“O amor vale a pena”, afirma Tarcisa Bezerra ao transformar a vida da mãe em livro

Em “Terezinha da Muda: uma história de amor”, assistente social e escritora percorre cidades do Piauí, reúne depoimentos familiares e registra a trajetória de uma mulher sertaneja que criou os filhos em meio a perdas, trabalho e dedicação à educação

Da Redação

A assistente social e escritora Tarcisa Bezerra transformou o processo de despedida da mãe em uma investigação afetiva sobre memória, família e vida no sertão. O resultado foi o livro Terezinha da Muda: uma história de amor, obra que reconstrói a trajetória de uma mulher nascida no interior do Piauí, marcada por dificuldades materiais, perdas familiares e uma relação permanente com os livros e a educação.

Em entrevista ao jornalista e cientista político Luiz Regadas, no programa Café com Democracia, da Atitude Popular, Tarcisa explicou que a decisão de escrever surgiu quando sua mãe, Terezinha, estava internada após sofrer um AVC isquêmico. A conversa foi exibida na edição de 24 de julho.

Terezinha permaneceu oito dias na Unidade de Terapia Intensiva. Diante do diagnóstico de que ela não resistiria, familiares que viviam em diferentes cidades foram chamados para se despedir. Na saída de uma das visitas, a assistente social Gisele Aragão, colega de Tarcisa na Defensoria Pública da União, sugeriu que ela registrasse a história da mãe.

“Escreve o livro da tua mãe. Ela é tão forte, tão guerreira, tão intrépida e tão amorosa. Tem uma história belíssima para contar”, recordou Tarcisa.

A sugestão ganhou forma ainda no hospital. Ao segurar as mãos da mãe, já inconsciente, Tarcisa assumiu um compromisso.

“Sua história será contada, meu amor. A senhora vai ficar eternizada num livro”, disse.

Uma mulher apaixonada pela educação

Terezinha nasceu em Monsenhor Hipólito, município localizado na região de Picos, no Piauí. Ela não teve oportunidade de concluir o ensino fundamental, mas desenvolveu uma relação intensa com a leitura e incentivou os filhos a estudar.

Segundo Tarcisa, a mãe lia constantemente. Essa característica aparece na capa do livro, que apresenta uma mulher deitada em uma rede, com uma obra nas mãos.

“A minha mãe era uma apaixonada por leitura. Minha mãe lia de forma voraz”, contou.

Para a autora, havia uma dimensão importante nesse vínculo com os livros. Terezinha valorizava justamente aquilo que lhe havia sido negado durante a infância. Sem acesso regular à escola, passou a estimular os filhos a concluir os estudos e buscar formação universitária.

Tarcisa, que atua como assistente social nas áreas da saúde e sociojurídica federal, afirma que prefere ser apresentada como assistente social e escritora. Segundo ela, a obra nasceu da necessidade de registrar a vida da mulher que considera a pessoa mais extraordinária que conheceu.

A escrita como forma de viver o luto

Depois da morte de Terezinha, em 1º de fevereiro, Tarcisa organizou uma viagem por cidades ligadas à história da mãe. O percurso incluiu Teresina, Jaicós, Monsenhor Hipólito, Belém do Piauí e a localidade de São Bento.

A autora entrevistou filhos, netos, bisnetos, noras, amigos e moradores que conviveram com Terezinha. Também reuniu fotografias, documentos familiares, registros escritos e informações sobre a genealogia da família.

“Esse foi o meu luto”, afirmou Tarcisa. “Eu consegui viver o luto contando a história do amor da minha vida.”

A pesquisa foi realizada pouco depois do velório. Durante cerca de 15 dias, a autora percorreu os lugares onde a mãe nasceu, cresceu e viveu. Em cada cidade, encontrou pessoas que guardavam lembranças de Terezinha e de sua capacidade de enfrentar situações difíceis sem abandonar o cuidado com os outros.

Tarcisa levou na viagem uma peça de roupa da mãe. Para ela, o objeto representava uma forma de manter sua presença durante o percurso.

“Eu disse: ‘Mamãe, a senhora vai com a gente’”, relatou.

A origem do nome “Terezinha da Muda”

O título do livro está relacionado à forma como Terezinha era conhecida em sua região de origem. A mãe dela, avó de Tarcisa, tinha surdez total e era chamada localmente de “a muda”. Como era comum identificar pessoas por seus vínculos familiares, Terezinha passou a ser conhecida como “Terezinha da Muda”.

A autora ressalta que o uso da expressão no livro não possui sentido depreciativo. O nome foi mantido por representar a maneira como sua mãe era reconhecida na comunidade e por integrar a memória cultural da família.

“O termo não tem nenhuma conotação pejorativa ou capacitista. É parte da cultura local”, explicou.

O complemento uma história de amor foi escolhido porque, segundo Tarcisa, a mãe fazia do afeto uma prática cotidiana.

“Minha mãe é o reflexo do amor”, afirmou.

Dez filhos e uma vida atravessada por perdas

Terezinha teve dez filhos. Três morreram ainda na infância. Dois não chegaram a completar um ano, em um período no qual famílias do interior enfrentavam dificuldades de acesso a atendimento médico e condições sanitárias adequadas.

O terceiro, Francisco, morreu afogado aos oito anos, em 2 de outubro de 1973. Naquele momento, Terezinha estava grávida de nove meses. O marido trabalhava como caixeiro-viajante e estava fora da cidade.

Francisco costumava sair com uma baladeira e dizia que pretendia ajudar a mãe levando algum alimento para casa. No dia da morte, saiu para pescar e não voltou.

O corpo foi levado até Terezinha nos braços de moradores da região. Ao receber o filho morto, ela entrou em trabalho de parto.

“Enquanto ela perdia uma vida, outra nascia”, relatou Tarcisa durante a entrevista.

A história permaneceu na memória de Terezinha e dos moradores de Monsenhor Hipólito. Durante a pesquisa, Tarcisa ouviu diferentes relatos sobre aquele episódio e sobre a maneira como a mãe continuou cuidando dos demais filhos depois da tragédia.

Anos mais tarde, quando Tarcisa tinha 17 anos, o pai deixou a família. Terezinha passou a criar praticamente sozinha os sete filhos que chegaram à vida adulta.

Trabalho, costura e cuidado

A agricultura e a costura estiveram entre as principais atividades desenvolvidas por Terezinha. A máquina de costura aparece no livro como parte importante de sua rotina e do sustento familiar.

Segundo Tarcisa, a mãe trabalhava durante a noite, muitas vezes por longos períodos, para garantir as necessidades dos filhos.

Ela também era conhecida por contar histórias e cuidar de pessoas próximas. Para a autora, sua mãe representava experiências compartilhadas por muitas mulheres sertanejas que assumiram a responsabilidade pela sobrevivência material e emocional de famílias numerosas.

“A minha mãe criou todos nós, muitas vezes costurando noite adentro”, contou.

Apesar das perdas e das dificuldades, Tarcisa afirma que Terezinha não se tornou uma pessoa amarga.

“Ela passou por tantas dificuldades, mas nunca deixou de ser doce. Minha mãe era a pessoa mais doce que eu conheci”, declarou.

O retorno a São Bento

Um dos momentos mais delicados da pesquisa ocorreu em São Bento, localidade onde Terezinha viveu dos dois aos 14 anos com os avós maternos. A mudança aconteceu depois da morte do pai, quando ela tinha apenas dois anos.

Tarcisa e a mãe haviam planejado visitar juntas o lugar, mas a viagem não ocorreu enquanto Terezinha estava viva.

Ao chegar à antiga casa, a autora encontrou apenas ruínas. O imóvel estava situado em uma colina, em uma área cercada por vegetação e fontes naturais.

“Quando vi as ruínas da casa onde ela viveu, eu desabei”, contou.

Durante o pôr do sol, Tarcisa fez uma oração e pediu um sinal da presença da mãe. Segundo seu relato, várias borboletas começaram a voar ao seu redor, e uma borboleta amarela pousou em sua mão.

“Eu sabia que era a minha mãe. Não tinha a menor dúvida”, afirmou.

Desde então, a borboleta amarela passou a representar, para a autora, uma forma particular de lembrar Terezinha.

Um livro sem finalidade comercial

Terezinha da Muda: uma história de amor não foi produzido com objetivo comercial. Tarcisa entregou exemplares às pessoas entrevistadas e aos familiares que contribuíram para a pesquisa.

O lançamento foi realizado em 11 de julho, em Monsenhor Hipólito, um dia antes da data de aniversário de Terezinha. A escolha da cidade procurou devolver à comunidade parte das memórias reunidas no livro.

Participaram da cerimônia familiares, amigos e moradores que conviveram com Terezinha. O evento também contou com representantes locais, entre eles o prefeito do município.

Tarcisa afirmou que pretende disponibilizar uma versão digital para que outras pessoas tenham acesso à obra. Durante o programa, Luiz Regadas sugeriu que o livro também seja colocado na página de publicações da Atitude Popular.

“Mamãe me ensinou a arte de amar”

Ao ser questionada sobre a mensagem que gostaria de deixar aos leitores, Tarcisa afirmou que o livro apresenta o amor como uma prática associada ao cuidado, à solidariedade e à ajuda prestada sem expectativa de recompensa.

“O amor vale a pena. Mamãe me ensinou a arte de amar e, nesse livro, vai ensinar você a amar”, declarou.

A escritora também imaginou como Terezinha reagiria ao receber a obra pronta. Em sua descrição, a mãe pegaria o livro, deitaria na rede da sala e permaneceria em silêncio, concentrada na leitura.

“A primeira coisa que ela faria seria pegar o livro, deitar naquela rede e ficar imersa na leitura”, disse.

Mais do que uma biografia familiar, a obra registra condições de vida que atravessaram diferentes gerações de mulheres no interior nordestino. Ao contar a história da mãe, Tarcisa documenta deslocamentos, mortes infantis, trabalho doméstico e agrícola, ausência de acesso à educação e estratégias familiares construídas para enfrentar a precariedade.

O livro também apresenta uma filha tentando compreender a ausência por meio da escrita. Entre entrevistas, fotografias, documentos e viagens, Tarcisa converteu a promessa feita no hospital em um registro destinado às próximas gerações.

Assista à entrevista

Referência

Título: Terezinha da Muda: uma história de amor
Autora: Tarcisa Bezerra
Ano: 2026

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