Em sua 32ª edição, Grito dos Excluídos e Excluídas leva ao Jangurussu a defesa da moradia, da soberania e da vida das mulheres
O 32º Grito dos Excluídos e Excluídas de Fortaleza será realizado no dia 7 de setembro, a partir das 8 horas, no Grande Jangurussu. A concentração ocorrerá na Praça Almirante Tamandaré, com caminhada até o Estádio do Jangurussu, onde moradores e representantes de movimentos sociais poderão apresentar as reivindicações do território.
As informações foram apresentadas por Célio Oliveira, coordenador nacional do Grito dos Excluídos e Excluídas e integrante do movimento Igreja em Saída, e por Lúcia Angelo, coordenadora da Pastoral Operária do Ceará, durante entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular. A edição foi apresentada por Luiz Regadas.
Realizado no Brasil desde 1995, o Grito ocorre tradicionalmente em 7 de setembro como contraponto às celebrações oficiais da Independência. A mobilização reúne pastorais, organizações comunitárias, entidades sindicais e movimentos que atuam na defesa dos direitos sociais.
O tema permanente é “Vida em primeiro lugar”. Em 2026, o lema escolhido foi “Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania”. Segundo Célio, as palavras expressam os principais assuntos discutidos pelos grupos organizadores desde abril.
“O Grito dos Excluídos ocorre sempre no dia 7 de setembro porque, na realidade, é um contraponto ao 7 de setembro oficial”, explicou.
A escolha do Jangurussu para sediar a mobilização busca aproximar o ato das comunidades que enfrentam problemas de moradia, falta de infraestrutura, violência e impactos provocados pela expansão imobiliária. A programação deverá reservar espaço para que os próprios moradores descrevam as dificuldades encontradas na região.
Justiça social como condição para a paz
Ao avaliar a trajetória da mobilização, Célio afirmou que a luta por justiça social e direitos humanos permanece como a principal marca do Grito dos Excluídos e Excluídas.
“A paz é fruto da justiça. Se não existe justiça social plenamente para todos, a paz não acontece”, afirmou.
Para o coordenador, o direito à terra está relacionado às disputas pelo território, ao acesso à água, à moradia e à permanência das comunidades em seus locais de origem. Ele citou a especulação imobiliária, a retirada de comunidades indígenas de seus territórios e a instalação de grandes empreendimentos como fatores que podem expulsar famílias e modificar a vida de bairros inteiros.
O acesso à moradia também foi apresentado como uma condição indispensável para o exercício de outros direitos. Célio ressaltou que a casa permite a organização da vida familiar e oferece proteção diante de situações de violência.
“A moradia é um direito fundamental. Ela é a porta de entrada para todos os direitos. É nela que a família reconstrói suas energias, cultiva relações e celebra a vida”, declarou.
O coordenador alertou ainda que a população em situação de rua não é formada apenas por pessoas com problemas relacionados ao consumo de drogas. Há trabalhadores que permanecem nas ruas por não conseguirem pagar uma moradia ou por terem sido expulsos de suas casas pela violência.
Segundo os números mencionados por Célio durante a entrevista, aproximadamente 11 mil pessoas estariam vivendo nas ruas no Ceará e em Fortaleza. Ele observou que o total considera somente os casos registrados.
Feminicídio e desigualdade atingem comunidades
Lúcia Angelo destacou que a defesa da vida das mulheres e a luta contra o feminicídio ocupam posição central na edição deste ano. As pautas também incluem a violência sofrida pela população LGBTQIA+ e os efeitos da desigualdade sobre crianças e adolescentes.
“Os temas do Grito são muito fortes na luta pelos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras. Neste ano, temos a questão do feminicídio e a questão da terra”, afirmou.
Para a coordenadora da Pastoral Operária, a desigualdade é agravada pela ausência ou insuficiência de políticas públicas de educação, saúde e assistência social. As consequências são mais graves nos bairros com menor renda e acesso precário aos serviços públicos.
“As comunidades mais vulneráveis são as mais atingidas por essa desigualdade. Ela atinge profundamente a vida das mulheres e também a vida de crianças e adolescentes”, explicou.
Lúcia afirmou que a continuidade do Grito durante 32 anos representa uma conquista dos movimentos sociais. A mobilização de 7 de setembro é a parte mais visível de um trabalho realizado durante todo o ano pelas entidades participantes.
“Uma das conquistas é essa insistência de estarmos há 32 anos nas ruas. O Grito não acontece somente no dia 7 de setembro. Esse dia é a culminância, mas temos um ano inteiro de lutas por direitos”, declarou.
A expectativa dos organizadores é reunir entre 2 mil e 3 mil pessoas em Fortaleza. Para Lúcia, a presença desse público nas ruas amplia a visibilidade das reivindicações e mostra a capacidade de resistência de movimentos e pastorais sociais.
Açude do Jangurussu expõe conflito urbano
Um dos casos que serão denunciados durante a mobilização envolve o Açude do Jangurussu. Construído em 1922 para auxiliar no enfrentamento das secas, o reservatório passou a funcionar como área de lazer, pesca e convivência para moradores de comunidades como Almirante Tamandaré, São Cristóvão e João Paulo II.
Lúcia relatou que a construção de um condomínio alterou o percurso das águas da chuva que seguiam em direção ao Rio Cocó. Segundo ela, o aterramento realizado na área obstruiu canais naturais de escoamento e provocou a formação de grandes bolsões de água entre a parede do açude e as residências.
“Uma grande construtora começou a fazer um condomínio e isso teve impacto direto no percurso das águas do açude”, denunciou.
As inundações atingiram principalmente imóveis da Rua Paraisópolis. Há residências com rachaduras, terrenos alagados e famílias que perderam móveis e eletrodomésticos. Uma moradora precisou deixar a própria casa devido a problemas de saúde, conforme o relato.
A água acumulada também destruiu parte da Rua Recanto Verde e dificultou a circulação de moradores. Com a interrupção das chuvas, a poeira produzida pela obra passou a causar novos transtornos. Lúcia mencionou ainda a proliferação de mosquitos e o aparecimento de cobras dentro de residências.
“São famílias com suas casas alagadas, ruas onde não se consegue passar e pessoas sofrendo com a poeira e as águas empoçadas. É um impacto ambiental muito grande na nossa área”, afirmou.
A coordenadora questionou a concessão de licença para a obra em uma região que, segundo ela, possui proteção ambiental. Também criticou a ausência de estudos e de diálogo prévio com os moradores do entorno.
“As construtoras chegam e não se preocupam com os moradores mais antigos, que têm suas casas ali. Não houve conversa com essas famílias”, disse.
A Rede do Grande Jangurussu, conhecida como Reaja, acompanha o caso e presta apoio às famílias afetadas. De acordo com Lúcia, representantes das comunidades já procuraram diferentes secretarias da Prefeitura de Fortaleza, mas a construção prossegue.
Mobilização quer tornar as reivindicações conhecidas
Célio Oliveira afirmou que o Grito também desempenha um trabalho de conscientização. Muitas pessoas desconhecem as mobilizações realizadas nos bairros e as dificuldades enfrentadas por famílias ameaçadas de despejo, comunidades indígenas, mulheres vítimas de violência e trabalhadores sem acesso a condições dignas de moradia.
“O Grito é sensibilização. Muitas vezes, as pessoas em Fortaleza não sabem das lutas existentes para conquistar direitos que estão garantidos, mas não são implementados”, declarou.
O ato reúne organizações com diferentes áreas de atuação para apresentar os problemas em conjunto. A caminhada funciona como um espaço público de denúncia, mas também de formulação de propostas e cobrança aos governos.
Célio também relacionou a defesa da soberania nacional à proteção da democracia. Para ele, eleições regulares não afastam por si mesmas o risco de projetos autoritários, o que exige atenção permanente da sociedade às propostas apresentadas pelos candidatos.
Lúcia reforçou essa relação ao lembrar que as decisões eleitorais afetam de maneira mais direta as comunidades com menor acesso a renda e serviços públicos.
“O voto não tem preço, ele tem consequência. Ele tem consequência diretamente na vida, principalmente na vida dos mais vulneráveis e das comunidades mais pobres”, afirmou.
Ao convidar a população para o ato, a coordenadora ressaltou que a mobilização defenderá a vida das mulheres, a paz em Fortaleza, o direito à moradia e a soberania brasileira.
“Convido todas as pessoas e todos os movimentos a dar esse grito pela vida, pela vida das mulheres, pela paz em Fortaleza, pelo direito à moradia e pela defesa da nossa soberania”, concluiu.
O 32º Grito dos Excluídos e Excluídas de Fortaleza começa às 8 horas do dia 7 de setembro, na Praça Almirante Tamandaré, no Jangurussu, entre o Conjunto Palmeiras e a comunidade São Cristóvão. A programação também será divulgada nas redes sociais do Grito dos Excluídos de Fortaleza.
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