Novo mundo além de Plutão

Astrônomos identificam um dos maiores candidatos a planeta anão descobertos nas últimas décadas, a quase 7 bilhões de quilômetros do Sol. Batizado provisoriamente de 2026 ED138, o corpo celeste pode ter até 1.500 quilômetros de diâmetro e permaneceu oculto entre milhões de estrelas. Descoberta realizada pelo Observatório Vera C. Rubin, no Chile, abre uma nova etapa da exploração das regiões mais distantes do Sistema Solar.

Da Redação

Uma descoberta astronômica anunciada nesta semana está ampliando o conhecimento científico sobre as fronteiras do Sistema Solar. Pesquisadores que trabalham com o Observatório Vera C. Rubin, instalado no norte do Chile, identificaram um gigantesco corpo celeste gelado que orbita o Sol para além de Plutão e pode integrar o pequeno grupo de planetas anões oficialmente reconhecidos pela comunidade científica internacional. O objeto, denominado provisoriamente 2026 ED138, possui diâmetro estimado entre 600 e 1.500 quilômetros e está localizado a aproximadamente 6,9 bilhões de quilômetros do Sol. A descoberta revela que mesmo os maiores objetos das regiões exteriores do nosso sistema planetário ainda podem permanecer desconhecidos e demonstra o potencial de uma nova geração de telescópios para transformar a compreensão da formação e da evolução dos mundos que orbitam nossa estrela.

O anúncio oficial ocorreu na terça-feira (27), durante a 58ª reunião anual da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronômica Americana, realizada em Spokane, no estado de Washington, nos Estados Unidos. A identificação foi apresentada pelos astrônomos Matthew Holman, do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, e Mario Jurić, professor da Universidade de Washington e principal cientista responsável pelas pesquisas sobre o Sistema Solar no Observatório Rubin.

O Centro de Planetas Menores da União Astronômica Internacional, instituição responsável pelo registro e pela catalogação de pequenos corpos celestes, confirmou a descoberta e atribuiu ao objeto a designação provisória 2026 ED138.

O corpo celeste ainda não foi oficialmente classificado como planeta anão. Os pesquisadores precisam realizar novas observações para determinar suas dimensões com maior precisão e verificar se possui massa suficiente para que a própria gravidade tenha moldado sua superfície em uma forma aproximadamente esférica.

Entretanto, suas características iniciais indicam que ele pode estar entre os maiores objetos transnetunianos identificados nas últimas duas décadas.

A descoberta ganhou repercussão internacional nesta quinta-feira (29), depois de ser divulgada pela Reuters, pela RT e por publicações especializadas em astronomia. O entusiasmo dos pesquisadores decorre tanto do tamanho potencial do objeto quanto das circunstâncias em que foi encontrado.

O 2026 ED138 estava escondido em uma região do céu aparentemente dominada por milhões de estrelas da Via Láctea.

Visto da Terra, seu movimento se confundia com uma multidão de fontes luminosas, dificultando a identificação pelos sistemas tradicionais de observação. A quantidade de estrelas no campo visual tornava extremamente complexo distinguir o pequeno ponto de luz refletida por um objeto distante que se deslocava lentamente em torno do Sol.

Foi necessário combinar a potência de uma câmera astronômica excepcional com programas avançados de processamento de dados para identificar sua trajetória.

A descoberta ocorreu na noite de 13 de outubro, quando Matthew Holman analisava imagens coletadas pelo Observatório Rubin ao longo de 2026. O pesquisador utilizava um programa desenvolvido em colaboração com o astrofísico Kevin Napier, também vinculado ao Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian.

O sistema foi concebido para examinar bilhões de detecções registradas pelo telescópio, comparar posições de pontos luminosos e identificar aqueles que correspondem ao mesmo objeto em movimento.

Em meio a esse conjunto gigantesco de informações, o programa encontrou um sinal incomum.

Holman percebeu que a luminosidade observada, combinada com a distância estimada, indicava a presença de um corpo celeste excepcionalmente grande para aquela região.

A primeira reação do cientista foi de surpresa. Objetos com dimensões semelhantes são raros, e a possibilidade de encontrar um novo mundo desse porte levou a equipe a verificar cuidadosamente os dados, procurando eliminar erros de identificação ou processamento.

A confirmação inicial veio com a colaboração de Mario Jurić.

O astrônomo procurou registros adicionais nos bancos de imagens do Rubin e encontrou outras 20 observações do mesmo objeto, realizadas desde março deste ano.

No total, o telescópio havia fotografado o 2026 ED138 trinta vezes, distribuídas por vinte noites entre 4 de março e 11 de julho.

A descoberta tornou-se ainda mais significativa quando a equipe examinou arquivos produzidos por outro instrumento astronômico.

Utilizando o serviço ADAM Precovery, do Asteroid Institute, os pesquisadores localizaram imagens anteriores registradas pela Dark Energy Camera, conhecida como DECam, instalada no telescópio Víctor M. Blanco, no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, também no Chile.

Os registros remontavam a 2016.

Isso significa que o novo objeto já havia sido fotografado há aproximadamente uma década, mas permanecera sem identificação entre incontáveis fontes luminosas.

A recuperação dessas imagens permitiu reconstruir mais de dez anos de seu deslocamento orbital.

O episódio ilustra uma mudança importante na astronomia contemporânea: descobrir um objeto não depende exclusivamente de apontar um telescópio para uma região desconhecida do céu. Em muitos casos, o conhecimento novo está escondido em bancos de dados produzidos anteriormente, aguardando algoritmos capazes de reconhecer padrões que passaram despercebidos.

No caso do 2026 ED138, a combinação entre observações recentes, arquivos históricos e processamento computacional revelou um mundo que esteve diante dos instrumentos científicos durante anos sem ser reconhecido.

A distância também impressiona.

Atualmente, o corpo celeste encontra-se a aproximadamente 46 unidades astronômicas do Sol. Uma unidade astronômica corresponde à distância média entre a Terra e nossa estrela, cerca de 150 milhões de quilômetros.

Isso coloca o 2026 ED138 a aproximadamente 6,9 bilhões de quilômetros do Sol.

Para comparação, Plutão possui distância orbital média de cerca de 40 unidades astronômicas, enquanto Netuno, o planeta mais distante do Sistema Solar, orbita aproximadamente a 30 unidades astronômicas.

Esses valores não representam posições fixas, pois os corpos celestes percorrem órbitas que podem apresentar diferentes graus de alongamento. Ainda assim, permitem compreender a dimensão da região onde o novo objeto foi encontrado.

A luz solar que chega até ele é muito mais fraca do que aquela recebida pela Terra. Trata-se de um ambiente extremamente frio e distante, no qual materiais voláteis podem permanecer congelados durante períodos imensos da história planetária.

Os pesquisadores classificam o 2026 ED138 como objeto transnetuniano, denominação aplicada a corpos que orbitam o Sol além da região de Netuno.

Essa população inclui mundos gelados, objetos de diferentes dimensões e corpos remanescentes dos primeiros estágios de formação do Sistema Solar.

Uma parte importante deles encontra-se no Cinturão de Kuiper, extensa região exterior que abriga Plutão e numerosos objetos menores.

O estudo dessas estruturas permite investigar processos ocorridos há aproximadamente 4,6 bilhões de anos, quando o Sistema Solar se formou a partir de um disco de gás e poeira que circundava o jovem Sol.

Naquele período, partículas e fragmentos de matéria começaram a se agregar sob ação gravitacional, formando corpos progressivamente maiores. Alguns deram origem aos planetas conhecidos. Outros permaneceram como pequenos objetos ou foram deslocados para regiões distantes em consequência das interações gravitacionais entre os corpos em formação.

O estudo dos objetos transnetunianos oferece, portanto, informações sobre a distribuição original da matéria, os deslocamentos dos planetas gigantes e os mecanismos que moldaram a arquitetura atual do Sistema Solar.

A órbita do 2026 ED138 apresenta uma característica particularmente interessante.

Seu plano orbital possui inclinação de quase 25 graus em relação ao plano de referência das órbitas planetárias.

Essa inclinação é suficientemente elevada para que os pesquisadores o classifiquem entre os chamados objetos transnetunianos clássicos dinamicamente quentes.

A expressão não significa que sua superfície possua temperatura elevada. Trata-se de uma classificação relacionada à dinâmica orbital, especialmente às inclinações e aos movimentos associados à história gravitacional desses corpos.

Segundo os pesquisadores, a inclinação do novo objeto sugere que sua trajetória pode ter sido modificada no passado por interações gravitacionais com Netuno.

Esse detalhe é relevante porque os cientistas procuram reconstruir como os planetas gigantes se deslocaram nos primeiros períodos de existência do Sistema Solar.

Modelos de evolução planetária indicam que suas órbitas podem ter mudado ao longo do tempo, provocando redistribuição de pequenos corpos e alterando a organização das regiões externas.

Cada novo objeto com órbita bem determinada acrescenta informações que permitem confrontar esses modelos com observações reais.

Nesse sentido, o 2026 ED138 não é apenas um novo ponto luminoso identificado no céu. Sua trajetória contém indícios sobre processos físicos que aconteceram muito antes da formação da Terra em sua configuração atual.

Outro aspecto importante envolve seu tamanho.

A estimativa inicial entre 600 e 1.500 quilômetros de diâmetro representa uma margem considerável de incerteza.

O intervalo existe porque os telescópios que observam o objeto em luz visível registram principalmente a radiação solar refletida por sua superfície.

Um corpo relativamente pequeno, mas muito brilhante e refletivo, pode produzir uma quantidade de luz semelhante à de um objeto maior com superfície escura.

Sem conhecer com precisão a refletividade do material, denominada albedo, os astrônomos não conseguem transformar diretamente o brilho observado em uma medida definitiva de diâmetro.

Por isso, os próximos estudos deverão utilizar técnicas complementares.

Uma possibilidade mencionada por Matthew Holman envolve o radiotelescópio ALMA, situado no deserto do Atacama, no Chile.

O complexo, composto por dezenas de antenas, permite detectar radiação emitida pelos próprios corpos celestes em comprimentos de onda maiores do que os da luz visível.

A combinação entre a luminosidade refletida e a emissão térmica pode ajudar a estabelecer dimensões mais precisas, restringindo a margem de incerteza.

A determinação do tamanho é essencial para avaliar a possibilidade de classificação como planeta anão.

Segundo os critérios adotados pela União Astronômica Internacional em 2006, um planeta anão precisa orbitar o Sol, possuir massa suficiente para alcançar uma forma aproximadamente esférica sob a própria gravidade, não ter eliminado outros objetos de sua vizinhança orbital e não ser um satélite natural.

A principal diferença em relação a um planeta está justamente na ausência de domínio gravitacional sobre sua região orbital.

Essa distinção foi responsável pela reclassificação de Plutão, que deixou de integrar a lista dos planetas principais em 2006.

Desde então, o Sistema Solar possui oito planetas reconhecidos oficialmente: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.

A União Astronômica Internacional reconhece cinco planetas anões: Ceres, Plutão, Haumea, Makemake e Éris.

Ceres está localizado no cinturão principal de asteroides, entre Marte e Júpiter. Os demais habitam regiões mais distantes do Sistema Solar.

O último desses objetos a receber reconhecimento oficial foi Haumea, em 2008.

Caso a natureza do 2026 ED138 seja confirmada, ele poderá integrar essa relação, embora não exista prazo estabelecido para uma decisão definitiva.

Há ainda outros candidatos conhecidos, como Quaoar, Orcus, Sedna, Gonggong e 2017 OF201, anunciado em 2025.

A existência desses objetos demonstra que a lista oficial representa apenas uma parte da população de mundos potencialmente grandes e arredondados que orbitam o Sol.

A dificuldade de classificação decorre principalmente das enormes distâncias envolvidas. Determinar a massa, a estrutura interna, a forma e as propriedades superficiais de corpos tão remotos exige observações prolongadas e instrumentos de grande sensibilidade.

A descoberta também constitui um marco para o Observatório Vera C. Rubin.

Construído no Cerro Pachón, no Chile, o empreendimento reúne infraestrutura científica financiada principalmente pela Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos e pelo Departamento de Energia norte-americano, com participação de universidades, laboratórios e instituições internacionais.

Seu telescópio Simonyi está equipado com uma câmera digital de aproximadamente 3,2 bilhões de pixels, a maior câmera astronômica já construída.

O instrumento foi desenvolvido para registrar grandes áreas do céu com profundidade, velocidade e precisão excepcionais.

A principal missão do observatório é executar o Legacy Survey of Space and Time, ou LSST, um levantamento de aproximadamente dez anos destinado a acompanhar repetidamente o céu do Hemisfério Sul.

Ao contrário de observatórios especializados em examinar individualmente objetos já conhecidos, o Rubin foi concebido para construir um registro contínuo das mudanças do Universo.

Seu trabalho poderá identificar explosões estelares, estrelas variáveis, pequenos corpos do Sistema Solar e fenômenos associados à evolução das galáxias.

O conjunto de dados também será utilizado em estudos sobre matéria escura e energia escura, dois componentes fundamentais dos modelos cosmológicos contemporâneos cuja natureza física continua sendo investigada.

O nome do observatório homenageia a astrônoma Vera Rubin, cujos estudos sobre a rotação das galáxias forneceram evidências decisivas da existência de uma grande quantidade de matéria que não pode ser observada diretamente pela luz emitida.

Essa ligação histórica é significativa: um equipamento batizado em homenagem a uma cientista que ajudou a revelar estruturas invisíveis do Universo começa agora a identificar mundos antes ocultos nas regiões exteriores do nosso próprio sistema planetário.

Os primeiros resultados científicos já demonstram a escala de suas possibilidades.

Em abril deste ano, antes mesmo da implementação plena do levantamento principal, a equipe do Rubin submeteu ao Centro de Planetas Menores observações de mais de 11 mil novos asteroides.

Entre eles estavam aproximadamente 380 objetos transnetunianos.

A identificação do 2026 ED138 confirma que o instrumento pode alcançar corpos de dimensões excepcionais que escaparam às campanhas de observação anteriores.

Mario Jurić destacou que a capacidade de localizar novos objetos e posteriormente recuperar suas imagens em arquivos históricos está transformando a velocidade com que os pesquisadores conseguem determinar órbitas.

O avanço representa uma combinação entre observação astronômica, engenharia de instrumentos, tratamento de grandes volumes de dados e desenvolvimento de algoritmos científicos.

A participação de instituições internacionais também evidencia a importância da cooperação na pesquisa astronômica.

Embora o Observatório Rubin seja financiado principalmente por agências norte-americanas, ele funciona em território chileno, utiliza infraestruturas de pesquisa construídas ao longo de décadas na América do Sul e incorpora contribuições de organizações e equipes de diferentes países.

A descoberta ainda depende de observações complementares que poderão envolver novos instrumentos e pesquisadores de várias regiões do mundo.

A dimensão internacional dessa infraestrutura demonstra como a produção de conhecimento sobre o Universo depende de investimentos de longo prazo, formação de especialistas, compartilhamento de dados e continuidade das políticas científicas.

A astronomia contemporânea está deixando de ser uma atividade baseada exclusivamente na observação de objetos isolados e se transformando também em uma ciência de grandes levantamentos, na qual computadores examinam bilhões de registros em busca de padrões.

A descoberta do 2026 ED138 oferece um exemplo concreto dessa transformação.

O objeto não surgiu recentemente no Sistema Solar. Ele já percorria sua órbita havia bilhões de anos, possivelmente preservando características de sua formação original.

O que mudou foi a capacidade humana de identificá-lo.

As próximas observações deverão esclarecer sua dimensão verdadeira, suas propriedades físicas e sua possível inclusão na categoria dos planetas anões.

Não existe, por enquanto, identificação confirmada de atmosfera, satélites naturais, características detalhadas da superfície ou qualquer evidência relacionada à presença de vida nesse mundo distante.

Também não é possível afirmar que a descoberta represente um novo planeta principal ou uma ampliação imediata da lista oficial dos planetas anões.

O que está comprovado é a identificação de um grande objeto transnetuniano, registrado oficialmente e acompanhado por mais de dez anos de observações recuperadas.

Sua importância científica ultrapassa a futura classificação.

Cada corpo descoberto nas regiões exteriores acrescenta elementos à reconstrução da história do Sistema Solar e ajuda os astrônomos a compreender os mecanismos físicos que determinaram a distribuição dos mundos conhecidos.

O 2026 ED138 mostra que as fronteiras do conhecimento astronômico não estão apenas nas galáxias distantes, a milhões ou bilhões de anos-luz da Terra.

Elas também permanecem surpreendentemente próximas, no sentido cósmico, escondidas nas regiões mais frias e escuras do sistema ao qual pertencemos.

A humanidade conhece os oito grandes planetas que orbitam o Sol, mas ainda está descobrindo a verdadeira diversidade de corpos que habitam suas fronteiras.

Com a entrada em operação de uma nova geração de telescópios e sistemas de análise, esse inventário tende a crescer.

A descoberta anunciada no Chile não encerra a exploração do Sistema Solar. Revela que uma parte importante de sua história continua esperando para ser encontrada — não necessariamente em um lugar onde nunca olhamos, mas, algumas vezes, entre os milhões de estrelas que já fotografamos sem perceber o mundo escondido diante de nossos olhos.