Médica formada em Cuba, Taís Matos analisa os impactos do embargo imposto há mais de seis décadas e afirma que a resistência da ilha segue sendo uma lição de humanidade para o mundo
Mais uma vez — pela trigésima terceira — a comunidade internacional exigiu o fim do bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba. Na votação recente da ONU, 165 países apoiaram o fim das sanções e apenas sete se mantiveram a favor da medida. O tema foi debatido no programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, com a médica da família Taís Matos, graduada em Cuba e integrante da Casa Brasil-Cuba (CE), em conversa com Antônio Ibiapino.
Logo no início, Taís foi enfática ao afirmar que “o bloqueio econômico é um ataque aos direitos humanos, talvez um dos maiores do mundo”. Para ela, o discurso norte-americano de que o embargo protegeria a democracia cubana é uma “farsa imperialista”. “O bloqueio não garante direitos. Ele os destrói. Impede acesso a remédios, tecnologias e alimentos. É punição coletiva a um povo solidário e resistente”, afirmou.
60 anos de resistência e humanidade
A médica recordou que o embargo, mantido há mais de seis décadas, isola um país pequeno, sem grandes recursos naturais, mas que “fez o impossível”. “Apesar das restrições, Cuba se tornou referência mundial em saúde e educação. Nenhuma criança cubana dorme nas ruas, nenhuma nasce com HIV, nenhuma fica sem escola”, destacou.
Formada em Havana, Taís relatou que o modelo de saúde cubano vai muito além da atenção básica. “Cuba eliminou a transmissão vertical do HIV e da sífilis, organizou uma rede integrada de saúde mental e desenvolveu cinco vacinas contra a Covid-19, mesmo sob bloqueio. Isso é tecnologia, isso é soberania”, disse.
Ela lembrou que o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro foi inspirado no modelo cubano de medicina preventiva e comunitária. “Cuba mostra que saúde pública é resultado de planejamento, solidariedade e compromisso político, não de mercado.”
“Cuba assusta porque dá certo”
Ao longo do programa, o comentarista Antônio Ibiapino recuperou a história de agressões dos EUA contra a ilha, lembrando leis como a Helms-Burton (1996) e a Torricelli (1992), que punem empresas estrangeiras que comercializam com Cuba. “É o cerco econômico mais longo da história moderna, uma tentativa de asfixiar uma nação soberana que ousou ser livre”, afirmou.
Para Taís, o verdadeiro medo das potências está em o exemplo cubano revelar uma alternativa viável ao capitalismo. “Cuba assusta porque, mesmo bloqueada, conseguiu provar que é possível um outro modelo de sociedade, baseado em igualdade e dignidade humana”, disse.
Um símbolo que não se apaga
Os debatedores também discutiram o contraste entre o avanço tecnológico global e a persistência de sanções anacrônicas. “Vivemos uma era de inteligência artificial e nanotecnologia, mas ainda há quem bloqueie uma ilha por defender justiça social”, observou Ibiapino.
Taís completou: “Quando dizem que Cuba é pobre, eu respondo: pobre de quê? De dignidade, não. O bloqueio tentou matar o corpo da ilha, mas não conseguiu matar o espírito de solidariedade do povo cubano.”
A diplomacia da solidariedade
A Casa Brasil-Cuba, onde Taís atua, mantém cooperação educacional e médica com a ilha, enviando estudantes brasileiros para formação em medicina. “Cuba forma médicos do mundo inteiro gratuitamente, inclusive dos Estados Unidos. Que país rico faz isso?”, questionou Ibiapino.
Encerrando o programa, a médica reiterou: “O bloqueio não é apenas uma agressão a Cuba, é uma vergonha para o mundo. Cuba salva vidas, enquanto o bloqueio tenta destruí-las.”
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