“O que seria importante é ter a própria mídia”, afirma Silvia Moretzsohn

No quadro “A notícia que você não vê”, do Democracia no Ar, a jornalista e pesquisadora critica a ausência de cobertura de manifestações estudantis, analisa os interesses econômicos da imprensa e discute a influência das plataformas digitais na circulação de informações políticas

A ausência de cobertura de manifestações estudantis por grandes veículos de comunicação e a concentração do poder de distribuição de informações nas mãos de empresas privadas foram alguns dos temas discutidos no quadro especial “A notícia que você não vê”, do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. A edição reuniu a professora Sandra Helena e a jornalista e pesquisadora Silvia Moretzsohn, com apresentação de Sara Goes, para analisar os critérios de seleção das notícias, os interesses que influenciam a cobertura jornalística e os efeitos dessas escolhas sobre o debate público.

Durante a conversa, Moretzsohn questionou a falta de destaque dado às mobilizações de estudantes em diferentes cidades brasileiras, mesmo diante da dimensão dos atos relatados no programa. A jornalista também recuperou episódios da história da imprensa brasileira para discutir a relação entre os grandes grupos de comunicação e os interesses econômicos, além de apontar os desafios impostos pelos algoritmos das plataformas digitais à circulação de informações produzidas por veículos independentes e comunicadores populares.

Manifestações estudantis fora do noticiário

Um dos principais assuntos da edição foi a ausência de cobertura, nos grandes veículos de comunicação, das manifestações estudantis realizadas em diferentes cidades. Sandra Helena chamou a atenção para a discrepância entre a dimensão dos atos e o espaço que eles receberam nos noticiários, questionando os critérios utilizados pelas empresas jornalísticas para definir o que merece destaque.

Silvia Moretzsohn afirmou que também se surpreendeu com a falta de referências às mobilizações. Segundo ela, a dimensão dos protestos justificaria uma cobertura jornalística capaz de explicar como os atos foram organizados, quais grupos participaram e que reivindicações motivaram a mobilização.

“Uma coisa daquele tamanho, né? Uma coisa que foi comparada com os caras-pintadas da época do Collor, não saiu rigorosamente nada”, observou a jornalista, ao comentar a ausência de destaque nos principais jornais consultados por ela.

Moretzsohn argumentou que a relevância jornalística de uma manifestação não deveria depender da posição política dos participantes. Mesmo quando um ato contraria os interesses de determinados grupos econômicos ou políticos, sua dimensão e seus efeitos sobre a vida pública justificam a cobertura.

“Você não pode esconder. Fosse outra manifestação, fosse uma manifestação a favor do Bolsonaro, teria que ser noticiada porque é notícia de qualquer modo”, afirmou.

A crítica se concentra no papel da imprensa como mediadora dos acontecimentos públicos. Ao selecionar quais fatos recebem destaque e quais permanecem em segundo plano, os veículos de comunicação influenciam a percepção que parte da sociedade constrói sobre a dimensão de determinadas mobilizações.

A ausência de imagens e informações sobre protestos também pode dificultar o conhecimento de iniciativas que ocorrem fora dos circuitos habituais de visibilidade. Nesse contexto, a discussão proposta pelo programa abordou a diferença entre a existência de um acontecimento e sua presença efetiva no debate público.

Critérios editoriais e interesses econômicos

Ao analisar a cobertura política, Moretzsohn relacionou as escolhas editoriais dos grandes grupos de comunicação aos interesses econômicos que orientam suas atividades. Para ela, a repetição de determinados enquadramentos ao longo das décadas revela problemas que não podem ser explicados apenas por decisões isoladas de jornalistas ou editores.

“Todos eles falam mais ou menos a mesma língua. Todos eles falam a língua do mercado”, afirmou.

A pesquisadora observou que os grandes veículos frequentemente apresentam sua atuação como expressão de imparcialidade e defesa do interesse público, mas nem sempre submetem suas próprias práticas ao mesmo escrutínio que dirigem a outros atores sociais.

A discussão também abordou a construção de equivalências entre episódios políticos que possuem características distintas. Durante a entrevista, Moretzsohn criticou a cobertura que, segundo sua análise, colocou em posições equivalentes as suspeitas relacionadas a familiares do Presidente Lula e as questões envolvendo Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência no contexto eleitoral discutido pelo programa.

A jornalista ressaltou que a cobertura deve considerar o papel de cada personagem no processo político e distinguir fatos comprovados, suspeitas e interpretações. A simples apresentação de assuntos diferentes com o mesmo peso pode produzir uma impressão de equivalência que não corresponde necessariamente à natureza das informações disponíveis.

A crítica apresentada no programa também se estendeu à atuação dos veículos que se identificam como verificadores de informações falsas. Moretzsohn defendeu que o trabalho de checagem precisa incluir uma avaliação das práticas da própria imprensa tradicional.

Para ela, a desinformação não pode ser tratada como um problema exclusivo das redes sociais ou de fontes externas ao jornalismo profissional. A história da imprensa também contém episódios de divulgação de informações equivocadas ou de construção de narrativas que exigem revisão crítica.

A eleição de 1982 e a cobertura sobre Leonel Brizola

Para ilustrar sua análise sobre a relação entre imprensa e disputa política, Silvia Moretzsohn recuperou a cobertura das eleições para o governo do Rio de Janeiro em 1982, quando Leonel Brizola disputou o cargo com Moreira Franco.

A jornalista relatou que acompanhou os acontecimentos daquele período e recordou a atuação do jornal O Globo na divulgação dos resultados eleitorais. Segundo sua análise, a decisão de priorizar determinados resultados oficiais, em vez de apresentar informações paralelas reunidas por equipes de reportagem, contribuiu para criar uma percepção sobre o andamento da disputa que não correspondia ao cenário observado em outros levantamentos.

Moretzsohn também destacou a importância de veículos como o Jornal do Brasil e emissoras de rádio que divulgavam resultados obtidos por outras equipes. Na avaliação dela, a existência de fontes distintas de informação permitiu questionar a narrativa predominante e ampliar a compreensão do processo eleitoral.

O episódio foi apresentado como exemplo de como as decisões editoriais podem interferir na interpretação dos acontecimentos políticos. A seleção de dados, a ordem de divulgação e a forma de apresentar os resultados têm consequências sobre a percepção pública, sobretudo em períodos eleitorais.

A jornalista afirmou que os problemas identificados naquele período não desapareceram simplesmente com a modernização tecnológica dos meios de comunicação. Para ela, a concentração empresarial e a proximidade entre os interesses econômicos dos grupos de mídia continuam sendo questões relevantes para a análise do jornalismo brasileiro.

A necessidade de fortalecer veículos independentes

Ao discutir os limites da crítica à imprensa tradicional, Moretzsohn defendeu que a construção de alternativas de comunicação precisa ocupar um lugar central no debate.

“O que seria importante é ter a própria mídia”, afirmou.

A declaração sintetiza uma das principais conclusões de sua participação. Embora considere necessário continuar analisando as decisões editoriais dos grandes veículos, a jornalista argumentou que a crítica, por si só, não modifica as condições de concentração do sistema de comunicação.

A existência de veículos independentes, rádios comunitárias e iniciativas de comunicação popular amplia a diversidade de fontes e perspectivas disponíveis à sociedade. Esses meios podem dar visibilidade a acontecimentos que recebem pouco espaço em outros canais e desenvolver coberturas voltadas a públicos e temas específicos.

O fortalecimento dessas iniciativas, entretanto, depende de recursos, infraestrutura, distribuição e capacidade de alcançar audiências para além de seus públicos habituais. A discussão do programa apontou que a autonomia editorial precisa ser acompanhada de condições materiais para a produção e a circulação de informações.

A experiência da Atitude Popular, que reúne rádio, televisão, portal e retransmissoras comunitárias, integra esse contexto de busca por alternativas de comunicação. A proposta do quadro “A notícia que você não vê” é examinar acontecimentos e abordagens que, na avaliação de suas participantes, recebem tratamento insuficiente no noticiário predominante.

Algoritmos e concentração do poder digital

A conversa também avançou sobre os desafios impostos pelas plataformas digitais à circulação de informações. Moretzsohn mencionou o caso de vídeos publicados pelo economista e comunicador Eduardo Moreira, do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), que teriam alcançado rapidamente centenas de milhares de visualizações antes de apresentar uma interrupção abrupta na distribuição.

Segundo o relato feito pela jornalista, um dos conteúdos tratava das consequências de uma possível negociação direta entre patrões e empregados. Moreira teria questionado por que o alcance da publicação deixou de crescer depois de um início expressivo.

Moretzsohn utilizou o episódio para ilustrar a dificuldade de compreender os critérios que determinam a distribuição dos conteúdos nas redes sociais. Sem acesso às informações sobre o funcionamento dos sistemas de recomendação, produtores e veículos não conseguem identificar com segurança por que determinadas publicações alcançam públicos maiores enquanto outras perdem visibilidade.

“Alguma coisa aconteceu com o algoritmo que tava distribuindo esse material. É uma coisa que a gente não controla simplesmente”, afirmou, ao recuperar o relato.

A jornalista ressaltou que a circulação de informações políticas depende cada vez mais de empresas privadas que controlam as plataformas e seus mecanismos de distribuição. Essa dependência limita a capacidade de veículos independentes e comunicadores populares de determinar como seus conteúdos chegam ao público.

O problema ganha relevância durante períodos eleitorais, quando informações sobre propostas, declarações e mobilizações circulam em grande volume. A distribuição desigual de conteúdos pode dificultar o acesso a diferentes perspectivas e restringir a visibilidade de determinadas pautas.

A discussão também envolveu a necessidade de ampliar os investimentos em canais próprios de comunicação. A existência de plataformas e veículos independentes permitiria reduzir parte da dependência de empresas privadas, embora sua sustentabilidade exija planejamento e recursos permanentes.

Tecnologia e disputa política para além das redes

Moretzsohn mencionou ainda informações sobre a atuação de empresas de tecnologia em processos de organização política. Durante a entrevista, citou reportagens relacionadas à Palantir, empresa norte-americana de análise de dados, e a encontros envolvendo representantes de plataformas digitais e integrantes do Partido Liberal (PL).

Esses relatos foram utilizados para discutir como empresas de tecnologia podem participar de iniciativas que ultrapassam a oferta de serviços digitais, envolvendo também o uso de dados, ferramentas de comunicação e estratégias de mobilização.

A jornalista defendeu que o debate sobre comunicação política considere a atuação desses grupos e a influência que exercem sobre o ambiente informacional. A questão, segundo a análise apresentada, não se limita ao conteúdo publicado pelos usuários, mas envolve também a infraestrutura técnica que permite organizar, selecionar e distribuir informações.

A discussão reforçou a importância de compreender quem controla as ferramentas utilizadas por partidos, campanhas, veículos jornalísticos e organizações sociais. A concentração desses recursos em poucas empresas cria uma relação de dependência que precisa ser examinada tanto no debate sobre comunicação quanto nas discussões sobre democracia.

O papel dos estudantes e a circulação de imagens

A ausência de cobertura das manifestações estudantis voltou à discussão quando Sandra Helena destacou a importância de compartilhar imagens dos atos pelas redes sociais e por aplicativos de mensagens.

A professora argumentou que a circulação dessas imagens pode ampliar o conhecimento sobre as mobilizações e oferecer ao público referências visuais que não aparecem nos noticiários tradicionais. A divulgação direta por participantes e organizações permite registrar acontecimentos e dar visibilidade às reivindicações.

Ao mesmo tempo, a discussão evidenciou que o compartilhamento de informações exige atenção à origem dos materiais e à verificação de seu contexto. Imagens e vídeos podem ajudar a documentar acontecimentos, mas sua interpretação depende de informações sobre local, data e circunstâncias.

O debate também abordou a necessidade de dialogar com pessoas que não acompanham regularmente as discussões políticas. Sandra Helena relatou sua opção por conversar com pessoas de seu círculo de convivência, em vez de concentrar os esforços exclusivamente em publicações dirigidas a públicos que já compartilham as mesmas opiniões.

A proposta consiste em apresentar informações, ouvir dúvidas e estimular a comparação entre propostas políticas. Esse tipo de conversa pode complementar a circulação de conteúdos nas redes, desde que respeite a autonomia dos interlocutores e ofereça informações verificáveis.

O desafio de enfrentar a desinformação

A entrevista destacou que a desinformação não se limita à publicação deliberada de informações falsas. A seleção de temas, a repetição de determinados enquadramentos e a ausência de cobertura de acontecimentos relevantes também podem influenciar a compreensão pública da realidade.

Moretzsohn defendeu que o jornalismo examine criticamente suas próprias práticas, inclusive quando os veículos se apresentam como referências na checagem de informações. Para a pesquisadora, a credibilidade depende da disposição para reconhecer erros e tornar transparentes os critérios utilizados na produção das notícias.

O debate também chamou a atenção para as condições em que as pessoas recebem informações. A circulação intensa de conteúdos, a repetição de mensagens e a falta de tempo para examinar cada publicação podem dificultar a avaliação crítica do que chega aos usuários.

Nesse cenário, a comunicação independente pode contribuir para ampliar a diversidade de fontes, contextualizar acontecimentos e oferecer informações que ajudem o público a avaliar diferentes interpretações. Esse trabalho, porém, precisa ser acompanhado de critérios rigorosos de apuração e de transparência sobre as informações divulgadas.

A discussão do Democracia no Ar relacionou esses desafios à necessidade de fortalecer iniciativas de comunicação popular e de ampliar a participação social no debate sobre o funcionamento da imprensa e das plataformas digitais.

Comunicação e democracia

A participação de Silvia Moretzsohn no quadro “A notícia que você não vê” colocou em discussão os critérios que definem a visibilidade dos acontecimentos e as condições em que as informações circulam. A análise percorreu episódios históricos da imprensa brasileira, a cobertura das manifestações estudantis e os desafios impostos pelas plataformas digitais.

A jornalista defendeu a continuidade da crítica de mídia, mas ressaltou a necessidade de fortalecer alternativas capazes de ampliar a diversidade informativa. A existência de veículos independentes e comunitários, segundo os argumentos apresentados, é parte importante da discussão sobre o direito à comunicação.

O programa Democracia no Ar integra a programação da Atitude Popular e propõe um espaço de debate sobre política, comunicação e participação cidadã. A edição especial reuniu duas convidadas com experiência acadêmica e jornalística para examinar o que ganha destaque no noticiário e quais acontecimentos podem permanecer fora do campo de visão de parte da sociedade.

A íntegra da conversa está disponível no canal da Atitude Popular no YouTube.

Assista ao programa completo:

Programa Democracia no Ar

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Produção Atitude Popular. Apresentação de Sara Goes.