Ex-ministro afirma que o segundo turno de 2026 envolve riscos para os direitos sociais e a soberania nacional e defende investimentos em tecnologia, infraestrutura e geração de empregos
O ex-ministro e ex-deputado federal Ricardo Berzoini afirmou que a disputa presidencial de 2026 envolve riscos que vão além dos resultados econômicos e podem alcançar o próprio funcionamento da democracia brasileira. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, conduzido pelo cientista político Luiz Regadas, ele defendeu a mobilização eleitoral em torno da candidatura do Presidente Lula e alertou para as consequências de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
A conversa, transmitida em 8 de outubro, abordou o cenário político após o primeiro turno, a participação da juventude nas mobilizações, as perspectivas da economia, o endividamento público, os investimentos em tecnologia e os efeitos de possíveis cortes no orçamento federal. Berzoini também comentou as propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro para mudanças constitucionais, a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e as investigações sobre descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Ao concluir a entrevista, o ex-ministro sintetizou sua preocupação com o processo eleitoral: “É normal você perder eleição numa democracia. O que é ruim é você perder a democracia numa eleição”.
Mobilização da juventude e direito ao futuro
Berzoini começou a análise do cenário eleitoral destacando a importância da participação dos jovens nas manifestações realizadas em diferentes cidades brasileiras. Para ele, a presença da juventude nas ruas pode contribuir para ampliar o envolvimento político e fortalecer a campanha de Lula no segundo turno.
O ex-ministro relacionou essa participação à experiência de sua própria trajetória política, iniciada ainda na juventude. Segundo ele, a articulação entre estudantes, trabalhadores, aposentados e pensionistas é fundamental para construir uma mobilização capaz de sustentar um projeto nacional de desenvolvimento.
Berzoini argumentou que o Brasil dispõe de instituições e empresas públicas estratégicas para planejar seu futuro, citando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Petrobras. Também mencionou a capacidade de integrar a mineração à indústria e de formar profissionais qualificados para áreas essenciais da economia.
Na avaliação do ex-ministro, a eleição define as condições para que o país escolha seus próprios caminhos. Ele associou a soberania nacional à possibilidade de as novas gerações encontrarem oportunidades de trabalho, formação profissional e desenvolvimento tecnológico.
Ao comentar relatos de violência e intimidação em ambientes universitários, Berzoini defendeu a atuação das autoridades policiais e judiciais. Sobre o incêndio mencionado durante a entrevista em uma instituição de ensino de Pernambuco, afirmou que os responsáveis precisariam ser identificados e responsabilizados, caso confirmada a natureza criminosa do episódio.
O ex-ministro comparou a exploração política do medo a episódios históricos utilizados para justificar a repressão, citando o incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, em 1933, durante a ascensão do nazismo. Para ele, eventuais atos de violência não podem determinar o ambiente da campanha eleitoral nem impedir a discussão pública de propostas.
Mercado financeiro e desempenho da economia
Com experiência de 38 anos no setor bancário, Berzoini contestou a interpretação de que oscilações positivas na bolsa de valores ou quedas na cotação do dólar após o primeiro turno representariam, por si só, uma perspectiva favorável para a população.
Ele explicou que o comportamento dos mercados financeiros pode refletir as expectativas de investidores diante de determinadas sinalizações políticas, sem necessariamente indicar benefícios para trabalhadores e consumidores. O ex-ministro chamou atenção para o chamado efeito manada, no qual agentes econômicos seguem movimentos predominantes do mercado.
Berzoini lembrou que reações semelhantes ocorreram em diferentes momentos da política brasileira, incluindo a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, e a vitória de Lula em 2022. Segundo ele, a avaliação do desempenho econômico exige observar os resultados concretos das políticas adotadas, em vez de se limitar às reações iniciais dos investidores.
Na sua análise, os governos do Presidente Lula têm capacidade de estimular investimentos por meio da articulação entre empresas privadas, capital estrangeiro e bancos públicos. Ele citou o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES como instituições importantes para financiar atividades produtivas, infraestrutura e programas habitacionais.
O ex-ministro também argumentou que o crescimento econômico precisa ser acompanhado da geração de empregos e da ampliação da renda. Para ele, a estabilidade dos indicadores financeiros só adquire relevância social quando se traduz em melhores condições de vida e em oportunidades para a população.
Dívida pública e juros elevados
Ao abordar as críticas ao endividamento brasileiro, Berzoini afirmou que a dívida pública precisa ser analisada em relação ao tamanho da economia, à capacidade de pagamento do Estado e à finalidade dos recursos utilizados. Durante a entrevista, apresentou estimativas de endividamento bruto na faixa de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e de endividamento líquido na faixa de 60%.
O ex-ministro argumentou que a existência de dívida não representa, isoladamente, um problema econômico. Segundo ele, governos e empresas podem recorrer ao crédito para financiar investimentos, desde que administrem adequadamente os compromissos assumidos.
Berzoini também destacou a posição das reservas internacionais brasileiras em relação às obrigações externas do país. Na avaliação apresentada, essa relação reduz os riscos de uma crise cambial provocada pela insuficiência de recursos em moeda estrangeira.
Para ele, um dos principais desafios econômicos é reduzir o custo do crédito. A manutenção de juros elevados dificulta o financiamento de empresas e famílias, limita investimentos e pode comprometer a expansão da atividade produtiva.
O ex-ministro defendeu que a política econômica busque condições de financiamento mais favoráveis, com atenção à inflação e à sustentabilidade das contas públicas. Ressaltou, porém, que a redução dos juros precisa ser conduzida de maneira compatível com a estabilidade econômica.
Cortes no orçamento podem afetar serviços públicos
Berzoini criticou propostas de redução generalizada dos gastos públicos e afirmou que medidas dessa natureza frequentemente atingem áreas essenciais, como educação, saúde, assistência social e infraestrutura.
Ao recordar os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, ele mencionou o teto de gastos e os cortes orçamentários que, segundo sua avaliação, limitaram a capacidade de investimento do Estado. O ex-ministro argumentou que a contenção de despesas pode produzir resultados fiscais imediatos enquanto transfere custos para a população, com redução da oferta de serviços e adiamento de investimentos necessários.
As universidades públicas foram citadas como exemplo. Berzoini lembrou a expansão do ensino superior durante os governos Lula e Dilma Rousseff e afirmou que a manutenção das instituições é importante tanto para a formação profissional quanto para a pesquisa científica.
O mesmo raciocínio foi aplicado ao SUS, aos programas de transferência de renda e à manutenção de estradas, portos e aeroportos. Na avaliação do ex-ministro, a deterioração desses serviços compromete a produtividade e restringe as possibilidades de desenvolvimento.
Ele também contestou a apresentação de resultados fiscais positivos sem considerar obrigações que deixaram de ser pagas. Ao comentar os precatórios, explicou que o adiamento de compromissos pode produzir uma aparência de equilíbrio orçamentário, mas transfere despesas para administrações futuras.
Berzoini defendeu uma análise das contas públicas que considere o conjunto das receitas, das despesas e das obrigações assumidas pelo governo. Para ele, a discussão sobre responsabilidade fiscal precisa incluir a qualidade do gasto e os efeitos econômicos e sociais das decisões orçamentárias.
Inteligência artificial e política industrial
A entrevista também dedicou espaço aos desafios tecnológicos. Berzoini afirmou que o desenvolvimento da inteligência artificial exige investimentos em pesquisa, formação de profissionais e capacidade industrial para produzir componentes essenciais ao processamento de dados.
Ele destacou que o Brasil possui empresas qualificadas em áreas relacionadas à gestão de sistemas de inteligência artificial, mas avaliou que o país precisa avançar na produção de softwares, chips e tecnologias de maior valor agregado.
O ex-ministro citou a atuação do BNDES, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação como parte dos instrumentos públicos que podem apoiar essa estratégia.
Para Berzoini, a cooperação internacional é necessária, inclusive com empresas dos Estados Unidos, da China e da Coreia do Sul. O ponto central, segundo ele, é estabelecer relações que permitam a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de capacidades produtivas no Brasil.
O ex-ministro também chamou atenção para as reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos, utilizados na fabricação de equipamentos eletrônicos e componentes industriais. Na sua avaliação, esses recursos oferecem ao país uma oportunidade de negociar parcerias que não se limitem à exportação de matérias-primas.
A proposta defendida por Berzoini é ampliar a integração entre mineração, indústria, pesquisa e inovação. Dessa forma, o Brasil poderia participar de etapas mais sofisticadas das cadeias produtivas internacionais, reduzindo sua dependência de produtos de maior conteúdo tecnológico importados.
Mudanças constitucionais e papel do Supremo
Outro tema discutido foi a possibilidade de alterações constitucionais defendidas ou mencionadas por Flávio Bolsonaro. Berzoini demonstrou preocupação com propostas relacionadas à duração dos mandatos, à reeleição e ao funcionamento das instituições.
O ex-ministro distinguiu a possibilidade legítima de promover mudanças constitucionais dos limites impostos pela própria Constituição. Ele lembrou que as cláusulas pétreas protegem fundamentos do Estado brasileiro e que alterações nas regras institucionais precisam respeitar os procedimentos e as garantias constitucionais.
Berzoini afirmou que mudanças destinadas a atingir mandatos em curso poderiam representar uma ruptura com a ordem jurídica. Na sua avaliação, propostas dessa natureza precisam ser examinadas com atenção, especialmente quando aparecem acompanhadas de ataques às instituições responsáveis por fiscalizar o exercício do poder.
O Supremo Tribunal Federal também foi abordado no programa. Berzoini afirmou que eventuais irregularidades cometidas por integrantes da Corte devem ser investigadas e apuradas, mas criticou a generalização de acusações contra toda a instituição.
“Quem está exercendo função em qualquer um dos três poderes deve prestar contas o tempo todo da sociedade”, declarou.
Para o ex-ministro, a responsabilização individual de autoridades é compatível com a preservação das instituições democráticas. Ele defendeu que investigações e processos sigam os procedimentos legais, sem campanhas de intimidação ou tentativas de deslegitimar integralmente o Judiciário.
A discussão também alcançou a natureza política dos processos de impeachment. Berzoini sustentou que decisões dessa magnitude dependem das relações de força no Congresso Nacional, o que reforça a importância da composição parlamentar para o funcionamento do sistema político.
Política industrial, emprego e propostas para um novo mandato de Lula
Ao ser questionado sobre as prioridades econômicas de um eventual novo mandato do Presidente Lula, Berzoini apontou a ampliação dos investimentos em infraestrutura e o fortalecimento da indústria nacional.
Segundo ele, o Brasil reúne condições para expandir sua produção industrial, ampliar a pesquisa e aproveitar oportunidades em setores como a indústria automotiva, a energia e a tecnologia da informação. O ex-ministro mencionou investimentos em novas linhas de produção de veículos elétricos e o potencial de desenvolvimento associado à exploração de recursos energéticos.
Berzoini defendeu que a economia avance para além da exportação de commodities. Embora tenha reconhecido a importância da agricultura e da produção de matérias-primas para as contas externas, argumentou que o país precisa ampliar a produção de bens e serviços com maior conteúdo tecnológico.
Para isso, apontou a necessidade de fortalecer os bancos públicos e as instituições de financiamento à pesquisa, promovendo a integração entre empresas brasileiras e parceiros internacionais. O objetivo, segundo sua avaliação, deve ser gerar empregos mais qualificados e aumentar a participação nacional nas cadeias produtivas.
A infraestrutura também apareceu como condição para sustentar o crescimento. Investimentos em transportes, energia e logística podem reduzir custos de produção e ampliar a competitividade das empresas brasileiras.
Na entrevista, o ex-ministro relacionou essas prioridades à capacidade de o Estado coordenar políticas de desenvolvimento, sem abrir mão da participação privada. Para ele, o desafio consiste em aproveitar o mercado interno e os recursos nacionais para construir uma economia mais diversificada.
Segurança pública e combate ao financiamento do crime
A segurança pública foi abordada a partir da necessidade de integração entre as instituições federais e estaduais. Berzoini lembrou que a Constituição atribui aos estados responsabilidades importantes na área, incluindo a atuação das polícias militares e civis, mas destacou o papel da União no combate a organizações criminosas e na fiscalização das fronteiras.
O ex-ministro mencionou uma proposta de emenda constitucional voltada à integração de informações e ações entre a Polícia Federal e as forças de segurança estaduais. Na sua avaliação, a cooperação é indispensável diante da atuação de organizações criminosas que ultrapassam fronteiras estaduais e nacionais.
Berzoini também defendeu o combate à lavagem de dinheiro e a apreensão de bens obtidos por meio de atividades ilícitas. Para ele, atingir os mecanismos financeiros que sustentam as organizações criminosas é fundamental para reduzir sua capacidade de atuação.
Ao comentar operações contra suspeitas de lavagem de dinheiro, ressaltou a importância de investigar não apenas os executores diretos dos crimes, mas também os agentes econômicos que possam facilitar a movimentação de recursos ilícitos.
A abordagem apresentada na entrevista enfatizou que o enfrentamento ao crime organizado depende da capacidade de rastrear recursos, responsabilizar envolvidos e promover a cooperação entre diferentes órgãos públicos.
Impostos, renda e distribuição da carga tributária
Berzoini também contestou a ideia de que o debate tributário deva se concentrar exclusivamente no aumento ou na redução de impostos. Para ele, é necessário considerar quem paga os tributos e como a arrecadação é distribuída entre as diferentes faixas de renda.
O ex-ministro destacou a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, mencionada na entrevista como uma medida de redução da carga tributária para parte dos trabalhadores. Também citou a tributação de dividendos de valores elevados e as mudanças previstas na reforma tributária sobre o consumo.
Na avaliação de Berzoini, a estrutura tributária brasileira mantém desigualdades que precisam ser enfrentadas. Ele defendeu uma participação maior dos contribuintes de alta renda no financiamento do Estado, argumentando que a tributação sobre o consumo pesa proporcionalmente mais sobre as famílias de menor renda.
O ex-ministro também afirmou que a reforma tributária poderá beneficiar consumidores de baixa renda por meio da redução de tributos sobre itens essenciais e de mecanismos de devolução de impostos para famílias inscritas no Cadastro Único.
A discussão foi relacionada à atuação do Congresso Nacional, que tem papel decisivo na aprovação de mudanças tributárias e orçamentárias. Berzoini sustentou que a capacidade de implementar políticas de distribuição de renda depende tanto das iniciativas do Executivo quanto da disposição do Legislativo para aprová-las.
Descontos indevidos no INSS e responsabilização dos envolvidos
No encerramento da entrevista, Berzoini comentou as investigações sobre descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O ex-ministro atribuiu a origem do problema a autorizações concedidas durante o governo Bolsonaro para descontos em folha de pagamento destinados a entidades que, segundo ele, não apresentavam trajetória consolidada no atendimento aos beneficiários.
Berzoini afirmou que as investigações conduzidas pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, com participação de órgãos da Previdência, permitiram identificar irregularidades e desarticular parte do esquema. Ele também mencionou os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou o caso.
Segundo o ex-ministro, as apurações precisavam avançar para esclarecer as responsabilidades individuais e institucionais. Ele sustentou que o caso envolveu prejuízos a aposentados e pensionistas e defendeu que os responsáveis sejam identificados a partir das provas reunidas pelas autoridades.
As declarações de Berzoini expressam sua avaliação política sobre a origem do esquema e a atuação dos governos envolvidos. A atribuição de responsabilidades criminais específicas depende da conclusão das investigações e das decisões das autoridades competentes.
“O que é ruim é você perder a democracia numa eleição”
Ao concluir a conversa, Ricardo Berzoini afirmou que o segundo turno exige uma disputa política baseada na apresentação de propostas e no esclarecimento dos eleitores. Ele reconheceu que o cenário eleitoral é marcado por dificuldades e pela circulação de informações falsas, mas defendeu a continuidade do trabalho de convencimento.
Para o ex-ministro, a escolha eleitoral terá consequências sobre o emprego, a renda e as políticas públicas, mas o risco mais importante está relacionado à preservação das instituições democráticas.
Berzoini também defendeu que a composição do Congresso Nacional seja considerada parte central do processo. Segundo ele, a aprovação de medidas como a redução da jornada de trabalho e a ampliação de benefícios tributários depende de uma maioria parlamentar disposta a apoiar essas iniciativas.
A entrevista terminou com um chamado à participação política e à busca por informações verificáveis sobre os programas e as declarações dos candidatos. A mensagem central do ex-ministro foi a de que a disputa eleitoral precisa ser compreendida em suas dimensões econômica e institucional, com atenção às consequências das escolhas feitas nas urnas.
Assista à entrevista completa:
Programa Café com Democracia
De segunda a sexta-feira, das 7h30 às 8h, na Rádio e TV Atitude Popular.
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