Da Redação
No Rio de Janeiro, uma das operações policiais mais violentas da história do estado deixou dezenas de mortos em duas favelas — moradores às margens do sistema, famílias pobres, denunciam uma lógica de “estado de extermínio”. O governo estadual, liderado por Claudio Castro, de perfil claramente à direita, assume discurso punitivo que críticos descrevem como fascista e genocida.
1. O cenário da violência
Na manhã do dia 28 de outubro de 2025, as favelas do Complexo do Alemão e da Complexo da Penha, na zona norte do Rio, foram palco de uma operação coordenada que mobilizou cerca de 2.500 agentes das polícias civil, militar e forças de choque estaduais. A ação foi focada no combate à facção Comando Vermelho, considerada uma das principais organizações criminosas do país. Segundo o governo, foram cumpridos centenas de mandados.
Mas o balanço oficial informado até agora — cerca de 60 suspeitos mortos + 4 policiais mortos — já configura o que muitos observam como chacina policial: número de mortos impressionante, áreas pobres impactadas, restrição ao direito de defesa e enorme impacto comunitário. Cadena SER+1
2. O perfil dos atingidos e o impacto sobre os pobres
As favelas atacadas são territórios historicamente vulneráveis: zonas de alta densidade populacional, pobreza, ausência de infraestrutura adequada, forte presença de jovens e piaçaba de transportes informais. Nelas, moradores relatam avanços surpresa, helicópteros, blindados, tiros que se prolongam, casas invadidas, famílias desalojadas.
Nesse tipo de operação, os que mais sofrem são os moradores comuns: mães sozinhas tentando proteger os filhos, ambulantes que precisam atravessar barricadas, idosos que mal conseguem sair de casa.
Testemunhas relatam que — apesar de parte dos mortos serem suspeitos — muitos perderam a vida em confrontos cujo início e regras não foram plenamente esclarecidos. Organizações de direitos humanos alertam que falta apreensão real dos corpos de prova, delimitação de mandados ou aviso prévio à comunidade. A sensação local é de que se trata mais de “despejo” armado do que de operação de segurança pública.
3. O discurso do governo estadual
O governador Claudio Castro, ex-aliado da extrema direita que ascendeu após o período Bolsonaro, inaugurou um discurso de segurança truculenta: uso de termos como “narcoterrorismo”, “guerra aos bandidos” e “zona de conflito”. Em vídeos oficiais, afirmou que a operação é “sem volta” e que o estado não vai recuar.
Esse tipo de retórica reforça a lógica de inimigo interno — grupos das favelas, pobres, negros, moradores da periferia — tratados como alvos, não como cidadãos. Como consequência, as operações se tornam massivas, menos seletivas, mais letais.
Para muitos analistas, o governo do RJ vive uma política de segurança que se aproxima do fascismo de segurança: militarização, narrativa de exceção, justificativa de violação de direitos em nome da ordem.
4. Por que atacar assim — e por que agora
Este tipo de mega-operação tem várias motivações convergentes:
- Mostrar eficácia política: em véspera de eventos internacionais ou para renovar imagem do governo estadual, mostrar poder público forte.
- Aproveitar lacuna institucional: com foco midiático no crime organizado, as normas de contenção e investigação properas ficam em segundo plano.
- Incentivar a narrativa de “segurança a todo custo”, deslocando o debate sobre pobreza, desigualdade e infraestrutura para o eixo da repressão.
- Gerar efeito dissuasivo: elevar o custo territorial para facções, impondo alto risco para residir ou atuar em determinadas favelas.
Mas, conforme alertam organizações, o risco real é que uma estratégia pensada contra o crime se torne contra a comunidade — uma escalada permanente de confronto que normaliza mortes e destruições.
5. A quebra de vínculo social e de confiança
Quando o Estado, supostamente protetor, passa a operar em forma de guerra contra parte da população, o vínculo social se rompe. Moradores relatam: “eles vinham de fuzil, helicóptero, invadiram casa, perguntaram pelos moradores, atiraram, saíram”. Em consequência, resta medo, silêncio, desconfiança, trauma coletivo.
As familiares dos mortos ficam sem informações claras, poucas perícias independentes, restrição ao acesso à justiça e à verdade. Crianças, ao ver os helicópteros e os corpos, internalizam que o Estado pode atacar sem explicação — criando um ciclo de violência intergeracional.
Além disso, a militarização da segurança pública tira recursos de políticas sociais, saúde, educação — reforçando a desigualdade que favorece o crime, o policiamento repressivo e a fragmentação da cidade.
6. A necessidade de responsabilização e mudança de paradigma
Se o governo do Rio e seu governador não mudarem a lógica, o que se ampliará é o direito de exceção contínuo. É necessário que:
- Todas as mortes em operações policiais sejam investigadas com transparência, perícia externa, responsabilização real.
- A política de segurança passe de “militarização e confronto” para “prevenção, redução de danos e transformação de território”.
- As comunidades pobres deixem de ser vistas como campo de batalha e passem a receber investimento estrutural, inclusive em cultura, emprego, urbanização.
- A narrativa do Estado deixe de ser “nós contra eles” e volte a ser “nós pela comunidade”.
Sem isso, a chacina se torna rotina: as favelas viram zonas de exceção, corpos deixam de ser noticiados e a democracia perde um pilar central: a proteção da vida.
Conclusão
Se elevar para 134 o número de mortos numa operação policial — cifra hoje não confirmada em fontes públicas — isso significa algo além de falha operacional: significa política deliberada de letalidade.
O governo do Rio de Janeiro, com seu discurso de extrema-direita, com o controle forte das forças de segurança, com a militarização constante — assume risco de institucionalizar o massacre sob a lógica de “guerra interna”.
Mas uma democracia não se constrói sobre corpos de pobres invisibilizados.
Não se trata apenas de prender traficantes: trata-se de proteger cidadãos, de garantir direito à vida, à mínima dignidade.
A violência estatal não pode ser normalizada.
É hora de exigir, com urgência, que as favelas sejam tratadas como parte da cidade — e não como território inimigo.



