Da Redação
Após meses de guerra sem conseguir transformar sua superioridade militar em capitulação de Teerã, Washington enfrenta um conflito que pressiona seus estoques de armamentos, mantém o Estreito de Ormuz sob tensão e produz consequências muito além do Oriente Médio. Não há evidência de decisão norte-americana pelo emprego de armas nucleares, mas a hipótese, ainda remota, merece ser examinada pelo tamanho de suas consequências para o Irã, o Sul Global e toda a arquitetura de segurança construída desde 1945.
Nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, talvez a pergunta mais perigosa em torno da guerra entre Estados Unidos e Irã não seja quantos aviões, navios, instalações militares ou sistemas de mísseis cada lado conseguiu destruir. Depois de meses de conflito, a questão decisiva é saber se Washington conseguiu transformar sua enorme superioridade tecnológica, aérea, naval, financeira e militar em vitória política. Até agora, as evidências disponíveis apontam para uma situação muito mais contraditória. O Irã sofreu perdas severas, teve instalações destruídas, perdeu dirigentes e viu parte de suas capacidades convencionais ser degradada. Seria incorreto, portanto, afirmar que Teerã simplesmente derrotou militarmente os Estados Unidos numa confrontação convencional. Mas também seria igualmente enganoso confundir capacidade de destruição com vitória estratégica: Washington ainda não conseguiu impor ao governo iraniano os objetivos políticos que justificaram a escalada da guerra.
É justamente essa diferença que ajuda a compreender por que o conflito entrou numa fase particularmente perigosa. Uma potência militarmente inferior não precisa necessariamente destruir as Forças Armadas de uma superpotência para impedir sua vitória. Em uma guerra assimétrica, pode bastar preservar capacidade suficiente para continuar combatendo, elevar os custos da guerra, impedir a estabilização do território estratégico e tornar politicamente caro demais o resultado pretendido pelo adversário. O Irã vem demonstrando precisamente essa capacidade. Mesmo submetido a ataques de enorme intensidade, continua dispondo de instrumentos para atingir interesses norte-americanos e aliados na região, lançar mísseis e drones, ameaçar infraestruturas estratégicas e utilizar a própria geografia do Golfo Pérsico como multiplicador de poder.
O Estreito de Ormuz tornou-se a expressão mais evidente dessa estratégia. Por aquela passagem marítima estreita circula uma parcela extraordinariamente importante do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados internacionalmente. O Irã não precisa derrotar a Quinta Frota dos Estados Unidos em uma batalha naval clássica para transformar Ormuz numa arma geopolítica. Basta elevar suficientemente o risco de navegação para que seguradoras aumentem preços ou suspendam coberturas, armadores reconsiderem rotas, tripulações resistam a atravessar a região e mercados incorporem ao barril de petróleo um prêmio permanente de guerra. Nesta quarta-feira, o tráfego pelo estreito continuava profundamente abaixo da normalidade, enquanto os preços internacionais do petróleo voltavam a refletir a insegurança em torno da passagem. Essa capacidade de produzir instabilidade sobre uma artéria essencial da economia mundial constitui uma das principais vantagens estratégicas preservadas por Teerã.
É nesse sentido que se pode falar em resistência iraniana sem recorrer a propaganda. O Irã sofreu enormemente, mas Washington também começou a pagar custos que não estavam necessariamente presentes nas expectativas iniciais da campanha. Além das baixas militares norte-americanas registradas durante o conflito, há pressão crescente sobre estoques de determinados armamentos sofisticados. Fontes norte-americanas citadas pela Reuters no início de agosto afirmaram que os Estados Unidos haviam consumido praticamente todo o estoque imediatamente disponível de algumas categorias de mísseis de precisão de longo alcance utilizados durante a guerra. Isso importa porque armamentos dessa complexidade não podem ser simplesmente repostos de uma semana para outra. Dependem de linhas industriais, componentes especializados, trabalhadores qualificados, contratos e cadeias de fornecedores cuja expansão leva tempo.
E existe um problema ainda maior: os Estados Unidos não planejam suas guerras olhando apenas para o Oriente Médio. Cada interceptador disparado, cada míssil de precisão consumido, cada navio deslocado e cada esquadrão mantido durante meses diante do Irã precisa ser considerado também em relação à Rússia, à China, à Península Coreana e principalmente ao Indo-Pacífico. Uma guerra prolongada contra Teerã absorve recursos militares que fazem parte do mesmo sistema global utilizado por Washington para sustentar sua presença em diferentes teatros. É precisamente por isso que o Irã pode impor um custo estratégico muito superior ao tamanho relativo de suas Forças Armadas: ele obriga a maior potência militar do planeta a concentrar recursos numa região enquanto seus competidores observam, calculam e adaptam suas próprias estratégias.
É dentro desse impasse — e não de uma suposta iminência de ataque atômico — que deve ser examinada a questão nuclear. Os Estados Unidos possuem, evidentemente, capacidade material para empregar armas nucleares contra o Irã. Isso é muito diferente de dizer que pretendem fazê-lo. Até o momento, não existe evidência pública confiável de que Donald Trump tenha autorizado um ataque nuclear, selecionado alvos para esse tipo de operação ou iniciado preparativos que permitam afirmar que uma decisão esteja próxima. Pelo contrário, Trump já declarou publicamente que não utilizaria armas nucleares contra o país. Portanto, qualquer reportagem responsável precisa estabelecer essa distinção desde o princípio: o emprego de uma bomba nuclear norte-americana contra o Irã continua sendo um cenário de baixa probabilidade, embora suas consequências potenciais sejam tão extraordinárias que o risco não possa simplesmente ser ignorado.
O motivo pelo qual a hipótese aparece em discussões estratégicas está relacionado, entre outras coisas, à profundidade de determinadas instalações iranianas. Durante décadas, Teerã construiu parte importante de sua infraestrutura nuclear e militar em complexos subterrâneos protegidos por enormes camadas de rocha. Os Estados Unidos dispõem de algumas das armas convencionais de penetração mais poderosas do mundo, mas instalações profundamente enterradas apresentam dificuldades físicas evidentes: é possível destruir acessos, redes elétricas, sistemas auxiliares e partes do complexo sem necessariamente garantir a destruição integral das estruturas mais profundas. É nesse contexto que aparece teoricamente a possibilidade de armas nucleares de penetração ou de menor potência.
A expressão “arma nuclear tática”, porém, pode produzir uma perigosa ilusão semântica. Uma ogiva pode ter potência menor do que outra, pode ser concebida para um alvo militar específico e pode produzir uma área de destruição diferente daquela associada às grandes armas estratégicas da Guerra Fria. Politicamente, entretanto, não existe uma pequena explosão nuclear. No instante em que os Estados Unidos empregassem uma arma atômica em combate, qualquer que fosse sua potência, seria rompida uma barreira preservada desde os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945. Nenhum país utilizou novamente uma arma nuclear em guerra durante mais de oito décadas, apesar de confrontações extraordinariamente violentas envolvendo Estados nuclearmente armados.
Esse é talvez o aspecto mais grave de todo o cenário. Se uma potência nuclear utilizasse uma arma atômica contra um país que não possui oficialmente armas nucleares, a mensagem enviada ao sistema internacional poderia ser exatamente o contrário daquela defendida durante décadas pelo regime de não proliferação. Países que abriram mão da bomba poderiam concluir que essa renúncia não lhes oferece segurança, mas vulnerabilidade. A lógica seria brutalmente simples: Estados dotados de armas nucleares possuem capacidade de dissuadir ataques existenciais; Estados sem elas permanecem sujeitos à possibilidade de coerção extrema por aqueles que as possuem.
O impacto sobre o Tratado de Não Proliferação Nuclear seria potencialmente devastador. O programa iraniano permanece objeto de enorme controvérsia internacional, e a Agência Internacional de Energia Atômica registrou antes da guerra níveis de enriquecimento de urânio excepcionalmente elevados para um Estado não nuclear integrante do tratado. Isso representa uma capacidade tecnológica avançadíssima e legítimas preocupações de proliferação, mas enriquecimento elevado não equivale automaticamente à existência de uma arma nuclear operacional. Essa distinção jurídica e técnica importa porque, caso Washington empregasse uma bomba contra Teerã, governos de todo o mundo passariam a reconsiderar o valor das garantias oferecidas pelo sistema internacional.
As consequências poderiam aparecer primeiro no próprio Oriente Médio. Arábia Saudita, Turquia, Egito e outras potências regionais teriam razões para reavaliar suas estratégias de segurança. Governos que hoje dependem de alianças militares, garantias externas ou regimes de não proliferação poderiam começar a perguntar se, diante de um mundo no qual armas nucleares voltaram a ser utilizadas, não seria necessário possuir capacidade própria de dissuasão. A Coreia do Norte, por sua vez, ganharia um argumento propagandístico extraordinário para justificar sua decisão histórica de construir um arsenal nuclear: Pyongyang poderia apresentar o destino iraniano como prova de que somente a posse da bomba impediria uma potência superior de recorrer à força máxima.
A onda de choque chegaria rapidamente à Europa e à guerra envolvendo Rússia e Ucrânia. Moscou poderia utilizar imediatamente o precedente norte-americano para enfraquecer qualquer condenação futura ao emprego ou ameaça de emprego de armas nucleares russas. Isso não significa que a Rússia automaticamente lançaria uma bomba, mas significaria algo estrategicamente profundo: o tabu nuclear deixaria de ser absoluto. Se Washington argumentasse que uma determinada circunstância militar justificou o uso de uma arma de baixa potência contra uma instalação iraniana, Moscou poderia tentar construir justificativas semelhantes em seu próprio teatro de operações. A fronteira psicológica que separa dissuasão nuclear de emprego nuclear teria sido atravessada.
Na Ásia, a China provavelmente interpretaria a mudança como uma alteração estrutural do ambiente estratégico. Pequim já moderniza e amplia seu arsenal nuclear e poderia acelerar esse processo diante de um precedente norte-americano. O cálculo sobre Taiwan também se tornaria mais perigoso. Qualquer planejamento de guerra no Indo-Pacífico passaria a incorporar uma variável que, desde 1945, permaneceu essencialmente confinada à dissuasão: a possibilidade de utilização efetiva de armas nucleares durante uma grande guerra convencional. Paradoxalmente, uma bomba utilizada para demonstrar a supremacia norte-americana poderia acelerar justamente a expansão dos arsenais destinados a limitar essa supremacia.
Para o Sul Global, a leitura seria ainda mais carregada de significado histórico. O único Estado que utilizou armas nucleares contra populações durante uma guerra continua sendo os Estados Unidos. Se Washington voltasse a fazê-lo 81 anos depois, desta vez contra um país do Oriente Médio, a repercussão política atravessaria África, América Latina e Ásia. Governos que mantêm relações próximas com os norte-americanos seriam pressionados por suas próprias sociedades a reagir. Países como Brasil, África do Sul, Índia e Indonésia teriam enorme dificuldade em tratar o acontecimento simplesmente como mais um episódio da guerra.
O BRICS enfrentaria uma situação particularmente delicada porque o próprio Irã integra o agrupamento. China e Rússia, ambas potências nucleares e membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, seriam colocadas diante de uma pressão enorme para responder diplomaticamente. Índia e Brasil teriam de conciliar suas relações com Washington com os princípios históricos de soberania, solução pacífica das controvérsias e rejeição ao uso de armas nucleares. O que hoje ainda é uma associação heterogênea voltada sobretudo à cooperação econômica e à reforma da governança internacional poderia ser empurrado para uma crise geopolítica capaz de redefinir sua própria identidade.
Mas talvez o cenário mais perigoso não estivesse nas capitais das grandes potências. Estaria no que aconteceria nas primeiras horas depois da explosão. Mesmo uma arma dirigida contra uma instalação militar subterrânea poderia produzir consequências radiológicas cuja extensão dependeria da potência utilizada, da profundidade da detonação, da geologia, dos ventos e de inúmeras outras variáveis. Uma explosão subterrânea não significa automaticamente confinamento perfeito da radiação. Material contaminado poderia ser projetado para a atmosfera, e o medo de contaminação teria consequências econômicas e humanas muito além da área diretamente atingida.
A reação iraniana seria ainda mais imprevisível. Não existe evidência pública confiável de que o Irã disponha hoje de uma arma nuclear operacional que pudesse simplesmente utilizar em represália. Isso, entretanto, não significa ausência de opções. Teerã poderia lançar ataques maciços contra bases norte-americanas na região, ampliar ataques contra Israel, atingir infraestruturas energéticas de aliados dos Estados Unidos, intensificar operações cibernéticas e tentar transformar a perturbação de Ormuz em bloqueio efetivo. Poderia também abandonar definitivamente compromissos nucleares restantes e concluir que sua sobrevivência futura depende da construção de uma capacidade nuclear militar.
Israel entraria então numa situação paradoxal. Um ataque norte-americano apresentado como instrumento para reduzir uma ameaça contra o Estado israelense poderia aumentar dramaticamente os riscos enfrentados por ele. Depois de sofrer uma explosão nuclear, a liderança iraniana poderia concluir que restrições estratégicas anteriores deixaram de fazer sentido. Israel, por sua vez, teria de decidir até onde responderia a uma retaliação iraniana. A guerra deixaria rapidamente de ser apenas um confronto entre Estados Unidos e Irã e poderia transformar todo o Oriente Médio num sistema de escaladas interligadas, envolvendo Iraque, Líbano, Síria, Iêmen, países do Golfo e diferentes forças associadas aos dois lados.
O impacto econômico seria planetário. Ormuz já demonstra como uma faixa estreita de água pode funcionar como gargalo da economia mundial. Uma detonação nuclear no Irã poderia fazer seguradoras marítimas suspenderem coberturas, retirar navios da região e elevar drasticamente os custos de transporte. O petróleo poderia sofrer uma disparada muito superior às oscilações observadas durante a guerra convencional, mas energia seria apenas o primeiro elo da cadeia. Combustíveis mais caros significariam fretes mais caros; fretes mais caros atingiriam alimentos e produtos industriais; fertilizantes poderiam sofrer novas pressões; bancos centrais enfrentariam inflação importada; moedas de países vulneráveis seriam pressionadas e economias altamente endividadas do Sul Global poderiam entrar em novas crises.
Esse detalhe é fundamental para uma análise que não enxergue o conflito exclusivamente de Washington, Tel Aviv ou Londres. Uma escalada nuclear no Golfo poderia ser decidida por algumas poucas lideranças, mas suas consequências chegariam a famílias que jamais tiveram qualquer participação naquela guerra. Países pobres importadores de petróleo e alimentos seriam provavelmente os primeiros atingidos. Uma alta brutal dos fertilizantes poderia afetar safras em diferentes continentes. Estados africanos e asiáticos com pouca margem fiscal seriam obrigados a gastar mais para subsidiar energia ou alimentos. A combinação entre inflação, dívida e desorganização comercial poderia produzir instabilidade política muito distante do local da explosão.
O Brasil também não estaria protegido. Como produtor e exportador de petróleo, o país poderia inicialmente obter receitas maiores com uma alta internacional dos preços. Mas essa vantagem seria acompanhada por pressões potencialmente muito superiores sobre combustíveis, transporte, inflação, câmbio e fertilizantes, dos quais a agricultura brasileira ainda depende fortemente das importações. Uma desorganização prolongada do comércio internacional poderia beneficiar determinados exportadores ao mesmo tempo que encareceria alimentos e produtos essenciais para a população brasileira. Diplomaticamente, Brasília seria colocada diante de uma das decisões mais importantes de sua política externa desde a redemocratização: como reagir ao primeiro emprego de uma arma nuclear em combate desde 1945.
É precisamente por todas essas consequências que a pergunta correta não é simplesmente se Donald Trump “pode apertar o botão”. A questão realmente importante é entender que circunstâncias poderiam levar Washington a considerar uma opção tão extrema. E aqui aparece o elemento mais preocupante do impasse atual. Os Estados Unidos não estão militarmente indefesos diante do Irã; muito pelo contrário, conservam uma superioridade esmagadora em quase todos os indicadores convencionais. O problema é que superioridade militar não produziu automaticamente o resultado político desejado. O risco de escalada surge quando uma grande potência passa a interpretar a impossibilidade de impor integralmente seus objetivos como uma ameaça à própria credibilidade.
A história das relações internacionais mostra como essa lógica pode ser perigosa. Uma potência pode reconhecer os limites da coerção, negociar e transformar uma guerra num acordo imperfeito. Ou pode decidir aumentar sucessivamente o nível de violência na esperança de que o próximo degrau finalmente produza aquilo que os anteriores não conseguiram. Trump já alternou momentos de retórica extremamente agressiva com iniciativas de negociação e pausas operacionais. Neste momento, as conversações continuam incertas e o conflito permanece sem uma solução política consolidada. É justamente essa combinação de guerra prolongada, objetivos incompletos e pressão pela demonstração de força que merece atenção.
Por isso, a palavra mais adequada para definir a situação em 19 de agosto de 2026 não é “vitória” de nenhum dos lados, mas impasse estratégico profundamente assimétrico. O Irã sofreu muito mais destruição material e humana e teve capacidades militares importantes degradadas. Os Estados Unidos, entretanto, ainda não conseguiram transformar essa superioridade em capitulação iraniana. Teerã preservou instrumentos suficientes para continuar impondo custos, manter Ormuz como vulnerabilidade mundial e obrigar Washington a gastar recursos militares, econômicos e políticos muito superiores aos que uma comparação convencional entre os dois países poderia sugerir.
É justamente aí que reside a importância histórica da resistência iraniana. Reconhecê-la não exige romantizar a República Islâmica, ignorar suas contradições internas ou transformar perdas militares em vitórias inexistentes. Significa reconhecer uma realidade elementar da estratégia: uma potência muito inferior pode perder batalhas, sofrer destruição enorme e ainda assim impedir que seu adversário alcance o objetivo político da guerra. Se Teerã continuar capaz de fazer isso, Washington terá de escolher entre negociar uma saída que inevitavelmente reconhecerá limites ao seu poder ou elevar novamente a intensidade do conflito.
O recurso a uma arma nuclear seria, nesse sentido, uma demonstração aterradora de capacidade destrutiva, mas também carregaria uma contradição difícil de esconder. Se a maior potência militar do planeta, depois de mobilizar bombardeiros furtivos, navios, submarinos, satélites, inteligência, mísseis de precisão, bases regionais e aliados, concluísse que precisa atravessar a fronteira nuclear para conseguir aquilo que suas forças convencionais não obtiveram, a explosão poderia ser interpretada não apenas como demonstração de força, mas como confissão dos limites dessa mesma força.
Esse continua sendo um cenário remoto. É essencial repetir isso. Não existe, neste momento, evidência pública suficiente para afirmar que Washington tenha decidido utilizar uma arma nuclear contra o Irã. Transformar possibilidade estratégica em iminência seria alarmismo e prejudicaria justamente a gravidade da análise. O cenário mais provável continua sendo a combinação de pressão militar convencional, disputa sobre Ormuz, coerção econômica, ataques e tentativas intermitentes de negociação. Uma nova ofensiva convencional é muito mais plausível que uma operação nuclear.
Mas baixa probabilidade não significa consequência pequena. O problema de uma arma nuclear é exatamente o inverso: mesmo uma probabilidade relativamente baixa precisa ser levada a sério porque o impacto potencial é extraordinariamente elevado. E existe uma fronteira ainda anterior ao lançamento da bomba que merece atenção: o momento em que governos, militares e sociedades começam a aceitar a ideia de que determinadas armas nucleares são suficientemente “pequenas”, “táticas” ou “cirúrgicas” para serem utilizadas como instrumentos normais de guerra.
Essa talvez seja a ameaça mais profunda. Uma bomba de potência reduzida continua sendo uma bomba nuclear. Seu emprego quebraria um tabu de 81 anos, alteraria os cálculos de Rússia e China, ofereceria argumentos à Coreia do Norte, poderia estimular novas potências a buscar seus próprios arsenais, abalaria o regime internacional de não proliferação, colocaria o Oriente Médio diante de uma corrida nuclear e obrigaria o Sul Global a reorganizar parte de sua relação com Washington. O planeta não voltaria simplesmente à situação anterior depois da explosão.
A guerra contra o Irã chegou, portanto, a uma contradição que merece ser observada com enorme atenção. Os Estados Unidos demonstraram que possuem capacidade extraordinária para destruir instalações, equipamentos e estruturas iranianas. Ainda não demonstraram, porém, que conseguem transformar essa destruição em submissão política. O Irã demonstrou algo diferente: mesmo pagando um preço terrível, continua capaz de resistir, produzir custos e impedir que a superioridade absoluta do adversário se converta automaticamente em vitória.
A decisão histórica que se aproxima não é necessariamente nuclear. É anterior a ela. Washington terá de decidir se aceita que até mesmo uma superpotência encontra limites quando tenta reorganizar pela força uma região inteira, ou se continuará escalando para provar que esses limites não existem.
Se escolher a primeira alternativa, ainda haverá espaço para diplomacia e para uma saída que preserve vidas de ambos os lados. Se escolher a segunda, o mundo entrará progressivamente em território desconhecido.
E se, em algum momento, essa escalada atravessar a fronteira nuclear, a questão já não será quem venceu a guerra entre Estados Unidos e Irã. Será por que a humanidade permitiu que uma guerra regional derrubasse uma das últimas barreiras construídas depois de Hiroshima para impedir que a arma mais destrutiva já inventada voltasse a ser tratada como instrumento normal de política internacional.






