“O desafio é eleger Lula e continuar mobilizado para preservar nossas conquistas”, afirma Paulo Salvador

Em entrevista ao Café com Democracia, jornalista avalia a disputa presidencial, critica a concentração de poder no Congresso e defende a mobilização popular como condição para avançar nos direitos sociais e trabalhistas

O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 segue em disputa, e a capacidade de mobilização da campanha do Presidente Lula será determinante para o resultado, na avaliação do jornalista Paulo Salvador. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Atitude Popular, exibido na sexta-feira (16), ele apontou sinais de crescimento do campo lulista nas pesquisas que acompanhava e defendeu a ampliação da presença nas ruas e nas redes sociais. “Eu acho que nós temos todas as condições de vencer esse segundo turno”, afirmou, ressaltando que a vitória dependerá de trabalho político contínuo.

A entrevista foi conduzida por Luiz Regadas, mestre em políticas públicas, cientista político e radialista. Com trajetória no sindicalismo bancário e na comunicação popular, Salvador trabalhou na Rede Brasil Atual e na TVT, da qual foi presidente, e atualmente atua no Radar Democrático. Ao longo da conversa, analisou a disputa eleitoral, os desafios de um eventual novo mandato do Presidente Lula, a redução da jornada de trabalho e o papel da comunicação na formação da opinião pública.

Uma eleição ainda indefinida

Salvador avaliou que o segundo turno não estava decidido e observou que a aliança formada em torno de Flávio Bolsonaro ainda não havia produzido, nas pesquisas que mencionou, a vantagem que ele esperava. O jornalista relatou ter percebido crescimento do Presidente Lula e uma estabilização do adversário, mas ponderou que o resultado dependeria dos movimentos da campanha nos dias seguintes.

“Quem sai com a aliança que o Bolsonaro fez a partir do segundo turno, com os demais candidatos ali, todo mundo o apoiando, era de se esperar que ele tivesse uma diferença muito maior”, afirmou.

Na avaliação do jornalista, a campanha de Lula precisava combinar a mobilização nas ruas com uma atuação mais abrangente nas plataformas digitais. Ele descreveu uma agenda de atividades políticas distribuídas ao longo do dia e defendeu que a militância ampliasse o alcance das mensagens para além dos grupos que já apoiam o governo.

Salvador também chamou atenção para a insatisfação de parte do eleitorado com a avaliação do governo federal. Para ele, a apresentação de resultados administrativos, por si só, não resolve as dificuldades de comunicação de um campo político que precisa dialogar com diferentes segmentos sociais.

O jornalista recorreu à própria experiência no movimento sindical para explicar esse problema. Segundo ele, mesmo quando uma entidade obtém um reajuste salarial, os trabalhadores podem continuar insatisfeitos porque consideram insuficientes os avanços alcançados.

A campanha, portanto, precisa reconhecer as demandas que permanecem sem resposta e apresentar perspectivas para o futuro. Salvador defendeu que Lula amplie o diálogo com a população e apresente propostas capazes de mobilizar eleitores que ainda não decidiram o voto.

Congresso e orçamento: a disputa depois das urnas

Um dos principais pontos da entrevista foi a relação entre o governo federal e o Congresso Nacional. Questionado por Luiz Regadas sobre as dificuldades de governar sem uma maioria parlamentar comprometida com as pautas populares, Salvador afirmou que a disputa política permanece mesmo depois das eleições.

“Todos os nossos governos vão ser de disputa”, declarou.

Na avaliação do jornalista, a disputa começa pela definição do orçamento público, porque as decisões sobre a destinação dos recursos determinam quais políticas serão financiadas e quais grupos serão beneficiados. Ele recomendou que os cidadãos acompanhem os orçamentos de seus municípios, estados e da União para compreender os interesses envolvidos nas decisões políticas.

Salvador também criticou as pressões por ajustes fiscais que, segundo ele, podem concentrar os custos das políticas econômicas sobre os trabalhadores enquanto preservam benefícios financeiros destinados aos setores mais ricos.

Ao discutir o Bolsa Família, contestou o preconceito contra os beneficiários do programa e citou um estudo atribuído à Fundação Getulio Vargas segundo o qual 85% das vagas de emprego criadas teriam sido ocupadas por pessoas vinculadas ao programa. A entrevista não detalhou o estudo, seu período de referência ou sua metodologia, de modo que o dado exige consulta à publicação original para verificação.

Para Salvador, a discussão sobre o orçamento precisa considerar os efeitos dos programas sociais sobre o emprego, o consumo e a distribuição de renda. Ele argumentou que o debate econômico perde precisão quando ignora as condições concretas de vida da população.

O jornalista também demonstrou preocupação com o peso das emendas parlamentares e com a capacidade do Congresso de limitar a atuação do Executivo. Na sua avaliação, a resposta a esse cenário exige organização popular capaz de pressionar os representantes eleitos e defender políticas públicas.

“Os sindicatos se mobilizarem e não ficar esperando”, afirmou, ao defender a retomada de uma participação mais ativa dos movimentos sociais, das organizações de moradia e das entidades de trabalhadores.

O fim da escala 6×1 e a importância histórica dos direitos trabalhistas

A redução da jornada de trabalho ocupou parte importante da conversa. Salvador classificou a votação relacionada ao fim da escala 6×1 como uma conquista histórica do movimento sindical e comparou sua relevância à de direitos trabalhistas consolidados em décadas anteriores.

“Essa votação, ela é histórica”, afirmou.

O jornalista criticou as condições de quem trabalha seis dias por semana e dispõe de apenas um dia para organizar a casa, lavar roupas, fazer compras e descansar. Para ele, a falta de tempo livre compromete a qualidade de vida e impede que os trabalhadores atendam a necessidades básicas fora do emprego.

“É desumano a pessoa trabalhar até o sábado à noite e ficar só com o domingo”, declarou.

Salvador reconheceu que mudanças na jornada podem gerar custos para as empresas, mas argumentou que esses custos precisam ser avaliados diante dos benefícios sociais de uma reorganização do trabalho. Na sua visão, empregadores capazes de planejar a adaptação poderão encontrar formas de conciliar a mudança com a continuidade das atividades econômicas.

O jornalista também relacionou a redução da jornada à possibilidade de ampliar o tempo disponível para atividades culturais, convivência familiar e descanso. Para ele, o desenvolvimento econômico deve ser medido também pelas condições de vida que proporciona aos trabalhadores.

A discussão, contudo, não se restringiu à jornada. Salvador alertou para propostas de flexibilização das relações de trabalho e para modelos de remuneração por hora que, dependendo das regras aplicadas, podem ampliar a instabilidade da renda.

Na avaliação do entrevistado, o debate eleitoral precisa esclarecer quais direitos estão em jogo e como as propostas econômicas de cada candidatura afetariam a vida dos trabalhadores.

Comunicação digital e disputa de narrativas

Salvador dedicou parte da entrevista à influência das redes sociais sobre o debate político. Para ele, o campo progressista precisa superar atrasos na utilização das plataformas digitais e compreender que a disputa eleitoral não se limita aos meios tradicionais de comunicação.

“Infelizmente, acho que já faz 20 anos que a gente fala que o campo progressista […] ainda há um grande atraso”, afirmou.

O jornalista considerou que as redes ampliaram as possibilidades de participação e circulação de informações, mas advertiu que as plataformas são controladas por grandes empresas privadas. Ele defendeu que o Brasil discuta alternativas para reduzir a dependência tecnológica, sobretudo no armazenamento de arquivos universitários e de dados relevantes para instituições públicas.

Salvador também destacou a necessidade de desenvolver políticas para lidar com os efeitos da inteligência artificial e com a concentração de poder nas empresas de tecnologia.

Na disputa eleitoral, o problema se manifesta na forma como acontecimentos políticos são apresentados ao público. Segundo ele, uma mesma informação pode ser enquadrada de maneiras distintas, dependendo dos interesses editoriais e políticos de quem a divulga.

O jornalista retomou as manifestações de junho de 2013 para discutir a mudança de pauta ocorrida ao longo dos protestos. Ele afirmou ter acompanhado presencialmente atos em São Paulo e sustentou que a mobilização inicial, ligada ao aumento das tarifas de transporte, foi gradualmente incorporada por outros grupos políticos.

Salvador apresentou essa interpretação como parte de sua análise sobre o uso das redes sociais na disputa política. A conversa não trouxe documentação suficiente para comprovar as alegações sobre a atuação de grupos estrangeiros nas manifestações, que devem ser tratadas como avaliação do entrevistado.

Para ele, a experiência reforça a necessidade de o campo progressista desenvolver estratégias próprias de comunicação, capazes de disputar a atenção dos eleitores e responder à circulação de informações falsas.

Críticas à atuação de ministros e à Justiça Eleitoral

A entrevista também abordou decisões atribuídas a ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral no contexto da campanha de 2026. Salvador criticou o que considera tratamento desigual entre os campos políticos e manifestou preocupação com os efeitos dessas decisões sobre o processo eleitoral.

“É uma vergonha a postura do ministro”, declarou, ao comentar a atuação de Kassio Nunes Marques.

O jornalista também mencionou o caso envolvendo Daniel Vorcaro e afirmou que os desdobramentos das investigações poderiam ampliar a crise institucional. Durante a conversa, apresentou críticas à cobertura de veículos de comunicação e levantou suspeitas sobre possíveis interferências na produção jornalística.

Essas declarações expressam a avaliação política do entrevistado. As acusações sobre favorecimento, manipulação de decisões ou interferência editorial exigem apuração independente e documentação específica antes de serem tratadas como fatos comprovados.

Salvador relacionou o tema à disputa pela circulação de informações durante o período eleitoral e defendeu que a população tenha acesso a dados suficientes para avaliar a atuação das instituições.

O entrevistado também criticou a iniciativa atribuída à campanha de Flávio Bolsonaro de buscar restrições à participação de sindicatos e da União Nacional dos Estudantes em atividades políticas relacionadas à candidatura de Lula.

Para ele, as entidades precisam respeitar a legislação eleitoral, mas não devem abandonar o debate público sobre os direitos que defendem.

“A liberdade de imprensa, ela não pode tudo. Ela tem que ter a responsabilidade”, afirmou, ao discutir os limites entre liberdade de expressão e responsabilidade legal. Na mesma linha, defendeu que os sindicatos se posicionem sobre os projetos políticos em disputa, observando as regras aplicáveis à sua atuação.

Argentina como alerta sobre políticas de austeridade

Ao analisar as propostas econômicas em discussão no Brasil, Salvador recorreu à situação argentina para alertar sobre as consequências sociais de políticas de ajuste fiscal. Ele mencionou notícias sobre o fechamento de empresas e protestos de aposentados, associando esses episódios aos efeitos de cortes de gastos públicos e de redução da proteção social.

Segundo o jornalista, a experiência argentina demonstra a importância de observar quem suporta os custos das decisões econômicas. Ele afirmou que medidas de austeridade podem atingir diretamente os trabalhadores e os beneficiários de políticas públicas, mesmo quando são apresentadas como necessárias para reorganizar as contas do Estado.

Salvador citou possíveis mudanças em benefícios previdenciários, na Farmácia Popular e em outros programas sociais como pontos que deveriam ser acompanhados no debate brasileiro. As referências foram apresentadas como riscos associados às propostas que ele criticava, e não como medidas cuja implementação estivesse comprovada.

O entrevistado também defendeu a distribuição de renda como instrumento de dinamização econômica. Na sua avaliação, quando os trabalhadores dispõem de recursos para consumir, a atividade econômica pode se beneficiar da circulação desse dinheiro.

A concentração de renda, por outro lado, pode limitar o consumo e prejudicar empresas que dependem da demanda interna. Para Salvador, as decisões sobre o orçamento e os direitos sociais precisam ser analisadas em conjunto, considerando seus efeitos sobre a economia e a população.

Pandemia, armamento e políticas públicas

Salvador também abordou a pandemia de Covid-19 e as políticas de armamento do governo Bolsonaro. Ao mencionar as cerca de 600 mil mortes registradas no Brasil durante a crise sanitária, destacou que a dimensão da tragédia não pode ser dissociada das decisões tomadas pelas autoridades públicas.

“Depende como o governo reage”, afirmou, ao argumentar que a resposta estatal pode reduzir ou agravar os efeitos de crises sanitárias e de eventos extremos.

O jornalista criticou a condução da pandemia pelo governo Bolsonaro, com referências à demora na aquisição de vacinas e à promoção de comportamentos que contrariavam medidas de prevenção. A avaliação foi apresentada como parte de sua crítica política ao ex-presidente.

Na sequência, questionou a ampliação do acesso a armas e seus possíveis efeitos sobre a violência. Salvador defendeu maior controle sobre o armamento e argumentou que a circulação de armas pode agravar conflitos cotidianos.

O entrevistado também citou o programa Mais Médicos e as políticas de cotas como iniciativas que, em sua avaliação, contribuíram para ampliar o acesso à saúde e modificar o perfil social da formação médica no país.

Ao reunir esses temas, Salvador sustentou que as escolhas dos governos têm consequências diretas sobre a vida da população. Para ele, a disputa eleitoral envolve a definição de prioridades para a saúde, a proteção social e a preservação da democracia.

Mobilização popular como condição para governar

Ao final da entrevista, Salvador voltou à necessidade de ampliar a participação política para além do voto. Ele afirmou que a campanha eleitoral precisa chegar aos bairros e ao interior, com iniciativas locais capazes de dialogar com pessoas que não acompanham diariamente o debate nacional.

O jornalista também ressaltou que pesquisas eleitorais são retratos limitados de um momento e não conseguem captar integralmente as mudanças de comportamento e as contradições presentes no eleitorado.

Na sua avaliação, o resultado dependerá da capacidade das campanhas de dialogar com eleitores indecisos e com aqueles que consideram votar em branco ou anular o voto.

Salvador encerrou sua participação defendendo a continuidade da mobilização social, independentemente do resultado eleitoral. Para ele, a eleição de um governo comprometido com direitos sociais não elimina os conflitos no Congresso nem dispensa a pressão organizada da sociedade.

“Não temos outra opção que não seja eleger Lula e continuar mobilizado no sentido de preservar as nossas conquistas”, afirmou.

A entrevista ao Café com Democracia reuniu, assim, uma análise da disputa presidencial com questões estruturais da política brasileira. Na avaliação de Paulo Salvador, o futuro do governo dependerá tanto do resultado das urnas quanto da capacidade de trabalhadores, sindicatos e movimentos sociais de participar das decisões públicas e defender seus direitos.

Assista à entrevista completa:

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