Petro propõe governo de transição na Venezuela para garantir eleições livres

Da Redação

O presidente da Colômbia Gustavo Petro voltou a defender a criação de um governo de transição compartilhado na Venezuela, após admitir que a mediação internacional deslocada fracassou. A proposta visa restaurar confiança política e viabilizar eleições consideradas livres.

O presidente Gustavo Petro divulgou nesta quarta-feira uma análise contundente sobre o fracasso das negociações multilaterais envolvendo Venezuela, Estados Unidos, Europa e setores da oposição venezuelana. Segundo Petro, após meses de articulação política em Bogotá, ficou evidente que nenhuma das condições essenciais para eleições consideradas livres se concretizou.

De acordo com o mandatário colombiano, o processo permaneceu travado pela manutenção das sanções externas contra o governo venezuelano, pelo não desbloqueio econômico e pela permanência da inelegibilidade da opositora María Corina Machado. Para ele, é impossível considerar a disputa eleitoral como justa em um contexto de bloqueio severo e de fragilização econômica. Em suas palavras, “não são livres as eleições sob um país bloqueado”.

Diante desse cenário, Petro sugeriu uma solução radical: a criação de um governo de transição compartilhado, inspirado no arranjo político colombiano conhecido como “Frente Nacional”, que governou o país por décadas a partir de um pacto entre forças antagônicas. A ideia seria reunir governo venezuelano, oposição e representantes da comunidade internacional em um acordo institucional com mecanismos de garantia, supervisão e compartilhamento de poder.

Petro relatou que apresentou a proposta de submeter esse pacto a um plebiscito ou de legitimá-lo no âmbito das Nações Unidas. No entanto, segundo ele, o avanço foi bloqueado tanto pelo “sectarismo reinante” quanto pela pressa da administração norte-americana em buscar resultado imediato, o que teria inviabilizado qualquer negociação profunda.

O presidente colombiano foi ainda mais longe em sua advertência: alertou para a possibilidade de desintegração do Estado venezuelano caso o impasse se prolongue. Ele mencionou explicitamente a presença de grupos armados em ambos os lados da fronteira e o risco de que tensões militares e econômicas resultem em fragmentação territorial, migração forçada e fortalecimento de economias ilícitas ligadas ao petróleo e ao contrabando.

A comparação com o colapso institucional da Líbia não passou despercebida pelos analistas. A mensagem de Petro é clara: a persistência do bloqueio econômico, combinada com pressão externa e polarização interna, pode empurrar a Venezuela para um cenário fora de controle, com consequências devastadoras para toda a América Latina.

Do ponto de vista político, a proposta de Petro coloca desafios simultâneos aos dois polos da disputa venezuelana. Para o governo de Caracas, aceitar uma transição significa abrir mão de hegemonia; para a oposição, implica renunciar ao ideal de vitória total e aceitar um pacto de reconstrução gradual. Ambas as posições exigiriam concessões profundas — algo raro no campo político venezuelano das últimas décadas.

Diplomatas latino-americanos avaliam que a iniciativa fortalece o protagonismo da Colômbia na mediação regional, recolocando o país no centro da diplomacia sul-americana em um tema de alto impacto geopolítico. Para o Brasil, México e outros países, a proposta será analisada com interesse, mas também com cautela: qualquer avanço dependerá do grau de disposição de Caracas e da capacidade de atores externos em flexibilizar suas posições.

No entanto, permanece a dúvida: há ambiente político real para a construção de um governo de transição? Sem flexibilização das sanções, sem garantias externas e sem confiança mínima entre governo e oposição, a proposta pode se tornar apenas mais uma peça no longo histórico de tentativas frustradas de resolver a crise venezuelana.

Ainda assim, o movimento de Petro reabre o debate e recoloca sobre a mesa a discussão mais sensível da atualidade venezuelana: como reconstruir instituições e restaurar a democracia sem provocar colapso social, intervenção estrangeira ou ruptura territorial.