente americano manifestou apoio político ao primeiro-ministro.

Uma eventual mudança de governo em Israel poderá modificar determinados aspectos dessa relação, mas não significa automaticamente o encerramento da cooperação estratégica entre os dois países.

O apoio americano a Israel possui raízes institucionais e políticas que atravessam administrações de diferentes partidos.

Da mesma maneira, a relação entre Israel e outras potências internacionais envolve interesses militares, tecnológicos, comerciais e diplomáticos que não dependem exclusivamente da presença de Netanyahu no cargo.

A responsabilização por crimes internacionais também possui continuidade própria.

O mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional não perde automaticamente seus efeitos porque uma autoridade deixa de exercer a chefia de governo.

As acusações relacionadas a condutas praticadas durante determinado período continuam submetidas aos procedimentos jurídicos competentes.

Se Netanyahu deixar a Presidência do governo israelense, sua situação perante o tribunal continuará dependendo das decisões judiciais, da cooperação dos Estados e dos mecanismos previstos no Estatuto de Roma.

A responsabilidade criminal individual não se encerra com a perda de um mandato político.

A mesma lógica se aplica às responsabilidades do Estado de Israel.

Mudanças de governo não extinguem automaticamente obrigações relacionadas à proteção de civis, à prevenção do genocídio, à assistência humanitária ou ao cumprimento de decisões internacionais.

Essas obrigações permanecem relevantes independentemente da composição partidária da administração.

O reconhecimento dessa continuidade é fundamental para evitar que a saída de uma liderança seja apresentada como solução suficiente para uma crise humanitária de dimensões históricas.

O povo palestino continuará necessitando de proteção, atendimento médico, alimentos, água, reconstrução de infraestrutura e condições de retorno às comunidades destruídas.

Também permanecerão as questões relacionadas ao direito à autodeterminação, à ocupação territorial e à construção de mecanismos políticos capazes de assegurar direitos e segurança às populações envolvidas.

A dimensão humana dessa tragédia não pode ser apagada pela disputa eleitoral.

Cada pessoa morta representa uma existência interrompida. Cada criança que perdeu a família carrega consequências que não desaparecem com a mudança de um governo. Cada hospital destruído representa milhares de atendimentos que deixaram de acontecer. Cada escola devastada compromete possibilidades de formação e convivência de uma geração inteira.

As estatísticas internacionais procuram registrar a extensão dessas perdas, mas não conseguem traduzir integralmente as experiências individuais e coletivas produzidas pela guerra.

É por isso que o significado de uma eventual saída de Netanyahu ultrapassa o ambiente político israelense.

Para aqueles que acompanham a situação palestina e denunciam as operações militares, seu enfraquecimento poderá representar um momento de esperança e uma oportunidade de exigir mudanças.

Mas essa esperança será confrontada com a realidade das decisões que vierem a ser adotadas pelo próximo governo.

A interrupção efetiva das mortes, a reconstrução de Gaza e a garantia dos direitos palestinos dependerão de medidas concretas, não apenas da substituição de nomes no comando do Estado.

O direito internacional fornece instrumentos para examinar responsabilidades, mas sua eficácia depende da cooperação entre instituições e governos.

A comissão das Nações Unidas estabeleceu conclusões graves sobre a existência de genocídio. O Tribunal Penal Internacional expediu mandados relacionados a crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A Corte Internacional de Justiça conduz procedimentos sobre a aplicação da Convenção do Genocídio.

Esses mecanismos possuem competências diferentes e não devem ser confundidos.

O que os aproxima é a necessidade de investigar acontecimentos, preservar evidências e estabelecer responsabilidades por violações do direito internacional.

As vítimas e suas famílias possuem interesse direto na continuidade dessas investigações, independentemente de quem venha a governar Israel.

A eleição desta terça-feira também demonstra que decisões políticas podem ser contestadas pelas próprias sociedades que as produziram.

Milhões de israelenses compareceram às urnas depois de um período de conflitos e transformações profundas.

Parte desses eleitores apoiou a continuidade de Netanyahu. Outros escolheram partidos comprometidos com sua substituição, por razões que incluem segurança, política econômica, independência judicial, corrupção e consequências das guerras.

Essa diversidade impede atribuir a todos os eleitores uma única interpretação sobre o resultado.

Entretanto, as pesquisas de boca de urna registram um enfraquecimento importante da coalizão que sustentava o primeiro-ministro.

A oposição interpreta o resultado como rejeição pública à continuidade de seu governo, enquanto aliados de Netanyahu ainda procuram construir condições para preservar sua influência parlamentar.

O desfecho institucional permanece aberto.

Ao mesmo tempo, as consequências da guerra continuarão presentes na vida de israelenses e palestinos muito depois do encerramento da contagem de votos.

A reconstrução da confiança política, o enfrentamento das responsabilidades jurídicas e a definição de condições para uma paz duradoura constituem tarefas de enorme complexidade.

A substituição de Netanyahu, caso seja efetivada, poderá abrir possibilidades diplomáticas e institucionais. Mas nenhuma transformação dessa dimensão ocorrerá automaticamente.

Para os palestinos, o verdadeiro significado de uma nova etapa política será medido pela possibilidade de viver sem bombardeios, expulsões, fome e restrições permanentes de direitos.

Para a sociedade israelense, o resultado também colocará questões sobre a independência das instituições, a responsabilidade dos dirigentes e os caminhos escolhidos para garantir segurança sem perpetuar o conflito.

Para a comunidade internacional, permanecerá a obrigação de examinar as denúncias de crimes e exigir cumprimento das normas destinadas à proteção da população civil.

A noite de 27 de outubro de 2026 poderá ser lembrada como o início do fim de um longo período de poder de Benjamin Netanyahu, caso as projeções sejam confirmadas e seus adversários consigam formar uma nova maioria.

O revés eleitoral já é um acontecimento político importante. A queda definitiva ainda depende dos próximos passos institucionais.

Mas, qualquer que seja o desfecho das negociações, a votação não apagará os acontecimentos registrados em Gaza nem as denúncias documentadas pelos organismos internacionais.

A história de um governo não é escrita apenas por suas vitórias eleitorais, suas alianças diplomáticas ou sua capacidade de permanecer no poder.

Também é escrita pelas consequências de suas decisões sobre a vida das populações submetidas a elas.

Netanyahu enfrenta a possibilidade de perder o governo. Gaza continua enfrentando as consequências de uma devastação histórica. Entre o revés eleitoral de um dirigente e a conquista de uma paz verdadeira existe um caminho que dependerá de justiça, responsabilização, direitos e reconstrução.

A noite poderá representar o começo de uma mudança política em Israel. Para o povo palestino, entretanto, a mudança decisiva será aquela capaz de transformar o reconhecimento internacional de seu sofrimento em condições concretas de liberdade, segurança e dignidade.

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