Historiador resgata origens do antigo Coqueirinho, destaca a força cultural da Parquelândia e relembra personagens que marcaram a identidade do bairro
Da Redação
O programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, iniciou uma série especial em homenagem aos 300 anos de Fortaleza com um mergulho na história da Parquelândia, um dos bairros mais tradicionais da capital cearense. A entrevista, conduzida por Luiz Regadas, recebeu o historiador Evaldo Lima, que revisitou memórias afetivas, personagens populares e símbolos culturais da região.
Ao longo da conversa, Evaldo destacou que compreender a história dos bairros também é um exercício de cidadania e pertencimento.
“Parquelândia é muito mais do que um bairro, é a memória viva de Fortaleza”, afirmou.
Segundo o historiador, a região nasceu originalmente sob o nome de Coqueirinho, em uma Fortaleza ainda pequena, nos anos 1940, quando a cidade tinha pouco mais de 240 mil habitantes. O território começou a ser ocupado a partir da venda de lotes realizada pela família Bezerra de Menezes, em uma área cercada por coqueiros e espaços arborizados.
“O velho Coqueirinho nunca desapareceu. Ele permanece como raiz afetiva na memória dos moradores mais antigos”, explicou.
Evaldo contou que a palavra “Parquelândia” remete à ideia de “terra do parque”, inspirada em um modelo urbanístico valorizado nos anos 1950, marcado por ruas organizadas, praças e áreas residenciais planejadas.
O crescimento do bairro ganhou força nas décadas de 1950, 1960 e 1970, quando Fortaleza começou a se expandir para além do centro histórico. Nesse período, a Parquelândia consolidou-se como uma região de classe média e classe média alta, com forte presença universitária, cultural e intelectual.
“A Parquelândia tornou-se um bairro da cultura e da educação”, resumiu.
Entre os símbolos mais marcantes do bairro está a Igreja Redonda, oficialmente chamada Igreja de Santo Afonso. Para o historiador, o templo representa um dos principais marcos afetivos e visuais da região.
“A igreja redonda não é apenas uma igreja. É um abraço”, definiu.
Evaldo lembrou que a construção da igreja ocorreu durante a gestão do prefeito Murilo Borges, último prefeito eleito antes da ditadura militar. Com arquitetura circular e forte presença comunitária, o espaço tornou-se ponto de encontro e referência simbólica para gerações de moradores.
A entrevista também percorreu personagens históricos e culturais ligados à Parquelândia. Entre eles, o cantor Belchior, que morou no bairro e chegou a dar aulas no Colégio Júlia Jorge; o irreverente Falcão; o cronista Airton Monte; o músico Tarcísio Sardinha; o maestro Gleydson Carvalho; além de figuras populares que se tornaram parte da memória afetiva da região.
“O bairro possui uma tradição cultural fortíssima, talvez pela proximidade das universidades e pelos espaços de convivência”, comentou.
O professor também recordou a importância da antiga feirinha da Parquelândia, realizada nas noites de sexta-feira na praça da Igreja Redonda. O espaço reunia juventude, música, comidas típicas e encontros comunitários.
“Ninguém concorria com a feirinha da Parquelândia”, brincou.
Outro destaque da conversa foi a relação do bairro com o futebol cearense. Evaldo relembrou a trajetória do lendário zagueiro Artur, conhecido como Arturzão, revelado nos campos da região e considerado por muitos um dos maiores defensores da história do futebol do Ceará.
O historiador ainda destacou espaços históricos do bairro, como o Colégio Júlia Jorge, inaugurado em 1968 com presença do então presidente Castelo Branco, além do Hospital São José, referência nacional em infectologia.
Já entre os bares tradicionais, o destaque ficou para o Besouro Verde, frequentado por artistas, intelectuais e moradores da região há mais de seis décadas.
“A história de um bairro não é feita apenas de prédios e ruas. Ela é construída pelas pessoas”, afirmou Evaldo.
Na reta final da entrevista, o historiador lamentou o apagamento progressivo das memórias urbanas e criticou uma visão de cidade baseada apenas na lógica mercantil.
“Fortaleza não pode ser prisioneira desse eterno agora, dessa imitação de Miami e desse desprezo pela memória”, declarou.
A série especial sobre os bairros de Fortaleza seguirá ao longo do ano no programa Café com Democracia. Ao fim da transmissão, Luiz Regadas convidou o público a sugerir os próximos bairros que serão abordados nas futuras edições.
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