Por Eliara Santana
Era 17 de abril de 2017, um sábado. Estávamos na Praça da Estação, em BH, acompanhando a votação na Câmara pelo telão. A praça estava lotada, patos em verde e amarelo; nós, em vermelho. À medida que avançava a votação, vimos que iríamos perder. Fomos pra casa e chegamos a tempo de ver a infâmia do voto miserável de Jair Messias Bolsonaro exaltando a memória do torturador Brilhante Usar, ô pavor de Dilma Rousseff”, segundo o deputado. Vomitei. Mal sabia eu que vomitaria de raiva, tristeza e desespero tantas vezes mais. Teminada a votação, o pulha do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, comemora a abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. Legitimamente eleita com milhões de votos. Impeachment que foi fruto de uma campanha desonesta, sórdida e bem articulada da mídia e da Faria Lima com o pato da Fiesp porque não queriam mais o PT no poder. Ficaram aturdidos quando o playboy perdeu. E aí, como têm os meios de comunicação, bastou inventar dancinha ridícula – “fora Dilma, fora Lula, fora PT” –, injetar milhões, venderem a ideia de que era “insatisfação espontânea” e produzir bem os repertórios crise econômica e corrupção para tudo se desenrolar.
O Brasil ia bem, o pré-sal era a menina dos olhos, os aeroportos “pareciam rodoviária” de tanta gente, os shoppings andavam lotados, queda no desemprego batendo recorde, renda subindo. Mas isso não era bom. País nessas condições é país em que o povo não se curva a escalas escravistas de trabalho, onde a filha da empregada vai estudar arquitetura na USP e rouba a vaga do rico tosco que não quer estudar. Esse país não serve para o projeto escravocrata e explorador da elite brasileira. Então, vamos inventar um impeachment. E assim se fez. E amargamos 10 anos de retrocesso civilizatório – porque esse processo nos legou Jair Bolsonaro, o tosco incomível, como presidente.
Hoje, 10 anos depois, aqui estamos, com Flávio sem sobrenome alavancado pela imprensa e a volta dos repertórios, agora sob a alcunha de “endividamento das famílias”. E o reconhecimento de Eduardo Cunha – “Se eu não tivesse feito o impeachment, Bolsonaro não seria presidente” – parece mais um tapa na cara dos alecrins dourados que insistiam em defender a Lava Jato e o impeachment e defendem agora o expurgo do STF.
O jogo é bruto e cansativo. Mas nós vamos sorrir. E brigar pra arrancar a fantasia dos patos.












