Escritor, compositor e produtor cultural afirma que o riso funciona como resistência emocional diante das tensões sociais e políticas do presente
Da Redação
O escritor, compositor e produtor cultural Tarcísio Vale Matos afirmou que o humor exerce um papel terapêutico fundamental em tempos de ansiedade, intolerância e tensão social. A declaração foi dada durante entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas.
Ao longo da conversa, Tarcísio refletiu sobre a relação entre arte, riso, saúde emocional e resistência cultural nordestina. Segundo ele, o humor inteligente não elimina os problemas concretos da sociedade, mas cria momentos de alívio emocional capazes de reorganizar afetos e diminuir tensões.
“O humor trabalha como uma terapêutica de profundo espectro. Evidentemente que ele não resolve o problema, mas naquele momento em que você está com ele, ouvindo, curtindo, entendendo, se abrindo, você pelo menos relaxa”, afirmou.
Humor como forma de resistência
Durante a entrevista, Tarcísio destacou que o Brasil atravessa um período marcado por excesso de tensão política, insegurança social e sensação permanente de instabilidade. Nesse contexto, ele considera o humor uma ferramenta de sobrevivência emocional.
“O humor que trabalha a inteligência para tocar um sentimento, ele é necessário, ele é preciso, ele é urgente”, declarou.
O escritor fez questão de diferenciar o humor crítico e inteligente da simples caricatura apelativa. Para ele, o verdadeiro humor nasce da observação humana e da capacidade de transformar dificuldades em elaboração coletiva.
Das paródias na faculdade ao encontro com Falcão
Ao relembrar o início de sua trajetória, Tarcísio contou que a inclinação para o humor surgiu ainda na juventude, especialmente durante o período em que cursava medicina. Segundo ele, o ambiente universitário foi palco das primeiras experiências com paródias e brincadeiras.
“Eu sempre fui meio fuleiro”, brincou ao narrar episódios da juventude.
A entrevista também recuperou sua parceria histórica com Falcão. Tarcísio explicou que os dois se aproximaram nos anos 1980 e passaram a desenvolver músicas humorísticas que misturavam crítica social, ironia e regionalismo cearense.
Ele relembrou o impacto da música “Canto gregoriano nº 2”, que ajudou a projetar nacionalmente o personagem criado por Falcão.
“O humor é algo muito sério”
Tarcísio rejeitou a ideia de que humor seja sinônimo de superficialidade. Segundo ele, a comédia produzida no Ceará historicamente dialoga com crítica política, observação social e resistência cultural.
“O humor é algo muito sério”, afirmou durante a entrevista.
Ele também destacou a inteligência artística de Falcão, classificando o cantor como um dos grandes observadores da cultura popular nordestina.
“O Falcão é sério. É uma seriedade que ele faz sob a forma de hilaridade inteligente”, disse.
A força cultural do Nordeste
Em um dos momentos mais reflexivos da conversa, Tarcísio relacionou o humor nordestino à própria experiência histórica de resistência da região. Para ele, o Nordeste desenvolveu uma linguagem própria para lidar com adversidades sociais e climáticas.
“O humor é resistência”, resumiu.
Ele citou nomes históricos da cultura popular nordestina, como cantadores, cordelistas e poetas populares, afirmando que a criatividade da região nasce justamente da necessidade de enfrentar dificuldades sem perder a capacidade de rir da própria realidade.
Risoterapia, palhaços hospitalares e solidariedade
A entrevista também abordou experiências ligadas à humanização hospitalar e ao trabalho voluntário. Tarcísio relatou sua atuação junto à Associação Peter Pan, instituição que acompanha crianças e adolescentes em tratamento contra o câncer.
Segundo ele, o riso possui capacidade concreta de aliviar ambientes de sofrimento.
“O humor é ligação entre o divino e o humano”, afirmou.
Ao comentar o trabalho de palhaços em hospitais, Tarcísio defendeu que alegria, acolhimento e dignidade também são formas de cuidado social.
“A alegria está na educação, na saúde, na moradia, na segurança”, declarou.
Livros e projetos culturais
Durante a conversa, Tarcísio também comentou algumas de suas obras literárias. Entre elas, destacou “A grande enciclopédia da fala cearense”, que reúne milhares de expressões populares do Ceará, além do livro “Vaian sol”, dedicado ao humor cearense e à tradição da chamada “molecagem cearense”.
Ele revelou ainda que possui um projeto antigo em parceria com Falcão chamado “Manual da autolascação”.
“Já que a autoajuda não deu certo, a gente vai fazer a autolascação”, brincou.
Referências
A grande enciclopédia da fala cearense – Compilação de cerca de 10 mil expressões populares, regionalismos, gírias e construções linguísticas do Ceará, organizada pelo escritor e compositor cearense Tarcísio Vale Matos.
Vaia ao sol – Projeto e espetáculo construído por Tarcísio Vale Matos a partir de episódios históricos, personagens e expressões do humor popular cearense, dialogando com a tradição da “molecagem cearense”.
Castorina – Artista popular ligado ao teatro de revista e ao humor tradicional do Ceará, frequentemente citado como um dos nomes históricos da comicidade cearense.
Quintino Cunha – Poeta, cronista e advogado cearense conhecido pela irreverência, pelo improviso e pela sátira política e social no início do século XX.
Paula Nei = Jornalista, poeta e cronista nascido no Ceará, reconhecido pela ironia refinada e pelo humor crítico presente em sua produção literária.
Luís Dantas Quesado – Autor ligado à tradição humorística e literária do Ceará, associado às expressões culturais da chamada “molecagem cearense”.
Tom Cavalcante – Ator, imitador e apresentador nascido no Ceará, um dos principais nomes do humor televisivo brasileiro contemporâneo.
Belmino – Comediante e comunicador popular conhecido pela presença em programas humorísticos de rádio e televisão no Ceará.
Oliveira de Panelas – Repentista pernambucano reconhecido nacionalmente pela improvisação poética e pelas disputas de viola no Nordeste brasileiro.
Zé Limeira – Figura lendária da poesia popular nordestina, conhecido como “o poeta do absurdo” pela mistura proposital de tempos históricos, imagens delirantes e humor nonsense.
Charlie Chaplin – Ator, diretor e compositor britânico do cinema mudo, considerado um dos maiores nomes da história do humor e da crítica social no audiovisual mundial.
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