Atitude Popular

“O fascismo é a ética da destruição do outro”

Com debate sobre comunicação, polarização e bastidores no Ceará, “Democracia no Ar” projeta o tabuleiro de 2026 e alerta para riscos à convivência democrática

A edição do Democracia no Ar desta semana colocou no centro da conversa um assunto que costuma chegar “adiantado” ao cotidiano político: as eleições de 2026 e o modo como o jogo começa a ser montado bem antes da campanha oficial. A partir do programa exibido pela Rádio e TV Atitude Popular (com transmissão no YouTube), a apresentadora Sara Goes recebeu o consultor político e psicólogo Christiano Fiúza e abriu a participação fixa do comentarista Osmar de Sá Ponte, ampliando o olhar sobre correlação de forças, narrativas e riscos no horizonte democrático. (Fonte original: Democracia no Ar / Rádio e TV Atitude Popular, conforme transcrição fornecida.)

Logo no começo, o programa apresentou a aposta editorial para 2026: tratar a eleição como disputa de imaginação social, comunicação e afetos políticos, sem perder de vista os interesses concretos em jogo. A leitura é que a polarização não se sustenta apenas por partidos e alianças, mas pela forma como as pessoas passam a “ver o mundo” — e, com isso, organizam medos, lealdades e rejeições.

Um mundo “já mudado” e a crise de autoridade da política

Na estreia como comentarista fixo, Osmar de Sá Ponte descreveu o momento brasileiro como parte de uma transformação mais ampla, global, que reconfigura referências éticas, noções de realidade e expectativas sociais. Para ele, não se trata apenas de “dificuldades”, mas de desafios próprios de um período em que instituições e relações sociais estão sendo testadas.

Ao defender que a política é mais do que o rito partidário, Osmar formulou uma definição que se repetiu como fio condutor do debate: “Política é a relação entre as pessoas, é como elas pactuam as suas relações.” E, ao falar da escalada de intolerância e violência — inclusive nas relações de gênero —, ele sintetizou o risco civilizatório embutido no extremismo: “O fascismo é a ética da destruição do outro.”

O comentarista também apontou a crise de autoridade moral que atravessa a política (no Brasil e no mundo), num cenário em que ela é vista com desconfiança e é atacada por grupos que pretendem “destruir a política para fazer política sozinhos”, sem participação e sem democracia. A consequência, segundo ele, é um ambiente de corrosão do convívio social: famílias divididas por pauta eleitoral, ódio como método e uma cultura que transforma o adversário em inimigo a ser eliminado.

Redes, “povão” e o susto da esquerda

Ao ser provocado sobre juventude, redes sociais e dificuldade de comunicação, Christiano Fiúza trouxe uma interpretação direta: o choque não foi uma “mudança repentina” das pessoas, mas o fato de que o cidadão comum passou a se expressar sem intermediários.

O cidadão comum teve acesso a comunicar aquilo que ele pensa sem intermediários”, disse Fiúza, observando que parte da intelectualidade e do campo progressista, acostumada a debates mais “internalizados”, teve dificuldade ao se deparar com o que chamou de pensamento do “homem comum”. Ele reforçou que esse repertório social não surgiu do nada: “As pessoas já eram assim… o Brasil é historicamente um país conservador.” Para ele, redes sociais e internet funcionaram como uma vitrine que expôs, com pouca mediação, valores e ressentimentos antes menos visíveis.

Nesse ponto, a conversa cruzou comunicação e psicologia política: se a eleição é, também, uma disputa de linguagem e pertencimento, o campo democrático precisa reconstruir pontes com públicos que se sentem representados por mensagens simples, agressivas ou identitárias. A dificuldade, apontada no programa, é traduzir complexidade sem perder o vínculo com a vida real.

Ceará como laboratório: federação, centrão e a pergunta decisiva

A parte mais “quente” do debate entrou quando o foco virou o Ceará e a costura para 2026, especialmente a incógnita sobre o posicionamento da federação entre União Brasil e Progressistas — apontada como peça decisiva por causa de tempo de TV e recursos.

Fiúza descreveu o cenário como um jogo em que a viabilidade eleitoral depende de musculatura partidária. Para ele, sem estrutura, candidaturas fortes ficam amarradas. E, ao tratar da hipótese de o bloco migrar para um palanque de oposição, resumiu a dificuldade com ironia estratégica: convencer o centrão a trocar o cálculo local por aventura política seria uma “missão impossível”.

Osmar, por sua vez, defendeu que o centrão tende a agir com pragmatismo: quer eleger bancada e ampliar poder institucional via fundos e emendas, evitando movimentos que arrisquem perdas nos estados. A lógica, segundo ele, é preservar alianças que maximizem capilaridade e reeleição, não assumir compromissos ideológicos rígidos. Na leitura apresentada, a política local pesa mais do que a narrativa nacional quando o objetivo é garantir espaço e proteção eleitoral.

Democracia não é “chegada”: é prática cotidiana

Apesar do tom crítico, o debate também trouxe uma defesa enfática de pluralidade e disputa política como elemento saudável. Osmar argumentou que oposição não deveria ser tratada como “estresse” por quem se diz democrata: democracia não é destino, mas prática diária — convivência, respeito e capacidade de discordar sem desejar o extermínio do outro.

Ao final, o programa ainda abriu uma janela para realinhamentos partidários no campo democrático, citando a possibilidade de migrações e reacomodações, sempre sob a mesma chave: onde há descência democrática, há possibilidade de composição; onde há flerte com autoritarismo, há ruptura moral.

A edição termina deixando um recado que dialoga com a proposta da própria Atitude Popular: 2026 será decidida também na disputa de narrativa e no trabalho cotidiano de comunicação que consegue transformar pauta nacional em conversa compreensível, concreta e participativa.


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