Pesquisador Reynaldo Aragon afirma que a disputa pelas terras raras definirá o futuro da soberania brasileira e alerta para a pressão de interesses estrangeiros sobre recursos estratégicos do país
O Brasil está sentado sobre uma das maiores riquezas estratégicas do século XXI. Com a segunda maior reserva conhecida de terras raras do planeta e vastas reservas de minerais considerados críticos para a indústria de alta tecnologia, o país tornou-se peça central de uma disputa global que envolve inteligência artificial, transição energética, indústria bélica, soberania nacional e desenvolvimento econômico.
O tema foi debatido no programa Vozes pela Democracia, apresentado por Sousa Júnior, que recebeu o jornalista, pesquisador e doutor em Comunicação Reynaldo Aragon para uma análise sobre os desafios e oportunidades relacionados à exploração desses recursos. A entrevista teve como ponto de partida a participação de Aragon em um seminário internacional promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração, realizado em Brasília, que reuniu representantes de grandes empresas do setor mineral e autoridades ligadas ao tema.
Ao relatar suas impressões do evento, Aragon afirmou que o debate sobre os minerais estratégicos está muito além das questões ambientais ou da atividade mineradora propriamente dita.
“Os minerais críticos são o petróleo é nosso 2.0.”
A comparação remete à histórica campanha “O Petróleo é Nosso”, que mobilizou amplos setores da sociedade brasileira nas décadas de 1940 e 1950 e culminou na criação da Petrobras. Para o pesquisador, o país enfrenta hoje um desafio semelhante, mas em uma escala ainda maior.
A riqueza que move o século XXI
Terras raras e minerais críticos são componentes indispensáveis para a fabricação de baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos, semicondutores, equipamentos de telecomunicações, sistemas de inteligência artificial e armamentos de última geração.
Segundo Aragon, quem controlar essas cadeias produtivas controlará uma parte significativa da economia mundial nas próximas décadas.
“Os minerais críticos são para este século o que o petróleo foi para o século passado.”
Ele destacou que a China consolidou uma posição privilegiada ao longo dos últimos anos, concentrando reservas, processamento industrial e capacidade tecnológica. Os Estados Unidos, por sua vez, passaram a tratar o acesso a esses recursos como prioridade estratégica.
Nesse contexto, o Brasil tornou-se alvo de crescente interesse internacional.
Dois projetos em disputa
Durante a entrevista, Aragon afirmou que o debate em torno do Projeto de Lei 2780, que trata da mineração estratégica no Brasil, revela a existência de dois projetos distintos para o país.
De um lado, estão grandes grupos econômicos interessados em ampliar a exploração mineral com redução de impostos, incentivos públicos e menor intervenção regulatória.
De outro, estão os setores que defendem uma política nacional capaz de transformar os recursos minerais em desenvolvimento tecnológico e industrial.
“O debate não é mineração versus meio ambiente. É uma disputa entre dois modelos de desenvolvimento.”
Segundo ele, o primeiro modelo transforma o Brasil em exportador de matéria-prima bruta. O segundo busca utilizar esses recursos para fortalecer universidades, empresas nacionais, centros de pesquisa e cadeias produtivas de alto valor agregado.
Exportar minério ou produzir tecnologia
Aragon criticou a lógica histórica que transformou o Brasil em fornecedor de commodities para economias centrais.
Na sua avaliação, repetir esse modelo com os minerais críticos significaria abrir mão de uma oportunidade histórica de desenvolvimento.
“O que defendemos é conteúdo local, inovação tecnológica, investimento em universidades públicas e agregação de valor nacional.”
Ele ressaltou que já existem empresas brasileiras desenvolvendo tecnologias ligadas ao nióbio, ao lítio e a outros minerais estratégicos. Há também laboratórios, centros de pesquisa e startups capazes de participar de uma política industrial mais robusta.
“Nós temos capacidade gigantesca de produzir tecnologia de ponta.”
Para o pesquisador, o principal desafio consiste em construir um ambiente regulatório e financeiro que fortaleça essas iniciativas.
O papel do Estado
Ao longo da entrevista, Aragon argumentou que o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional dependerá da atuação coordenada do Estado brasileiro.
Isso inclui financiamento público, compras governamentais, estímulo à pesquisa científica e fortalecimento da indústria nacional.
Segundo ele, deixar a exploração desses recursos exclusivamente sob a lógica do mercado significaria reproduzir uma dinâmica histórica de dependência econômica.
“O país precisa decidir quem ficará com a maior parte da riqueza produzida por recursos que pertencem ao povo brasileiro.”
Congresso e soberania
Outro ponto abordado foi a correlação de forças existente no Congresso Nacional.
Aragon avalia que os interesses ligados ao setor mineral possuem forte capacidade de influência política e econômica, o que torna o debate legislativo ainda mais relevante.
“O Brasil precisa de uma outra correlação de forças para garantir que esses recursos sirvam ao desenvolvimento nacional.”
Para ele, não basta confiar exclusivamente na atuação do Executivo. A sociedade civil, movimentos sociais, universidades e organizações populares precisam participar ativamente da discussão.
Segundo o pesquisador, a importância dos minerais estratégicos ainda é pouco compreendida pela população, o que dificulta a construção de uma mobilização semelhante à que ocorreu em torno do petróleo no século passado.
A disputa geopolítica
Aragon também chamou atenção para o cenário internacional marcado pela crescente rivalidade entre Estados Unidos e China.
Na sua avaliação, a disputa contemporânea não ocorre apenas por territórios, mas pelo controle de cadeias produtivas, rotas comerciais e recursos estratégicos.
“Quem controla os fluxos comerciais controla a economia.”
Por essa razão, ele considera que o Brasil ocupará posição cada vez mais relevante nas disputas geopolíticas do século XXI.
O pesquisador alertou ainda que a defesa da soberania nacional exigirá capacidade política, industrial, tecnológica e diplomática para resistir às pressões externas.
Um debate que precisa chegar à sociedade
Ao final da entrevista, Reynaldo Aragon defendeu que a discussão sobre terras raras e minerais críticos deixe os ambientes técnicos e empresariais para alcançar a população em geral.
Segundo ele, o país precisa compreender que essa não é apenas uma pauta econômica, mas uma questão relacionada ao futuro da ciência, da indústria, da educação, da geração de empregos qualificados e da própria soberania nacional.
“O Brasil precisa começar agora um grande debate público sobre os minerais críticos. Caso contrário, podemos perder uma oportunidade histórica.”
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