Atitude Popular

“Os trabalhadores disseram: declaro o meu tempo de volta”

No Bancos da Democracia, Érika Kokay, Admirson Medeiros e Cláudio Nascimento debatem o fim da escala 6×1, a redução da jornada e o tempo livre como condição para uma sociedade do bem viver

Na semana do 1º de Maio, data marcada pela memória histórica das lutas da classe trabalhadora, o programa Bancos da Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, colocou no centro do debate uma pauta que vem ganhando força no país: o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução salarial.

A discussão foi realizada nesta segunda-feira, 27 de abril, com apresentação de Sara Goes e participação da deputada federal Érika Kokay (PT-DF), de Admirson Medeiros, o Greg, secretário de Economia Solidária da CUT, e de Cláudio Nascimento, educador popular da equipe nacional do Programa Paul Singer, vinculado à Senaes/MTE. O debate partiu da proposta enviada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Congresso, que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso remunerado e proíbe redução salarial. A proposta foi encaminhada com urgência constitucional, conforme informou o governo federal. ([Serviços e Informações do Brasil][1])

O tema também dialoga com a tramitação de propostas no Congresso sobre a redução da jornada e o fim da escala 6×1. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a admissibilidade da PEC sobre o tema, etapa que permite a instalação de uma comissão especial para analisar o mérito da proposta. ([Agência Brasil][2])

Para Érika Kokay, a luta pelo fim da escala 6×1 é uma disputa sobre o direito à vida. A deputada afirmou que os argumentos usados contra a redução da jornada repetem discursos antigos das elites brasileiras, usados em outros momentos históricos para tentar impedir avanços trabalhistas.

Meu tempo não pode ficar numa bandeja entregue para o lucro dos patrões”, afirmou Érika. Segundo ela, a resistência patronal à redução da jornada repete o mesmo tipo de chantagem feita contra direitos como a redução das 48 horas semanais na Constituinte, a PEC das Domésticas e outras conquistas sociais.

A deputada lembrou que a jornada 6×1 pesa ainda mais sobre as mulheres. “Para as mulheres nem seis por um é, porque a jornada das mulheres trabalhadoras é 7 por zero”, disse, ao relacionar o trabalho remunerado à sobrecarga doméstica. Para Érika, o dia de repouso muitas vezes vira o dia da faxina pesada, da organização da casa e da reprodução invisível da vida.

Admirson Medeiros, o Greg, defendeu que a pauta deve ser compreendida para além da simples redução de horas. Para ele, trata-se de discutir a qualidade da vida, o direito ao lazer, à cultura, ao estudo, à família e à participação comunitária.

“A gente vai continuar vivendo para trabalhar ou vai trabalhar para viver?”, questionou. Greg destacou que a redução da jornada é uma pauta histórica do movimento sindical, mas que ganha novo fôlego diante da precarização provocada pela reforma trabalhista, pelo trabalho por aplicativos, pelo home office sem limites e por novas formas de exploração mediadas por algoritmos.

Ele também relacionou o tema à economia solidária. Para Greg, experiências de autogestão, cooperação e solidariedade apontam caminhos concretos para reorganizar a vida econômica a partir das necessidades humanas. “A economia não deve continuar organizando nossa vida. A nossa vida é que tem que reorganizar a nossa economia”, afirmou.

Como exemplo, citou a experiência da Justa Trama, rede de economia solidária que articula produção de algodão, beneficiamento, costura e comercialização em diferentes estados brasileiros. Segundo ele, o valor central dessa experiência não está apenas na renda, mas na solidariedade concreta entre trabalhadoras, como no caso de costureiras que assumiram coletivamente a produção de uma companheira que precisou acompanhar o filho no hospital.

Cláudio Nascimento aprofundou a dimensão histórica e utópica do debate. Ele lembrou que a redução do tempo de trabalho está presente desde as primeiras lutas operárias internacionais. A reivindicação das oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de lazer, segundo ele, já expressava a busca por uma vida que não fosse consumida integralmente pelo trabalho.

Para Cláudio, o fim da escala 6×1 deve ser entendido dentro de uma “dialética da emancipação social”. Ele afirmou que a redução da jornada abre caminho para a autogestão, para a participação cidadã, para a organização territorial e para uma sociedade baseada no bem viver.

O reino da liberdade começa com a redução do tempo do trabalho”, afirmou, retomando a tradição marxista. Segundo ele, a luta pelo tempo livre não é uma pauta menor, mas uma condição para que trabalhadores possam estudar, criar, participar da política, viver a cultura, cultivar afetos e construir projetos coletivos.

Cláudio também destacou que experiências de economia solidária já demonstram, na prática, formas diferentes de organizar o trabalho. Em cooperativas autogestionárias, segundo ele, os trabalhadores podem decidir coletivamente sobre horários, assembleias, produção e necessidades da vida cotidiana, rompendo com a lógica do patrão como controlador absoluto do tempo.

O debate também passou pela relação entre trabalho, subjetividade e sofrimento psíquico. Érika Kokay afirmou que a escala 6×1 e a captura do tempo produzem solidão, medo e culpa. Para ela, a lógica meritocrática esconde os “tetos de vidro” que impedem milhões de pessoas de acessar uma vida digna e depois responsabiliza as vítimas pela própria exploração.

“O trabalho não pode ser o local onde a gente se perde. Ele tem que ser o local onde a gente se encontra”, afirmou a deputada. Ela defendeu que o fim da escala 6×1 representa também o direito à cidade, à liberdade e ao amor. “A jornada 6×1 também é o direito de amar”, disse.

Ao longo do programa, os convidados convergiram na ideia de que o momento político abre uma janela rara para recolocar no debate público temas que pareciam interditados: tempo livre, bem viver, autogestão, economia solidária, direito ao ócio, saúde mental e felicidade como dimensões legítimas da vida da classe trabalhadora.

A proximidade do 1º de Maio deu ao debate um sentido ainda mais simbólico. A data, nascida da luta internacional dos trabalhadores, foi tratada como oportunidade para ampliar a mobilização social em torno de uma pauta concreta: trabalhar menos, ganhar o mesmo, descansar mais e viver melhor.

Soberania, tempo livre e disputa eleitoral

O debate também se conecta a uma iniciativa mais ampla da própria Atitude Popular. A organização está propondo aos movimentos sociais e entidades populares uma campanha nacional em defesa da soberania nacional e de um Congresso Amigo do Povo.

A campanha parte da compreensão de que pautas como o fim da escala 6×1, a redução da jornada, a economia solidária, o direito ao tempo livre e a defesa do trabalho digno não podem ser tratadas como temas isolados. Elas fazem parte de uma mesma disputa sobre o projeto de país, sobre quem decide os rumos da economia e sobre que tipo de representação popular deve ocupar o Congresso Nacional.

Um manifesto de lançamento da campanha está sendo redigido por um grupo de intelectuais do Ceará, que vem discutindo formas de influir no processo eleitoral deste ano a partir de uma plataforma popular, democrática e soberana. Nesse sentido, o fim da escala 6×1 dialoga diretamente com a proposta, ao recolocar no centro da política o direito da classe trabalhadora à vida, ao descanso, à participação social e à construção de outro modelo de desenvolvimento.

Apoiadores, movimentos e entidades que quiserem conhecer melhor a campanha e assinar o manifesto podem acessar o site: https://campanhabrasilsoberano.com.br/

Referências

Mário Pedrosa — textos sobre o Museu das Origens
Darcy Ribeiro — O povo brasileiro
Leitura combinada: Pedrosa e Darcy Ribeiro (arte, cultura e povos originários como projeto de sociedade)
Charles Fourier, “Por um novo mundo amoroso”
Série Ruptura (Severance, Apple TV+, 2022), criada por Dan Erickson e dirigida por Ben Stiller

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