No Bancos da Democracia, Joaquim Melo, Manuel Rodríguez e Nancy Rodríguez discutem como bancos comunitários, moedas sociais e a experiência das Sparkassen podem ajudar o Brasil a construir um sistema financeiro voltado aos territórios
Fortaleza será, entre os dias 4 e 7 de maio, o ponto de encontro das finanças solidárias no Brasil. O VI Encontro Nacional da Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento reúne bancos comunitários, pesquisadores, gestores públicos e experiências internacionais para discutir alternativas ao modelo financeiro concentrado que domina o país.
O tema foi debatido nesta segunda-feira, 4 de maio, em edição especial do programa Bancos da Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado excepcionalmente por Luiz Regadas. A conversa reuniu Joaquim Melo, presidente da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, Manuel Rodríguez, diretor de Finanças Sustentáveis da Fundação das Caixas Econômicas Alemãs, DSIK, e Nancy Rodríguez, consultora da fundação no Peru. A própria divulgação do encontro destaca as Sparkassen como instituições ligadas aos municípios, com foco em inclusão financeira, apoio a pequenas empresas e desenvolvimento regional.
O debate partiu de uma pergunta central: se a Alemanha e o Peru oferecem experiências em que instituições financeiras locais têm função social, por que o Brasil ainda convive com um sistema tão concentrado, caro e distante das comunidades?
Nancy Rodríguez explicou que, no Peru, a experiência das caixas municipais de poupança e crédito nasceu nos anos 1980, em um contexto de crise econômica, hiperinflação e exclusão bancária. Segundo ela, o objetivo era atender trabalhadores, pequenos comerciantes e setores populares que não tinham acesso ao sistema bancário tradicional.
A consultora destacou que o modelo foi inspirado nas caixas econômicas alemãs e partiu de uma premissa simples: levar crédito, poupança e educação financeira a quem estava fora do sistema formal.
“As caixas deveriam continuar esse mandato social, poder atender aos setores mais vulneráveis da população que não tinham acesso à banca tradicional”, afirmou Nancy.
Segundo ela, o trabalho começou com a criação de uma cultura de poupança. Não se tratava apenas de oferecer crédito, mas de mudar hábitos financeiros, formar confiança e aproximar a instituição da vida real das famílias. “O modelo de negócio da caixa era o cliente no centro, uma atenção personalizada”, disse.
Manuel Rodríguez recuperou a origem histórica das Sparkassen na Alemanha. Segundo ele, as primeiras caixas econômicas surgiram há mais de dois séculos com a finalidade de apoiar pessoas pobres na formação de pequenas reservas financeiras. A Fundação das Caixas Econômicas Alemãs para a Cooperação Internacional afirma atuar compartilhando essa experiência de inclusão financeira em diferentes países, e o Banco Palmas informa que a plataforma digital das moedas sociais fornece serviços financeiros, em sua maioria gratuitos, à população.
“O foco das caixas econômicas, no início e até hoje, estava na poupança. Depois também vem o crédito, claro, mas a ideia inicial foi apoiar as pessoas que têm uma renda baixa a poupar um pouco de dinheiro para uma situação de emergência”, explicou Manuel.
Ele ressaltou que a força do modelo alemão está na territorialidade. A poupança captada localmente deve financiar empresas, famílias e atividades econômicas daquela mesma região. “A sua obrigação é financiar somente as atividades econômicas no seu município. Então isso cria realmente uma economia local forte”, afirmou.
Para Joaquim Melo, essa é uma das principais lições que o Brasil pode extrair da experiência alemã e peruana. O presidente da Rede Brasileira de Bancos Comunitários destacou que o sistema financeiro brasileiro concentra renda, impõe juros elevados e afasta a população das decisões sobre o próprio dinheiro.
“O Brasil tem um sistema financeiro altamente concentrado em grandes bancos, em grandes instituições financeiras. O Peru, baseado na experiência alemã, traz o crédito para as comunidades, para os territórios, para a proximidade, onde a vida acontece”, afirmou.
Joaquim também apontou a poupança comunitária como um dos elementos mais relevantes do debate. Para ele, a possibilidade de uma pessoa guardar seus recursos em uma instituição financeira local, comprometida com o desenvolvimento do território, muda a lógica do dinheiro.
“Um cidadão simples, de baixa renda, um trabalhador pode ir lá num banco, na Caixa Econômica local, e fazer sua poupança. Não precisa poupar nos grandes bancos, pode poupar no banco de sua localidade, na instituição financeira local”, disse.
O dirigente relacionou esse debate ao endividamento das famílias brasileiras. Segundo ele, milhões de pessoas foram empurradas para linhas de crédito caras e irresponsáveis, enquanto os bancos comunitários propõem outra lógica, baseada em educação financeira, produção local e controle social.
“O dinheiro perde a sua função. A gente tem que ressignificar ou recuperar a função do dinheiro, que é dinheiro para estimular a produção e nada mais. O centro não é o dinheiro, o centro é o ser humano”, declarou Joaquim.
Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a crítica à ausência de um marco regulatório adequado no Brasil. Joaquim afirmou que o país já possui uma experiência concreta, com bancos comunitários e moedas sociais, mas ainda não dispõe de uma legislação capaz de reconhecer plenamente esse campo. O Ministério do Trabalho e Emprego informou, em 2025, que a Câmara aprovou projeto para regulamentar moedas sociais no Brasil, destacando que o Banco Palmas e a moeda Palmas foram criados em 1998 no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza.
“O Brasil não tem uma lei que regulamenta banco comunitário, não tem uma lei que regulamenta finanças solidárias, que regulamenta a moeda social. E é difícil você viver, conviver e avançar sem ter o marco regulatório”, afirmou Joaquim.
Manuel Rodríguez explicou que, na Alemanha, as caixas econômicas têm legislação própria, vinculada aos estados, o que permite preservar sua função pública e social. Nancy Rodríguez acrescentou que, no Peru, as caixas municipais também são reguladas pelo sistema financeiro nacional, com diferenças em relação aos bancos privados, especialmente quanto ao perfil do acionista e ao tipo de operação permitida.
O encontro em Fortaleza também terá uma dimensão tecnológica. Joaquim antecipou que a Rede Brasileira de Bancos Comunitários apresentará uma nova ferramenta de pagamento, descrita por ele como uma tecnologia de ponta desenvolvida a partir da periferia. A proposta é permitir pagamentos por aproximação da mão, reduzindo a dependência de cartões, maquininhas e custos bancários tradicionais.
“Isso aqui vai revolucionar o sistema financeiro brasileiro, tecnologia da periferia de ponta da rede brasileira”, afirmou.
Segundo Joaquim, o evento também discutirá transição energética justa e popular, financiamento de iniciativas comunitárias, pesquisa com participação de saberes populares e a construção de uma carta nacional dos bancos comunitários e das finanças solidárias.
“Existe no Brasil uma alternativa concreta para democratizar o sistema financeiro e para poder alavancar trabalho, renda, emprego autogestionário com qualidade de vida para o povo brasileiro”, disse.
O VI Encontro Nacional da Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento acontece de 4 a 7 de maio, em Fortaleza. Nos dias 4 e 5, a programação é mais interna, reunindo bancos comunitários, pesquisadores e convidados. A partir da noite do dia 5, o evento passa a ter atividades abertas ao público, com transmissão pelo canal do Banco Palmas no YouTube.
Ao final do programa, Manuel Rodríguez reforçou que os bancos comunitários brasileiros representam uma oportunidade concreta de descentralização financeira.
“Os bancos comunitários são uma grande promessa, uma oportunidade para descentralizar o sistema financeiro, para criar impacto nas economias locais, na economia das pessoas”, afirmou.
Nancy Rodríguez encerrou destacando que, independentemente do nome usado, finanças solidárias, microfinanças ou instituições comunitárias, o ponto essencial está na relação com as pessoas.
“O centro é o cliente, e essa conexão que existe entre a instituição e o cliente fará exitosa uma instituição”, disse.
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