Atitude Popular

Os maus modos de Lula

Por Sara Goes

Acompanhado por Lula, a partir do Palácio do Planalto, quatro empreendimentos do programa Minha Casa Minha Vida foram entregues simultaneamente em três estados, nesta terça-feira (24). O número é expressivo e se torna um ativo de campanha, mas não dá conta do que de fato aconteceu ali, porque o que marcou aquela entrega não foi a política em si, nem a escala, mas o modo como a vida apareceu sem qualquer mediação, sem o cuidado de se ajustar a uma expectativa externa, sem a tentativa de tornar a experiência mais aceitável para quem assiste de longe. Lula riu alto, se emocionou, falou como fala, e as mulheres que recebiam as casas choraram, agradeceram, falaram de Deus, de Léo Santana, dos filhos, da vida, sem qualquer esforço de modulação, produzindo uma cena que, para quem observa de fora, pode parecer excessiva, mas que, para quem vive, é apenas proporcional.

Rita de Cássia Leite dos Santos esperou nove anos por uma casa e, ao receber a chave, comparou o momento ao nascimento do filho, não como recurso de linguagem, mas como forma concreta de medir o que estava acontecendo dentro de uma vida em que quase nada chega com esse peso; Laura dos Santos Benjamim chorou com a chave na mão depois de anos sustentando a casa com uma renda que se mede em peixes vendidos por valores irrisórios; Sheila da Paz de Jesus ainda pagava aluguel no dia da entrega e falou rindo, com um certo descompasso entre alívio e incredulidade; Tásia Cerqueira Decleciano cria três filhos enquanto estuda e tenta interromper uma continuidade que não começou com ela; Dais Coutinho Cunha esperou quarenta e cinco anos e carrega o fato de que a mãe morreu sem alcançar o que ela alcançou agora; Sara Queiroline Araújo, a única casada, passou uma década pagando aluguel com dinheiro que vinha fragmentado entre benefício social e trabalho informal, sem qualquer estabilidade.

Essas trajetórias são expressão de uma estrutura, porque o Brasil tem 7,8 milhões de mulheres criando filhos sozinhas, em um cenário em que há cerca de seis vezes mais mães solo do que pais solo e em que um em cada seis lares se organiza dessa forma, o que revela não um fenômeno periférico, mas um padrão que se distribui de maneira ainda mais visível no Nordeste, onde a ausência de amortecimento social expõe aquilo que, em outras regiões, muitas vezes se dilui.

Quando essas mulheres recebem uma casa, não estão apenas acessando um bem, mas alterando a relação entre instabilidade e permanência, e isso não ocorre por acaso, já que o programa prioriza mulheres chefes de família, registra o imóvel no nome delas, garante que, em caso de separação durante o financiamento subsidiado, a titularidade seja automaticamente transferida para a mulher, exceto quando o homem detém a guarda exclusiva dos filhos, e dispensa a necessidade de assinatura do cônjuge, estabelecendo um grau de autonomia que não depende de negociação doméstica, mas de regra.

O que se vê é uma reorganização mínima de condições de vida que, ao se materializar, produz uma reação que não cabe nos códigos de comportamento esperados por quem observa de fora, e é exatamente aí que começa o desconforto, porque a classe média progressista aceita a pauta, mas não suporta a cena, aceita a maternidade solo como conceito, mas reage quando essa vida aparece sem distância e sem drama, como ocorreu naquela entrega, em que a alegria não foi organizada para parecer aceitável. Lula passa a ser visto como vulgar, enquanto as mulheres são percebidas como alegres demais, e a cena, como um todo, é rebaixada à comparação com culto ou programa de auditório.

Esse limite fica ainda mais evidente no contraste recente, em que a mesma classe média que reagiu corretamente ao ver Lula e o PT associados, de forma criminosa, ao power point exibido na GloboNews, passa a exigir contenção e cautela a cada entrega de programa social, como se o problema deixasse de ser a distorção e passasse a ser a intensidade da presença, revelando que Lula pode ser defendido quando é atacado, desde que permaneça dentro de um padrão que não desorganize quem observa.

Aquelas mulheres não são santas nem mártires; elas sofrem, se viram, riem, namoram, se emperiquitam, criam filhos sozinhas, tentando não formar feminicidas e, quando dá, compram bregueço na Shopee, como a própria Sara contou, porque a vida não cabe em narrativa edificante, e quem esperava uma procissão de Virgens Marias brasileiras encontrou outra coisa: gente de carne e osso reagindo ao próprio alívio, sem preocupação em parecer aceitável, sem a subserviência de quem nunca foi tocado por uma política pública do PT e, justamente por isso, consciente da função do Estado e disposta a exigir.

É a mesma expectativa que transforma o maior líder mundial, o nordestino migrante em personagem fixo, sempre grato, sempre emotivo, sempre disposto a aceitar qualquer comparação humilhante entre a sua infância e uma cela, sempre enquadrado como alguém que deve falar com uma espécie de sabedoria lenta e resignada, mas nunca como alguém que pode agir com pragmatismo, negociar, se misturar, fazer política como qualquer outro, inclusive quando isso exige cálculo duro e envolve decidir sobre a vida de brasileiros em cenários de conflito internacional.

Lula nunca será suficientemente correto para esse olhar que exige pureza; nunca teria um sorriso ao lado de Donald Trump perdoado como foi o de Gustavo Petro e, se conduzisse algo como as “Mañaneras del Pueblo” provavelmente seria reduzido a caricatura de programa popular, algo na linha de Ana Maria Braga, porque o julgamento não está no gesto, mas em quem o faz.

Esse mesmo mecanismo operou durante anos com Leonel Brizola, que, quando vivo, era apresentado como um parâmetro inalcançável, sempre mais digno, sempre mais coerente, sempre mais firme do que qualquer outro e que, depois de morto, foi transformado em mito estável, intocado, imune às contradições que todo político real necessariamente carrega, funcionando menos como referência concreta e mais como régua simbólica usada para cobrar dos vivos uma pureza que nunca existiu nem mesmo no passado.

Há uma tranquilidade que só existe para quem nunca teve a casa alagada, nunca sentiu a barriga doer de fome, nunca precisou negociar a própria dignidade no limite. É uma espécie de paz que permite exigir contenção, equilíbrio e elegância de quem vive em outra camada de realidade, como se emoção fosse escolha estética e não resposta a uma vida que, muitas vezes, não dá alternativa. É a tranquilidade de quem nunca precisou atravessar a contradição imposta pelo capitalismo: ensinar o filho a respeitar mulheres enquanto engole a truculência masculina no trabalho para conseguir criá-lo.

Quem já levou tapas da vida não aprende a se comportar melhor, aprende a reagir como pode, e isso vale tanto para as mulheres que choram ao receber uma casa quanto para quem teve a vida atravessada pela violência de homens quase sempre criados unicamente por mulheres, porque há experiências que não produzem sobriedade, produzem fratura, e quem atravessa isso não se sente obrigado a conter tristeza tampouco alegria para caber na expectativa de ninguém.

É desse desencontro que nascem os chamados maus modos de Lula, que não são falha, mas incompatibilidade, porque o que está em jogo não é comportamento, mas a recusa em transformar a vida em peça aceitável para consumo, e é justamente essa recusa que expõe o limite de tolerância de quem só aceita a realidade quando ela vem organizada o suficiente para não incomodar.

Em 2026, não haverá espaço para bons modos da militância, porque o que está em jogo não comporta delicadeza, e quem ainda acha que dá para vencer pedindo licença simplesmente não entendeu o tamanho do conflito, que não se resolve com educação de mesa, mas com presença, enfrentamento e disposição para sustentar o que vier. A classe média progressista não quer apenas entender a realidade; quer organizá-la de modo a não se sentir atingida por ela, quer domesticar o que é vivo, enquadrar o que escapa, dar forma aceitável ao que, por natureza, desorganiza.

E é nesse ponto que a arrogância vira erro político, porque a expressão usada com frequência para humilhar, “pobre de direita”, pode muito facilmente se converter em ativo bolsonarista, com mais materialidade e, convenhamos, com razão, na medida em que transforma experiência concreta em caricatura e substitui análise por desprezo. Quem insiste nisso não percebe que está empurrando gente real para o campo oposto enquanto acredita estar fazendo crítica.

Há também uma expectativa silenciosa de que políticas públicas devam produzir não apenas alívio material, mas alinhamento político, como se a casa entregue precisasse vir acompanhada de consciência organizada ou até partidarizada, como se o direito tivesse de gerar, imediatamente, uma identidade. Quando isso não acontece, a frustração aparece disfarçada de crítica, porque o erro não está na política, mas na expectativa de que o pobre funcione como extensão pedagógica da militância.

Na pesquisa Atlas/Bloomberg realizada entre 18 e 23 de março de 2026 as mulheres aparecem como a base mais fiel e resiliente do governo, com maior aprovação de Lula (53,9% aprovam, contra 36,4% entre homens), enquanto a desaprovação se concentra mais entre os homens (63,1%) ; o recorte por renda reforça esse desenho, indicando que a base social do governo permanece feminina e popular, com menor rejeição entre os mais pobres (até R$ 2 mil: 45,5% aprovam e 44,5% desaprovam) e maior resistência nas faixas mais altas (acima de R$ 10 mil: cerca de 55% desaprovam e 41% aprovam). Mas pretos, gays, pobres e nordestinos não vivem fora das contradições do país, não são personagens coerentes de manual, não estão imunes às mesmas tensões que atravessam qualquer outro grupo, inclusive os brancos de classe média do Sudeste que se imaginam mais esclarecidos. A diferença é que, para uns, a contradição é lida como falha moral; para outros, como complexidade inevitável.

A realidade não pede licença, não se comporta e não se adapta ao gosto de quem observa, e talvez esteja na hora de parar de esperar que ela venha limpa, traduzida e bem-educada, porque ela não vem, nunca veio e não virá.

Bem-vindos à realidade.

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