Por Sara Goes
No debate presidencial desta sexta-feira, 23 de outubro, o Presidente Lula exigiu respeito diante da referência depreciativa ao dedo que perdeu em um acidente de trabalho. Flávio Bolsonaro recorreu ao apelido “9 dedos” para atacar o adversário, repetindo uma forma de humilhação que há anos circula no bolsonarismo. O episódio trouxe novamente à discussão o capacitismo e o uso de uma característica física como instrumento de bullying político.
Eu cresci ouvindo que Lula tinha arrancado o próprio dedo para não trabalhar. Escutei essa mentira tantas vezes que ela aparecia nas conversas como se fosse um fato conhecido por todos. Lula perdeu parte do dedo mínimo da mão esquerda em 1964, quando trabalhava como operário em uma fábrica. Era jovem e estava submetido às condições de trabalho de uma indústria brasileira. A história inventada para atacá-lo transforma esse acidente em uma suposta tentativa de escapar do serviço. O trabalhador que perdeu parte da mão durante o expediente passa a ser acusado de ter provocado a própria mutilação por preguiça.
Essa mentira não pode ser separada dos preconceitos dirigidos aos trabalhadores pobres, sobretudo aos nordestinos. Existe uma longa tradição de representar essas pessoas como preguiçosas, desonestas ou interessadas em obter vantagens sem merecimento. Quando Lula chegou à Presidência, esse repertório ganhou um alvo que incomodava setores acostumados a decidir quem estaria à altura de ocupar aquele lugar. A história sobre o dedo servia para alimentar o desprezo e desqualificar sua trajetória. Há preconceito de classe nessa operação e há também uma dimensão racial, presente na maneira como a sociedade brasileira historicamente trata os trabalhadores pobres e nordestinos.
No bolsonarismo, o apelido “nove dedos” tornou-se uma forma recorrente de atacar Lula. A amputação vira motivo de piada, e quem a utiliza tenta se proteger sob a alegação de que tudo não passa de provocação política. Mas a deficiência continua sendo o instrumento escolhido para humilhar o adversário. O fato de Lula ser uma figura pública não torna seu corpo um argumento legítimo para o ataque. Flávio Bolsonaro poderia confrontar suas decisões, seu governo e suas posições políticas. Preferiu recorrer a uma característica física que Lula carrega desde a juventude.
Antes da pandemia, criei uma imagem de uma mão aberta, com quatro dedos e um coração vermelho no lugar do mindinho que falta. Fiz aquele desenho porque queria colocar um coração ali. Era uma forma de carinho pelo Presidente Lula, algo que nasceu de maneira espontânea, sem que eu precisasse formular uma explicação política para a imagem.
O desenho virou bordado, depois estampa, e começou a circular. Naquele período, eu vivia um momento muito difícil. Estava de luto por uma gestação e enfrentava uma depressão. Quando a pandemia chegou, eu já estava isolada e vivia no limite financeiro. Fazia as contas na ponta do lápis para conseguir me manter, enquanto continuava trabalhando na mídia progressista. O dinheiro dos bordados ajudava a custear minha manutenção. A mãozinha que criei por carinho ao Presidente Lula também se tornou uma fonte de renda quando eu mais precisava.
Eu não imaginava que aquela criação circularia tanto. Enquanto tentava dar conta da minha própria vida, via pessoas bordando a mão, vestindo a estampa e reconhecendo nela uma referência a Lula. A imagem chegava a lugares onde eu não estava. Quem a encontrava podia conhecer o sentido político do desenho sem saber quem o havia criado ou o que aquela mulher estava vivendo naquele momento.
Hoje tenho um filho chamado Luiz Inácio. Quando olho para o coraçãozinho no lugar do dedo, penso em um beijinho no dodói. É assim que a imagem se apresenta para mim agora. O acidente continua fazendo parte da história de Lula, e o desenho não pretende escondê-lo. O coração está ali porque foi o que escolhi colocar naquele espaço.
Há algo muito particular em olhar para uma criação antiga depois de tantas mudanças na própria vida. A mão bordada me ajudou a atravessar um período de necessidade, tornou pública uma parte do meu trabalho e permaneceu comigo até que eu passasse a enxergá-la também pela experiência da maternidade. O nome do meu filho, Luiz Inácio, torna essa relação ainda mais pessoal.
Quando vi Flávio Bolsonaro usar o dedo de Lula para atacá-lo no debate, lembrei da mentira que escutava na infância. Lembrei de como uma história inventada pode ser repetida por anos e de como uma deficiência vira motivo de deboche quando as pessoas se acostumam a tratar a humilhação como brincadeira. O acidente aconteceu enquanto Lula trabalhava. A mentira sobre sua origem tenta transformar essa experiência em uma acusação contra ele, como se até a perda de parte de uma mão precisasse ser usada para questionar seu caráter.
Naquela época, desenhei uma mão com quatro dedos e coloquei um coração vermelho no lugar do mindinho. Não pensei em debates presidenciais, em discursos sobre capacitismo ou em como reagiria ao ver aquela imagem circular tantos anos depois. Eu só queria fazer aquele desenho.
Hoje, quando olho para ele, vejo um beijinho no dodói. E penso que meu filho ainda vai crescer ouvindo falar do Presidente Lula, do homem que inspirou aquela mãozinha e da história que me levou a bordar um coração no lugar do dedo que falta.





