Em entrevista ao Café com Democracia, Rafael Silva defende que a fé cristã exige compromisso com a justiça social e afirma que Jesus estaria ao lado dos pobres e das causas populares
Da Redação
O professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) Rafael Silva afirmou que Jesus Cristo participaria ativamente do processo político e eleitoral se estivesse presente na sociedade atual. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na TV Atitude Popular, em um debate sobre a relação entre cristianismo, política e eleições.
Ao longo da conversa, Rafael sustentou que a atuação pública de Jesus não pode ser dissociada das questões sociais e políticas de seu tempo. Segundo ele, uma leitura atenta dos Evangelhos mostra um personagem comprometido com a transformação da realidade, a defesa dos pobres e o enfrentamento das estruturas de opressão.
“Se a gente fosse atualizar para os dias de hoje, Jesus participaria do processo eleitoral, com todos os mecanismos disponíveis da nossa época.”
Jesus histórico e Cristo da fé
O professor explicou que a tradição cristã trabalha com duas dimensões de Jesus: a humana e a divina. Para ele, quando se discute sua participação na vida pública, é necessário observar a atuação do Jesus histórico.
Segundo Rafael, é justamente nessa condição humana que Jesus se envolve com os conflitos da sociedade, dialoga com diferentes grupos e enfrenta os poderes políticos e religiosos de sua época.
Partilha como princípio
Durante a entrevista, Rafael contestou a ideia de que o chamado “milagre da multiplicação dos pães” deva ser compreendido apenas como um fenômeno sobrenatural.
Ele recordou interpretações de estudiosos bíblicos que entendem o episódio como um gesto coletivo de partilha entre as pessoas presentes.
“Os milagres aconteceram não pela multiplicação, mas porque as pessoas dividiram o que tinham.”
O professor também citou o livro de Atos dos Apóstolos para afirmar que as primeiras comunidades cristãs tinham como característica principal a vida em comum.
“Entre eles não havia quem passasse fome, porque partilhavam tudo em comum.”
Segundo Rafael, embora o conceito moderno de comunismo ainda não existisse naquele período, a lógica da partilha estava no centro da experiência das primeiras comunidades cristãs.
Fé e política caminham juntas
Outro tema central da entrevista foi a relação entre religião e política.
Para Rafael Silva, a frase “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” costuma ser utilizada de forma equivocada para defender uma separação absoluta entre fé e participação política.
Na avaliação do professor, a mensagem de Jesus aponta justamente para uma fé que se manifesta na ação concreta em favor da justiça.
“Fé e política são duas categorias que andam sempre muito abraçadas.”
Ele ressaltou, entretanto, que a fé não deve ser utilizada para sustentar projetos pessoais de poder nem servir de instrumento para práticas de opressão.
Crítica ao uso político da religião
Durante a conversa, Rafael criticou lideranças religiosas que utilizam a fé como instrumento de construção de poder.
Ao comentar o apoio de setores religiosos ao bolsonarismo, afirmou que determinadas posições representam uma ruptura com os ensinamentos do Evangelho.
“Para apoiar determinados projetos de morte, é preciso negar o Evangelho.”
Questionado sobre como Jesus reagiria diante de líderes religiosos que acumulam patrimônio e influência política, como o bispo Edir Macedo, Rafael respondeu que a orientação seria a mesma presente nos Evangelhos.
“Vai, vende tudo, dá aos pobres e depois me segue.”
Jesus não seria candidato
Apesar de defender que Jesus participaria da política, Rafael afirmou que ele provavelmente não disputaria eleições.
Segundo o professor, sua atuação aconteceria por meio dos movimentos populares e da defesa permanente das causas sociais.
Entre os temas que, em sua avaliação, mobilizariam Jesus atualmente estão o combate à fome, à violência, ao feminicídio, ao racismo, à destruição ambiental, à população em situação de rua e aos direitos da população LGBTQIAPN+.
“Jesus não ficaria calado diante da tortura nos presídios, do desmatamento, do feminicídio ou da população em situação de rua.”
O Congresso e as eleições
Ao comentar o cenário político brasileiro, Rafael fez críticas ao funcionamento do Congresso Nacional e defendeu que os cristãos reflitam sobre o impacto social do voto.
Segundo ele, o eleitor deveria perguntar se os candidatos apoiam causas voltadas à dignidade da população.
“É preciso saber em quem você está votando e se perguntar: Jesus votaria em pautas que colaboram com o povo?”
Nas considerações finais, o professor afirmou que a fé cristã exige compromisso com a realidade concreta e concluiu com um alerta.
“Onde você escutar ‘Deus, pátria e família’, corra. Jesus não está ali.”
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