Educomunicadora destaca trabalho nos territórios, linguagem acessível e participação comunitária como caminhos para enfrentar a desinformação
Da Redação
O combate à desinformação não se limita às redes sociais e passa pela capacidade de estabelecer diálogo direto com as comunidades, traduzir informações complexas e fortalecer o protagonismo de quem vive nos territórios. Essa foi uma das principais questões discutidas por Clara Glock, jornalista, repórter, educomunicadora e editora audiovisual, durante entrevista ao programa Vozes pela Democracia. A conversa abordou experiências desenvolvidas pela Cáritas e pelo Centro de Cultura Luiz Freire, com foco na comunicação popular, na leitura crítica dos meios de comunicação e na defesa dos direitos humanos.
Clara participou da edição representando a Cáritas Regional, entidade de assistência social ligada à CNBB, e apresentou experiências de educomunicação desenvolvidas a partir do trabalho direto com comunidades. A entrevista foi realizada no âmbito do Vozes pela Democracia, programa sobre cidadania e direito à comunicação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, com apresentação de Souza Júnior. O jornalista e educomunicador Marcelo Dantas, coordenador do Programa Direito à Comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire, também havia sido convidado, mas não conseguiu participar da conversa naquele momento.
Ao explicar o conceito de educomunicação, Clara relacionou essa prática à educação popular e citou Paulo Freire e o comunicador argentino Mario Kaplún como referências de uma concepção de comunicação baseada no diálogo, na ética e nos conhecimentos produzidos pelas próprias populações. Para ela, não se trata apenas de transmitir informações, mas de criar condições para que as pessoas compreendam os temas que afetam suas vidas e participem das decisões relacionadas a eles.
“Na verdade, desinformação e manipulação sempre existiram”, afirmou Clara ao ampliar a discussão para além do ambiente digital. Em sua avaliação, processos de censura, controle da informação e tentativas de silenciamento de veículos e profissionais de comunicação fazem parte da trajetória histórica da imprensa. A entrevistada também lembrou sua atuação em entidades relacionadas à impunidade em crimes contra jornalistas e destacou que o Brasil registra casos de profissionais assassinados no exercício da profissão.
A partir dessa perspectiva, Clara chamou atenção para o papel das grandes empresas de tecnologia na circulação de informações. Segundo ela, nas oficinas de educomunicação realizadas com comunidades, uma das primeiras perguntas feitas aos participantes é quem são os proprietários dos meios de comunicação tradicionais. A partir daí, a discussão se amplia para as grandes plataformas digitais e para a influência que elas exercem sobre a forma como as informações chegam à população.
O ponto central, segundo a jornalista, é compreender que o combate à desinformação precisa considerar os diferentes espaços em que as pessoas se informam. As redes sociais permitem alcançar grandes públicos, mas não substituem o contato presencial com moradores de bairros, comunidades e organizações locais. “A gente tem que passar e movimentos sociais a partir dos territórios, a gente tem que pensar como é que a gente tá se comunicando, né, e de que forma a gente tá chegando nas bases, nas periferias, nos locais onde estão trabalhadores e trabalhadoras”, afirmou.
Foi nesse contexto que Clara apresentou uma experiência da Cáritas desenvolvida após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. O projeto “Cáritas nas emergências, comunidades mobilizadas no enfrentamento às mudanças climáticas” buscou atuar junto às populações atingidas não apenas para responder às necessidades imediatas, mas também para fortalecer a capacidade das comunidades de reivindicar direitos e participar dos processos de reconstrução.
A iniciativa envolveu atendimento emergencial, incidência política e articulação com organizações locais. Entre os resultados apresentados pela entrevistada está a elaboração de um dicionário produzido a partir das experiências vividas por comunidades de Canoas, na região urbana, e Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari, em uma área rural. O objetivo foi aproximar conceitos técnicos relacionados a emergências e mudanças climáticas da linguagem utilizada pelas próprias comunidades.
Termos como “rota de fuga”, “plano de contingência” e “saúde mental” precisaram ser traduzidos para uma linguagem compreensível e vinculada à realidade de quem havia enfrentado a enchente. Ao mesmo tempo, as próprias comunidades produziram palavras e significados para experiências que não cabiam facilmente nos termos técnicos utilizados por órgãos públicos e especialistas.
Clara relatou situações vividas por pessoas que permaneceram durante dias sobre telhados esperando pelo resgate, além de crianças que passaram pela experiência de permanecer em telhados de escolas. Para ela, a comunicação desenvolvida nos territórios precisa levar em consideração essas experiências concretas, inclusive porque elas permanecem produzindo consequências após o fim imediato de uma emergência.
A experiência também levou à utilização da educação como espaço para trabalhar os efeitos das tragédias climáticas. Clara mencionou o desenvolvimento de uma “pedagogia do desastre”, voltada à reflexão sobre acontecimentos que deixaram de ser considerados episódios excepcionais diante da recorrência de eventos climáticos extremos.
O dicionário produzido a partir desse trabalho, segundo Clara, está disponível na internet e pode ser utilizado por escolas e comunidades. A proposta inclui também modelos de jogos destinados a estimular a reflexão sobre as mudanças climáticas e os riscos associados a esses fenômenos. “Informar é também fazer com que as comunidades e a população consiga entender do que a gente tá falando e participe ativamente disso”, afirmou.
A entrevistada também relacionou o debate ambiental ao processo de formação política e às decisões tomadas nas instituições públicas. Na sua avaliação, temas como mudanças climáticas, desmatamento, infraestrutura tecnológica e implantação de centros de processamento de dados precisam ser compreendidos pelas comunidades como questões que também passam pela política institucional.
Durante a entrevista, Clara defendeu que a comunicação popular deve abandonar uma linguagem excessivamente fechada e buscar formas de diálogo capazes de alcançar pessoas que não participam dos mesmos espaços políticos ou digitais. Ela avaliou que, em períodos eleitorais, a comunicação precisa considerar inclusive aqueles que ainda têm dúvidas ou que não acompanham o debate político de maneira sistemática.
“Me parece que a parte mais importante é a gente deixar de lado a nossa pompa e as nossas bolhas pra gente conversar com as pessoas a partir do que existe de fato”, declarou. Para ela, o contato cotidiano pode ser uma ferramenta para apresentar informações sobre políticas públicas e direitos sociais sem transformar a conversa em uma disputa imediata entre grupos políticos.
Clara citou como exemplos áreas como saúde e educação pública, defendendo que a comunicação precisa ajudar as pessoas a identificar como políticas públicas interferem concretamente em suas vidas. A estratégia, segundo ela, passa menos pela tentativa de confrontar diretamente quem pensa de maneira diferente e mais pela construção de conversas baseadas em experiências compartilhadas.
Ela também chamou atenção para o papel dos próprios usuários das redes sociais na circulação de informações. Ao compartilhar, comentar ou interagir com determinados conteúdos, as pessoas contribuem para os mecanismos que definem quais informações serão ampliadas ou terão menor alcance. Por isso, a educomunicadora defendeu uma postura mais cuidadosa diante do conteúdo que circula nas plataformas.
Nesse sentido, Clara argumentou que o combate à desinformação não deve se restringir à denúncia de conteúdos falsos. É necessário apresentar fontes alternativas, indicar ferramentas de verificação e estimular a capacidade de cada pessoa avaliar criticamente aquilo que recebe. A comunicação cotidiana, segundo ela, também pode ocorrer em espaços aparentemente banais, como conversas entre vizinhos, no transporte ou no trabalho.
A entrevistada defendeu ainda que a comunicação popular precisa dialogar com diferentes gerações e linguagens. Além das redes sociais, ela lembrou que uma parcela significativa da população continua acompanhando televisão aberta e rádio. Por isso, organizações e movimentos precisam conhecer o conteúdo que circula nesses meios para poder contextualizar e discutir as informações diretamente com as comunidades.
Outro ponto abordado foi a necessidade de recuperar uma linguagem mais próxima da realidade brasileira. Clara questionou o uso automático de termos estrangeiros incorporados ao cotidiano digital e defendeu que expressões em português também podem ser valorizadas como parte de uma comunicação mais acessível. “Eu não vou fazer uma live, eu vou fazer uma transmissão ao vivo”, afirmou, ao defender a retomada de palavras que façam sentido dentro da realidade dos próprios públicos.
A discussão também passou pelo fenômeno das apostas digitais. Clara lembrou que, nas oficinas de comunicação, a publicidade das bets é um dos exemplos utilizados para discutir como interesses comerciais podem aparecer associados à comunicação cotidiana. Na conversa, o apresentador relatou casos de pessoas que teriam enfrentado endividamento e sofrimento relacionados às apostas, enquanto Clara retomou a necessidade de trabalhar o tema por meio da educação e da comunicação crítica.
Ao encerrar sua participação, a jornalista voltou ao trabalho realizado pela Cáritas no Rio Grande do Sul e destacou que questões ambientais, comunicação e participação política estão relacionadas. O dicionário produzido com as comunidades foi apresentado como uma ferramenta que pode continuar sendo utilizada por escolas e organizações locais.
“Quando a gente tá falando de meio ambiente, a gente também tá falando de eleição e a gente também tá falando de voto potente”, afirmou Clara. Em seguida, resumiu a proposta da campanha da Cáritas em defesa de uma participação eleitoral consciente: “Nosso voto é potente e é uma campanha da Cáritas para um voto consciente, pra gente manter o que a gente reconquistou e conquistar mais direitos.”
A entrevista deixou como eixo central a ideia de que enfrentar a desinformação exige mais do que disputar espaço nas plataformas digitais. Para Clara, o trabalho de comunicação precisa estar presente nas comunidades, reconhecer os saberes produzidos nesses espaços e traduzir informações que muitas vezes chegam por meio de uma linguagem distante da experiência cotidiana. Nesse processo, a educomunicação aparece como uma prática voltada à formação crítica, ao diálogo e à participação social.
O programa Vozes pela Democracia é apresentado como uma iniciativa voltada ao debate sobre cidadania e direito à comunicação, com participação de organizações ligadas à democratização da comunicação e produção da Atitude Popular.
Referências
Paulo Freire, educador brasileiro citado como referência da educação popular e da concepção de educomunicação apresentada durante a entrevista. Nenhuma obra específica foi indicada no trecho fornecido.
Mario Kaplún, comunicador popular argentino citado como referência para a concepção de educomunicação discutida na entrevista. Nenhuma obra específica foi indicada no trecho fornecido.
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