Por Sara Goes
No último sábado (2), durante a convenção que oficializou sua candidatura ao Governo do Ceará, Ciro Gomes, condenado neste ano por violência política de gênero contra a ex-senadora Janaína Farias, afirmou que “as mulheres do PT são absolutamente agressivas num feminismo vazio”. A declaração provocou reação imediata de lideranças petistas, entre elas Luisa Cela e Larissa Gaspar, que classificaram a fala como machista.
Depois da repercussão, Ciro afirmou que havia sido retirado de contexto. Paralelamente, sua comunicação passou a divulgar vídeos e imagens em que aparece ao lado de mulheres, incluindo sua ex-esposa, enquanto o debate era deslocado para críticas ao chamado “identitarismo” e às “violências identitárias”.
O episódio merece reflexão para além da disputa eleitoral. Não é a primeira vez que mulheres que ocupam espaços de poder são descritas como agressivas. Há muito tempo a política convive com um padrão conhecido: homens firmes costumam ser chamados de líderes. Mulheres firmes, de difíceis. Homens que enfrentam adversários demonstram coragem. Mulheres que fazem o mesmo frequentemente são acusadas de criar conflitos. A reação feminina costuma ser analisada com muito mais rigor do que o comportamento que a antecedeu.
Existe uma frase bastante difundida nos movimentos sociais que diz para não confundirmos a reação do oprimido com a violência do opressor. Independentemente de sua autoria, ela ajuda a compreender por que tantas mulheres ainda precisam justificar o próprio direito de reagir.
Mas seria um erro transformar esse episódio em uma comparação simplista com tudo o que acontece dentro do campo progressista. As situações não são iguais.
A disputa envolvendo Luizianne Lins no Ceará é uma disputa política. Ela reivindica espaço, apresenta um projeto para o Senado, mobiliza militantes e confronta decisões da direção partidária. Isso faz parte da vida democrática. Partidos existem para produzir debate, divergência e disputa de projetos. Não há violência no simples fato de uma liderança feminina reivindicar protagonismo ou disputar uma candidatura.
O que merece atenção são os critérios utilizados para julgar essas disputas. Quando uma mulher precisa insistir mais do que um homem para ser considerada legítima. Quando sua firmeza passa a ser interpretada como inconveniência. Quando sua capacidade de mobilização é tratada como ameaça à unidade. Quando outras mulheres são chamadas ao palco para demonstrar compromisso com a igualdade enquanto aquela que protagoniza o conflito permanece à margem das decisões. Nesses momentos, o machismo deixa de aparecer como ofensa explícita e passa a operar por meio de mecanismos mais discretos, muitas vezes reproduzidos até por organizações que se apresentam como defensoras da igualdade.
Reconhecer isso não enfraquece a esquerda. Faz exatamente o contrário. Significa aplicar internamente os mesmos princípios que ela reivindica para a sociedade.
Confesso, porém, que minha leitura desse episódio é um pouco diferente. Não costumo olhar para acontecimentos políticos apenas pelo dano que produzem. Procuro entender o que eles revelam.
Quando Ciro Gomes escolhe dedicar parte de seu discurso às mulheres petistas, talvez revele mais do que gostaria. Líderes políticos não costumam gastar energia combatendo aquilo que consideram irrelevante. Se as mulheres organizadas ocupam espaço suficiente para se tornarem alvo de um discurso, isso significa que exercem influência real sobre a política cearense.
Por isso, não acredito que a resposta deva ser convencer adversários de que mulheres firmes não são uma ameaça. Talvez a estratégia mais inteligente seja outra: ampliar essa capacidade de organização.
Trata-se de consolidar um respeito político que nasce da força coletiva. Mulheres organizadas mudam agendas, pressionam partidos, influenciam eleições e alteram correlações de forças. É esse tipo de receio que transforma a política e, perdoe minha agressividade, mas continue tendo medo porque estamos apenas começando






