“Nós estamos fazendo um verdadeiro milagre”

Em debate no Código Aberto, o jornalista Alfredo Alencastro analisou a reta final das eleições de 2026 e apontou uma disputa que ultrapassa as urnas, envolvendo comunicação, plataformas digitais, STF e influência estrangeira

A reta final das eleições de 2026 foi discutida no programa Trilhas da Soberania, do Código Aberto, em uma conversa que reuniu o jornalista Alfredo Alencastro, a advogada Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, o pesquisador Reynaldo Aragon, da UFF, e o jornalista Ricardo Silveira, da TV Travessia. A edição, realizada em 1º de outubro, concentrou-se na disputa informacional em torno da eleição, no papel das plataformas digitais e nas crises institucionais que, segundo os participantes, passaram a interferir diretamente na formação das percepções políticas às vésperas da votação.

Alencastro abriu sua participação avaliando que a campanha de 2026 chega ao fim sob condições especialmente adversas para o campo progressista. Para ele, parte desse cenário está relacionada à existência de uma estrutura de comunicação capaz de disputar narrativas e enfrentar aquilo que definiu como uma máquina de manipulação midiática. O jornalista afirmou que vem trabalhando há anos em um projeto chamado Parlamento Cidadão e que vê, neste momento, uma combinação de fatores políticos que pode abrir espaço para uma mudança no equilíbrio institucional do país.

“Eu tô sentindo assim uma coisa muito boa, porque a gente tá fazendo realmente um verdadeiro milagre”, afirmou. Segundo Alencastro, a possibilidade de uma vitória de Lula e de uma ampliação da representação progressista no Congresso e nos legislativos estaduais precisa ser analisada para além da eleição presidencial.

Para ele, uma eventual vitória presidencial sem uma mudança significativa na composição do Legislativo manteria dificuldades para a implementação de políticas públicas. Alencastro defendeu que o campo progressista amplie sua representação para além do PT e dispute também os governos estaduais e as assembleias legislativas.

“Nós nunca fomos maioria na Câmara Federal e nem no Senado, Câmara e nem nos estados”, afirmou. A avaliação foi acompanhada por uma defesa de maior participação popular nas decisões orçamentárias e de mudanças nas regras relacionadas às emendas parlamentares.

A discussão sobre o orçamento apareceu ligada à experiência de Alencastro como coordenador do Orçamento Participativo em Brasília. Ele criticou a percepção de que os recursos das emendas parlamentares pertencem individualmente aos deputados e defendeu mecanismos que permitam ampliar a participação direta da população nas decisões sobre a destinação dos recursos.

“O orçamento é nosso, entendeu?”, afirmou. Para o jornalista, mudanças desse tipo exigiriam alterações constitucionais e regulamentações nos estados e municípios.

A conversa, porém, teve como eixo principal a chamada guerra de narrativas. Reynaldo Aragon avaliou que as últimas horas antes da eleição seriam especialmente sensíveis diante da possibilidade de operações de desestabilização. Segundo ele, o resultado eleitoral poderia ser decidido por uma margem estreita e a transferência de votos dos candidatos que não chegassem ao segundo turno teria peso significativo.

Aragon também analisou a decisão de Presidente Lula de não participar do debate da Rede Globo e comparecer, no mesmo horário, ao podcast Flow. Para ele, a escolha deveria ser entendida como uma decisão estratégica, e não como recuo.

“Eu defendo que a não ida do Lula não foi um arrego, pelo contrário, foi estratégia. Estratégia política de alto nível”, afirmou.

Na avaliação de Aragon, o debate poderia produzir uma situação desfavorável ao Presidente Lula, especialmente em razão do formato e da possibilidade de outros candidatos concentrarem seus ataques sobre o presidente. O pesquisador afirmou que a decisão de deslocar a participação para um ambiente em que Lula poderia responder diretamente às perguntas representou uma mudança relevante na disputa comunicacional.

A ausência de Flávio Bolsonaro no debate também foi analisada pelos participantes. Aragon interpretou a desistência como resultado de uma mudança no cenário previsto inicialmente, especialmente depois da possibilidade de participação de Renan Santos. Para ele, a presença de Renan poderia deslocar a dinâmica do debate e transformar Flávio Bolsonaro no principal alvo dos demais candidatos.

A discussão avançou para a relação entre o sistema de Justiça, as eleições e o ambiente político construído em torno do Supremo Tribunal Federal. Aragon sustentou que a disputa eleitoral estaria sendo acompanhada por uma crise institucional dentro da própria Corte e afirmou que setores da extrema direita já estariam construindo antecipadamente uma narrativa de fraude eleitoral.

“Então, a gente tem hoje a disputa política eleitoral, ela saiu do espectro da campanha eleitoral majoritária e ela tá dentro do Supremo”, disse.

O pesquisador também afirmou que a segurança das urnas eletrônicas não seria, em sua avaliação, o principal problema a ser enfrentado. O risco estaria na utilização de conflitos institucionais e decisões judiciais para produzir desconfiança sobre o resultado.

“Por mais que a gente saiba que as urnas são absolutamente seguras”, afirmou, ao defender atenção sobre a disputa política envolvendo integrantes das instituições responsáveis pelo processo eleitoral.

Ludmila Cindra colocou a discussão em outra perspectiva ao abordar a relação entre Direito, política e soberania nacional. Segundo ela, a importação de soluções estrangeiras para crises brasileiras pode reforçar uma narrativa segundo a qual o país não teria capacidade de resolver seus próprios conflitos institucionais.

A advogada também criticou a idealização do sistema judicial dos Estados Unidos e afirmou que existem diferenças importantes entre o modelo norte-americano e o brasileiro, especialmente em relação à presunção de inocência e à atuação do Ministério Público. Durante a conversa, recomendou a leitura do livro Arapuca estadunidense para compreender parte dessas diferenças.

“Quando a gente vai analisar juridicamente no direito comparado, o sistema de justiça, por exemplo, estadunidense, o sistema de justiça brasileiro, a gente vê que o Brasil é muito melhor em termos de democracia”, afirmou.

O debate ganhou dimensão internacional quando os participantes discutiram informações sobre financiamento norte-americano a organizações da sociedade civil brasileiras que criticam decisões do STF. A conversa citou uma reportagem do The Guardian e um programa do Departamento de Estado dos Estados Unidos relacionado ao combate ao lawfare e à censura no Brasil.

Aragon classificou esse movimento como parte de uma disputa de guerra híbrida. Segundo ele, a influência externa não precisaria ocorrer por meio de uma intervenção direta no sistema eleitoral. A disputa poderia ocorrer pela formação de ambientes de pressão política, circulação de informações e criação de narrativas destinadas a deslegitimar instituições brasileiras.

“Então sim, a gente tá passando por momento de guerra híbrida extremamente grave”, afirmou.

O pesquisador também relacionou essa disputa às plataformas digitais. Segundo Aragon, a desinformação contemporânea teria se tornado mais sofisticada porque não depende necessariamente da criação de uma mentira completamente inventada. Muitas narrativas, segundo ele, partem de um fato real, acrescentando interpretações, omissões ou associações que alteram seu significado.

“A desinformação muitas das vezes nasce de uma verdade”, afirmou.

Como exemplo, citou a controvérsia envolvendo Nossa Senhora e declarações atribuídas a Flávio Bolsonaro. Na avaliação de Aragon, uma narrativa pode ganhar força quando parte de um elemento reconhecível pelo público e acrescenta uma conclusão que não foi efetivamente pronunciada pelo personagem envolvido.

Essa transformação do ambiente informacional também foi associada à atuação das grandes plataformas digitais. Aragon defendeu que o debate sobre desinformação precisa considerar não apenas o conteúdo que circula, mas os mecanismos que permitem que determinadas mensagens alcancem milhões de pessoas.

“Você começa a observar a estrutura que promove a desinformação”, afirmou. A partir dessa perspectiva, segundo ele, seria necessário analisar as relações entre empresas como Meta, Amazon e X e grupos políticos que disputam influência nas redes.

Ludmila Cindra também relatou dificuldades que, segundo ela, teriam ocorrido durante a produção e circulação de materiais políticos nas plataformas digitais. A advogada mencionou problemas de alcance e funcionamento que interpretou como possíveis formas de boicote. Como essas afirmações foram apresentadas durante a conversa sem documentação apresentada no programa que permita comprová-las de maneira independente, elas devem ser entendidas como relato e avaliação da participante.

A discussão sobre plataformas levou a uma referência ao caso Cambridge Analytica. Alfredo Alencastro lembrou o escândalo envolvendo a empresa e a utilização de dados para influenciar comportamentos políticos e avaliou que as técnicas desenvolvidas naquele período teriam sido aperfeiçoadas.

“Eu não esqueço o passado presente”, afirmou Alencastro, ao relacionar a experiência da Cambridge Analytica ao cenário eleitoral brasileiro de 2026.

Para ele, a diferença atual está na escala e na capacidade tecnológica disponível. O jornalista afirmou que a disputa contemporânea combina recursos financeiros, meios de comunicação e ferramentas digitais capazes de direcionar informações a públicos específicos.

Reynaldo Aragon apresentou uma interpretação semelhante. Segundo ele, a direita teria compreendido historicamente a importância da disputa cultural e hoje disporia de recursos econômicos e tecnológicos para ampliar sua capacidade de influência.

“E hoje eles têm, além do capital e dos meios, eles têm os algoritmos”, afirmou.

A discussão também passou pelo caso do Banco Master e pelas denúncias envolvendo Daniel Vorcaro. Alfredo relacionou o episódio à maneira como determinados escândalos são incorporados às campanhas eleitorais e sustentou que a forma de apresentação de uma denúncia pode ser tão relevante quanto a própria informação.

Ludmila, por sua vez, havia mencionado no início do programa a percepção de que o caso Banco Master teria produzido uma dinâmica eleitoral favorável a um candidato que, segundo ela, estaria entre os personagens politicamente mais associados ao episódio. A afirmação foi apresentada como análise política da participante, sem que o programa apresentasse documentação suficiente para estabelecer uma relação causal entre a cobertura do caso e o desempenho eleitoral.

A conversa também tratou da tentativa de criminalizar ou deslegitimar quem denuncia determinados esquemas. Para Ludmila, essa dinâmica contribui para deslocar a atenção do conteúdo das denúncias para a credibilidade ou a reputação de quem as apresenta.

O debate sobre informação e poder terminou relacionado à própria organização política da esquerda. Aragon afirmou que a capacidade de disputar narrativas depende também da existência de organizações de base capazes de produzir e distribuir informação.

“Nós não temos nenhuma organização de base decente”, disse. Para ele, a disputa eleitoral não deveria ser compreendida apenas como uma competição entre candidatos, mas como parte de uma disputa mais ampla pela capacidade de produzir sentidos e mobilizar setores da sociedade.

Alencastro concordou que a disputa tecnológica precisa ser acompanhada por políticas de soberania digital. Ao final do programa, ele defendeu a utilização de software livre e mencionou a possibilidade de reorganização de estruturas estatais de tecnologia da informação.

O jornalista também citou a necessidade de discutir empresas e sistemas públicos de tecnologia, além da infraestrutura de conectividade no Brasil. Segundo ele, existem alternativas internacionais às tecnologias atualmente utilizadas no país e mencionou a expansão de satélites chineses como uma possibilidade que deveria ser acompanhada pelo Estado brasileiro.

A entrevista terminou com a perspectiva de novos debates depois das eleições. Alencastro foi convidado a retornar ao Código Aberto para discutir temas relacionados ao IBGE, à Dataprev, à Telebras e às estruturas estatais de tecnologia. Ele afirmou estar disposto a aprofundar essas questões em uma próxima participação.

A conversa deixou como questão central a disputa pelo controle da circulação da informação em uma eleição marcada por forte polarização. Para os participantes, o resultado eleitoral não encerra a disputa. O modo como denúncias são apresentadas, as decisões judiciais são interpretadas, as informações circulam pelas plataformas e as instituições respondem às pressões políticas continuará sendo parte decisiva do cenário brasileiro depois das urnas.

Referências

Arapuca estadunidense
Livro citado por Ludmila Cindra durante o programa, utilizado por ela como referência para a discussão sobre o sistema de Justiça dos Estados Unidos e suas diferenças em relação ao modelo brasileiro.

Cambridge Analytica
Empresa mencionada por Alfredo Alencastro como referência para a discussão sobre uso de dados e estratégias de comunicação política.

Código Aberto
Programa que publicou a entrevista e realizou o debate sobre a reta final das eleições de 2026.

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