Por Sara Goes
A postagem no Instagram do PL Mulher, toda em tons de rosa e com estética cuidadosamente feminilizada, parece anunciar um trio de produtos de beleza ou papelaria premium. Os mockups imitam agendas e publicações em brochura dispostas como itens de catálogo. Não são cosméticos, porém. São materiais de formação política produzidos pelo braço feminino do Partido Liberal. Os títulos ajudam a revelar a proposta: “Necessaire Política”, “Projeto Alicerça Brasil” e “Edificando a Nação”.
Ao lado da imagem, o texto da postagem abandona qualquer sutileza. “O Brasil está de cabeça pra baixo. Será que é porque quem está na cadeira presidencial lê livros de cabeça pra baixo?”, escreve o perfil, numa referência a conteúdos usados por bolsonaristas para ridicularizar o Presidente Lula. Em seguida, a publicação apresenta os três materiais como parte de uma “Tríade da Transformação”, oferecida gratuitamente para “transformar o Brasil”.

Outra publicação do PL Mulher reforça a dimensão estratégica dessa operação de comunicação. Em nova peça divulgada no Instagram, o grupo comemora uma reportagem da Folha de S.Paulo assinada pela jornalista Eliane Trindade sobre o crescimento do chamado Projeto Alicerça Brasil. “E o Projeto Alicerça Brasil (PAB) vai crescendo… Até a Folha já percebeu isso”, diz a postagem, novamente embalada em tons de rosa, tipografia delicada e estética publicitária voltada ao público feminino.
A celebração da matéria jornalística não aparece apenas como reconhecimento midiático. Funciona como selo de legitimidade institucional. Ao destacar que até a Folha teria “percebido” o avanço do projeto, o PL Mulher tenta converter cobertura da imprensa em validação política e social de sua estrutura de formação ideológica. O gesto revela uma mudança importante no comportamento do bolsonarismo organizado. Durante anos, setores ligados ao ex-presidente construíram sua identidade em confronto direto com grandes veículos de imprensa. Agora, quando a cobertura favorece a estratégia de expansão do movimento, ela passa a ser exibida como prova de relevância nacional.
O “Projeto Alicerça Brasil”, apresentado pelo PL Mulher como eixo central da chamada “Tríade da Transformação”, funciona como a espinha dorsal do projeto político divulgado nas redes do grupo. O material define explicitamente o objetivo de construir uma base feminina “resiliente e ideologicamente homogênea” para o ciclo eleitoral de 2026.

A estratégia de comunicação parece cuidadosamente desenhada para diluir a percepção de radicalização política dentro de uma estética de acolhimento, organização pessoal e desenvolvimento feminino. O bolsonarismo apresentado pelo PL Mulher não aparece com os códigos tradicionais da agressividade digital ou da estética patriótica saturada que marcaram parte da extrema direita brasileira desde 2018. Surge embalado em linguagem terapêutica, referências religiosas e elementos visuais próximos de conteúdos de empreendedorismo feminino, devocionais cristãos e produtos de autocuidado.
A escolha não parece acidental. Ao transformar cartilhas ideológicas em objetos visualmente semelhantes a planners, agendas e brochuras motivacionais, o PL Mulher aproxima a formação política da rotina cotidiana das mulheres que pretende alcançar. A militância deixa de ser apresentada como confronto e passa a ser consumida como experiência de pertencimento, propósito pessoal e organização emocional.
Os três materiais cumprem funções complementares dentro dessa lógica. “Edificando a Nação” mergulha numa linguagem religiosa e moralizante, reinterpretando conceitos como “propósito”, “resiliência” e “valores” a partir de uma visão conservadora cristã. Em um dos trechos citados no relatório, Michelle Bolsonaro critica aquilo que chama de “ressignificação woke” da ideia de resiliência.
Já o “Projeto Alicerça Brasil” sustenta sua narrativa na oposição entre “agenda woke” e “valores tradicionais da família”, tratando pautas progressistas como ameaça à estrutura familiar brasileira. O material afirma promover a “feminilidade” em contraposição ao feminismo, descrito como um movimento que instrumentalizaria as mulheres.
A “Necessaire Política”, por sua vez, funciona menos como livro teórico e mais como manual operacional para candidatas e lideranças alinhadas ao PL Mulher. O texto oferece orientações sobre gestão de mandato, oratória, elaboração de projetos de lei e planejamento estratégico. O material incentiva explicitamente a ocupação institucional por mulheres conservadoras, defendendo ferramentas de fiscalização política, atuação parlamentar e aproximação territorial através da chamada “vereança itinerante”.
Também chama atenção a metodologia utilizada pelo projeto. O PL Mulher aposta nas chamadas “Alicerçadas”, pequenos grupos presenciais de até 12 mulheres reunidas em residências, num modelo que mistura encontro religioso, formação política e sociabilidade doméstica. A própria descrição do método, resumida como “bolo e oração”, busca transmitir acolhimento e intimidade.
O funcionamento dessas reuniões segue lógica de multiplicação em cadeia. O material chama isso de “Matemática do Impacto”: uma mulher influencia 12, que passam a influenciar outras 144, criando uma rede orgânica de mobilização política. A dinâmica lembra modelos historicamente utilizados por movimentos religiosos neopentecostais, marketing multinível e organizações de base comunitária.
Outro aspecto relevante é a tentativa de transformar conceitos políticos em linguagem afetiva. Em vez de slogans diretamente partidários, as publicações preferem termos como “propósito”, “transformação”, “impacto” e “edificação”. O discurso político é recoberto por vocabulário emocional e religioso capaz de circular com menos resistência em ambientes familiares, grupos de igreja e redes femininas conservadoras.
O documento afirma ainda que os encontros utilizam histórias de um casal fictício chamado “Alice e César” para discutir inflação, orçamento doméstico, segurança e educação. O objetivo parece ser deslocar debates estruturais para dentro da esfera moral e familiar, convertendo experiências privadas em identidade política conservadora.
Essa reorganização do bolsonarismo feminino ocorre num momento em que pesquisas apontam mudanças importantes no comportamento político das mulheres brasileiras. Levantamento do Instituto Update e do Instituto IDEIA divulgado em 2025 mostrou que 72% das entrevistadas consideram urgente ampliar a participação feminina na política. Ao mesmo tempo, 77% apontaram segurança pública e violência como os principais problemas do país, índice que sobe para 88,5% entre mulheres de direita e centro-direita.
Os próprios materiais do PL Mulher parecem dialogar diretamente com esse universo de preocupações. Inflação, segurança, educação dos filhos e orçamento doméstico aparecem como portas de entrada para a formação ideológica promovida pelas “Alicerçadas”.
O crescimento dessa estratégia também coincide com a expansão do eleitorado evangélico no Brasil. Dados do Censo de 2022 mostram que os evangélicos passaram de 21,6% da população em 2010 para 26,9% em 2022. Nesse contexto, mulheres religiosas se tornaram peça central das disputas políticas nacionais, especialmente em segmentos ligados ao conservadorismo moral e à valorização da família tradicional.
No conjunto, os materiais divulgados pelo PL Mulher revelam um projeto de mobilização mais sofisticado do que aparenta à primeira vista. Não se trata apenas de propaganda eleitoral imediata ou engajamento de redes sociais. As publicações funcionam como ferramentas permanentes de formação discursiva, socialização política e construção de identidade coletiva voltadas ao eleitorado feminino conservador.
O bolsonarismo como comunidade emocional
O modelo de mobilização desenvolvido pelo PL Mulher se encaixa numa trajetória política e simbólica que Michelle Bolsonaro vem construindo há anos, baseada justamente na transformação de elementos íntimos, religiosos e emocionais em linguagem de disputa ideológica. As cartilhas em tons pastel, os encontros das “Alicerçadas”, o vocabulário terapêutico e a estética de acolhimento não representam ruptura com o bolsonarismo anterior. Representam uma adaptação estética e emocional mais sofisticada, capaz de circular com menos resistência em espaços cotidianos e religiosos.
Ao longo dos últimos anos, Michelle consolidou uma forma muito particular de comunicação política. Não baseada em formulações doutrinárias complexas nem em grandes discursos programáticos, mas em gestos calculadamente ambíguos, símbolos religiosos, performances de sofrimento e mensagens emocionalmente codificadas para sua base. O bolsonarismo que ela ajuda a organizar raramente se apresenta como violência explícita. Ele prefere operar pela sensação de ameaça moral permanente, pela ideia de perseguição espiritual e pela construção contínua de pertencimento afetivo.
A chamada “Tríade da Transformação” parece funcionar exatamente dentro dessa lógica. O bolsonarismo feminino organizado pelo PL Mulher não aparece como militância agressiva ou aparato partidário tradicional. Surge embalado em referências de autocuidado, espiritualidade, maternidade e propósito pessoal. O conflito político é deslocado para dentro da casa, da oração, da educação dos filhos, da rotina feminina e da moral familiar.
Essa estratégia ajuda a explicar por que os materiais do PL Mulher evitam a estética tradicional da extrema direita digital que marcou o bolsonarismo nos primeiros anos. Em vez do excesso patriótico, da retórica militarizada ou do confronto aberto, os conteúdos apostam numa aparência acolhedora, quase terapêutica. A radicalização política deixa de ser apresentada como ruptura e passa a circular como experiência de cuidado, fortalecimento emocional e reconstrução moral.
Existe também um deslocamento importante da própria imagem pública de Michelle. A antiga figura ornamental da campanha de 2018 vai sendo substituída pela personagem da cuidadora sacrificial, da mulher resiliente, da intercessora religiosa e da administradora emocional do sofrimento bolsonarista. Seu corpo, sua fé, seus silêncios e seus gestos passam a operar como instrumentos de comunicação política.
Michelle passa a funcionar menos como liderança programática e mais como intérprete emocional de uma comunidade política mobilizada por símbolos religiosos, percepções de ameaça e vínculos afetivos.
Nesse sentido, os episódios envolvendo camisetas, orações públicas, vídeos emocionais, conflitos digitais, símbolos religiosos e até objetos cotidianos não aparecem como fatos isolados. Funcionam como pequenas pedagogias emocionais para uma comunidade política treinada a interpretar sinais, reconhecer códigos internos e enxergar perseguição moral em acontecimentos banais. A força dessa comunicação está justamente na ambiguidade. Para parte do público, parecem apenas cenas domésticas ou religiosas. Para sua base, funcionam como mensagens perfeitamente inteligíveis.

O próprio funcionamento das “Alicerçadas” amplia essa lógica. Os encontros pequenos, realizados em residências, misturando oração, acolhimento e formação política, ajudam a transformar ansiedade social em identidade coletiva. O debate sobre inflação, segurança, educação ou violência deixa de aparecer como discussão estrutural e passa a ser absorvido dentro de uma narrativa moral sobre família, proteção e ameaça cultural.
Há ainda um elemento central nessa reorganização: a política deixa de ser apresentada apenas como disputa institucional e passa a ser vivida como experiência espiritual contínua. O sentimento de cerco, decadência moral do país e necessidade de resistência religiosa produz uma comunidade permanentemente mobilizada, mesmo fora dos períodos eleitorais.
É justamente aí que os materiais do PL Mulher ganham profundidade maior do que aparentam à primeira vista. As cartilhas, planners, brochuras e encontros não funcionam apenas como peças de propaganda. Operam como ferramentas de socialização política afetiva, capazes de transformar medo, ressentimento, devoção religiosa e identidade familiar em estrutura organizada de mobilização conservadora para 2026.
A política dos sinais silenciosos
Essa comunidade emocional não se organiza apenas através de cartilhas, encontros domésticos ou linguagem terapêutica. Ela também depende de uma comunicação simbólica permanente, sustentada pela própria imagem pública de Michelle Bolsonaro.
A trajetória pública de Michelle revela um padrão comunicacional baseado menos em declarações explícitas e mais em sinalizações emocionais, religiosas e simbólicas capazes de mobilizar sua base política sem necessidade de ordens diretas. Ao longo dos últimos anos, Michelle transformou gestos aparentemente simples em mensagens de forte impacto político, frequentemente funcionando como “apitos de cachorro” para sua militância digital.
Um dos primeiros episódios marcantes ocorreu em 2019, quando Michelle apareceu usando uma camiseta com a frase “não atrapalhe a minha viagem”, referência à reprimenda da juíza Gabriela Hardt ao Presidente Lula durante um depoimento da Lava Jato. A escolha da roupa parecia banal, mas funcionava como mensagem codificada para setores antipetistas e lavajatistas, convertendo uma humilhação judicial em símbolo político de pertencimento ideológico.
Com o tempo, Michelle passou a sofisticar esse modelo de comunicação. Em janeiro de 2024, ela expôs publicamente a comunicadora recifense Karina Santos após um conflito político nas redes. Michelle não convocou ataques diretamente, mas bastou a publicação para que seguidores passassem a ameaçar a jovem com mensagens misóginas, xenofóbicas e violentas.
Na mesma época, o Partido dos Trabalhadores acusou Michelle de ajudar a impulsionar ataques contra militantes petistas após a circulação de vídeos manipulados e conteúdos descontextualizados.
Em março de 2026, Michelle compartilhou um vídeo falso insinuando que jornalistas desejavam a morte de Jair Bolsonaro durante sua internação. A publicação desencadeou ameaças e perseguições contra repórteres identificados nas imagens.
O episódio da Ypê repetiu o mesmo mecanismo. Após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária suspender lotes do detergente por risco de contaminação microbiológica, Michelle publicou a imagem do produto em suas redes. A postagem foi imediatamente interpretada por apoiadores como gesto político contra a Anvisa e como validação simbólica da campanha anticientífica que tentava transformar um alerta sanitário em perseguição ideológica.
Mas talvez o maior exemplo desse padrão tenha ocorrido em 20 de dezembro de 2022, quando Michelle apareceu ajoelhada em oração no gramado do Palácio da Alvorada. A cena foi apresentada como demonstração de fé e devoção. Na prática, funcionava como mensagem política cuidadosamente construída para uma base que permanecia mobilizada nos acampamentos golpistas após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro.

Enquanto investigações posteriores apontariam a existência de minutas golpistas, discussões sobre ruptura institucional e monitoramento clandestino de autoridades, Michelle oferecia a dimensão simbólica e emocional necessária para manter a militância em estado de expectativa permanente. A oração pública convertia tensão política em missão espiritual. Sem emitir ordens explícitas, ela ajudava a alimentar a sensação de que existia uma batalha moral e divina em curso.
O episódio mais recente talvez seja também um dos mais reveladores da maneira como Michelle utiliza o próprio corpo e a própria imagem como instrumento político. Ao surgir no Tribunal Superior Eleitoral representando Jair Bolsonaro diante de Alexandre de Moraes, Michelle carregava na própria aparência um detalhe impossível de dissociar da crise recente: a tala na mão usada como justificativa para a contratação de uma cozinheira ligada ao PL.
A cena condensava múltiplos constrangimentos. Michelle precisava sustentar uma cordialidade institucional diante do principal símbolo jurídico do enfrentamento ao bolsonarismo enquanto reafirmava visualmente uma narrativa já alvo de desgaste público. Entre fotógrafos, cumprimentos e silêncio calculado, a tala deixava de ser apenas acessório médico. Transformava-se numa peça simbólica de comunicação política.
O detalhe operava como mensagem silenciosa de sacrifício pessoal e devoção ao marido investigado. Michelle convertia um elemento doméstico e corporal em linguagem política visual, reforçando a imagem de cuidadora perseguida que ela vem cultivando desde o pós-eleição de 2022.
Esse talvez seja o traço mais característico da comunicação de Michelle Bolsonaro. Seus “apitos de cachorro” raramente aparecem em discursos longos ou formulações ideológicas sofisticadas. Eles surgem em camisetas, orações, vídeos emocionais, objetos cotidianos, gestos religiosos, símbolos domésticos e performances cuidadosamente enquadradas para circulação digital. Sua força está justamente na ambiguidade: parecem episódios banais para parte do público, mas funcionam como sinais perfeitamente compreendidos por uma comunidade política treinada para interpretar cada gesto como mensagem de resistência, perseguição ou combate moral.
