Da Redação
Documento manuscrito intitulado “Câmara” foi apreendido durante buscas na residência do senador, no âmbito da Operação Compliance Zero. Segundo a PF, uma funcionária relatou que Ciro havia entregue os papéis para serem queimados por serem antigos ou sem serventia. Entre os primeiros nomes anotados estão “Arthur”, “Hugo”, “Elmar”, “Luizinho”, “Adolfo” e “Isnaldo”, associados pelos investigadores, de forma provável, a integrantes da Câmara. O significado dos números ao lado dos nomes ainda não foi esclarecido.
A abertura dos processos relacionados ao Banco Master revelou neste sábado (12) um dos achados mais incomuns das buscas realizadas pela Polícia Federal na residência do senador Ciro Nogueira (PP-PI), em Brasília. Durante a quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 7 de maio, agentes encontraram dentro da churrasqueira da casa do parlamentar um conjunto de papéis que, segundo uma funcionária ouvida durante a diligência, havia sido entregue pelo próprio senador para ser queimado. Entre os documentos estava uma folha manuscrita com o título “Câmara”, seguida de nove primeiros nomes e números. A PF registrou que os nomes podem corresponder a deputados federais e que os números provavelmente representam “valores”, mas ressalvou no próprio relatório que o documento ainda “carece de esclarecimento”.
O conteúdo do manuscrito chama atenção pela composição. A anotação registra “Arthur — 40”, “Hugo — 10”, “Elmar — 10”, “Luizinho — 10”, “Adolfo — 10”, “Isnaldo — 10”, “Diego — 5”, “Altineu — 5” e “Netinho — 5”. A Polícia Federal escreveu que os primeiros nomes provavelmente se referem a Arthur Lira, Hugo Motta, Elmar Nascimento, Doutor Luizinho, Adolfo Viana e Isnaldo Bulhões. No relatório divulgado até agora, os investigadores não identificaram de maneira conclusiva “Diego”, “Altineu” e “Netinho”, embora exista na Câmara um deputado chamado Altineu Côrtes. A identificação feita pela PF é uma hipótese investigativa, não uma confirmação de que todas as pessoas mencionadas sejam efetivamente esses parlamentares.
Mais importante ainda é não converter os números em dinheiro antes que a investigação demonstre seu significado. A própria PF os descreve como “provavelmente valores”, sem esclarecer unidade, moeda, finalidade ou contexto. Assim, “Arthur — 40” não pode ser apresentado, neste momento, como R$ 40 mil, R$ 40 milhões ou qualquer outro montante. O papel também não demonstra que os deputados tenham recebido recursos, solicitado pagamentos ou sequer soubessem da existência da anotação. O que está comprovado é que o manuscrito foi apreendido na residência de Ciro Nogueira e que a equipe policial formulou a hipótese de que alguns dos nomes se referem a parlamentares.
O local onde o documento foi encontrado acrescenta, entretanto, uma circunstância que a PF deverá esclarecer. Segundo o relatório da diligência, uma funcionária da residência informou aos agentes que os papéis encontrados na churrasqueira haviam sido entregues pelo senador para serem queimados, “supostamente por se tratar de documentos antigos e/ou sem serventia”. A incineração não teria ocorrido por falta de tempo. O registro policial tornado público não informa quando Ciro teria dado essa orientação nem demonstra que ele pretendesse destruir especificamente a lista intitulada “Câmara” para ocultá-la de uma investigação. Essa diferença é decisiva: a existência de uma ordem para descartar papéis foi relatada à PF, mas afirmar que houve tentativa deliberada de destruir prova exigiria demonstrar conhecimento da investigação e intenção de eliminar material relevante.
A lista não foi o único material apreendido. Na residência do senador, no Lago Sul, os policiais encontraram US$ 27.735, € 1.555 e 890 liras turcas, além de celulares, sete relógios de marcas de luxo e dez veículos, alguns descritos pela PF como blindados e de alto padrão. O relatório menciona ainda adega com bebidas de alto valor, bolsas de marcas internacionais e malas com etiquetas em nomes de terceiros. Segundo a PF, Ciro não forneceu a senha de seu telefone durante a diligência. Nenhum desses elementos, isoladamente, demonstra origem ilícita do patrimônio ou do dinheiro encontrado; sua relevância dependerá do confronto com declarações patrimoniais, registros financeiros e o objeto específico da investigação.
O contexto é o que transforma o manuscrito numa peça potencialmente importante. Ciro Nogueira já é investigado na frente do caso Master que procura esclarecer se recebeu vantagens de Daniel Vorcaro em troca de atuação favorável aos interesses do banco no Congresso. A Polícia Federal sustenta em documentos anteriores que o senador teria recebido pelo menos R$ 6 milhões, por meio de pagamentos mensais de aproximadamente R$ 300 mil durante vinte meses. Os investigadores caracterizaram a relação entre Ciro e Vorcaro como marcada por uma suposta “convergência de interesses ilícitos”. Essa é a conclusão investigativa da PF, contestada pelo senador, e ainda precisa atravessar as etapas de acusação e julgamento para produzir eventual responsabilização criminal. Ciro já afirmou não ter participado de atividades ilícitas e classificou as investigações contra ele como tentativa de atingir sua honra.
É nesse cenário que a palavra “Câmara” pode adquirir importância. Se a investigação conseguir demonstrar que os números representam pagamentos e que os primeiros nomes correspondem aos parlamentares indicados no relatório, a PF terá de reconstruir a origem do dinheiro, seu eventual destino e a finalidade das anotações. Mas existe uma distância probatória considerável entre encontrar uma lista e comprovar um esquema de repasses. Para percorrê-la, seriam necessários elementos independentes — transferências bancárias, saques, mensagens, registros contábeis, entregas de dinheiro, testemunhos ou outros documentos capazes de conectar cada anotação a uma operação concreta.
As primeiras manifestações dos citados reforçam essa necessidade. Arthur Lira informou por meio de sua assessoria que desconhece as anotações e não pode responder pelo registro. Elmar Nascimento disse que o papel contém números, não necessariamente valores, afirmou não possuir relação política com Ciro Nogueira e questionou a própria atuação da Polícia Federal. Hugo Motta, Doutor Luizinho, Adolfo Viana e Isnaldo Bulhões não haviam respondido aos contatos da imprensa até a publicação das primeiras reportagens. Ciro também não havia se manifestado especificamente sobre o manuscrito.
A revelação só se tornou possível porque André Mendonça ampliou na sexta-feira (11) a retirada do sigilo dos procedimentos derivados do caso Banco Master. A abertura atingiu investigações envolvendo políticos de diferentes partidos e também o caso Dark Horse, relacionado ao financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. No conjunto, dezenas de processos e milhares de páginas começaram a ficar acessíveis, permitindo conhecer elementos que até então permaneciam restritos à Polícia Federal, à PGR e ao Supremo.
O documento encontrado na churrasqueira merece atenção justamente porque pode fornecer uma nova pista sobre uma questão maior já presente na investigação: até onde chegava a rede de relações políticas construída ao redor de Daniel Vorcaro e quais dessas relações, se alguma, envolveram transferência de vantagens em troca de atuação institucional. Relatórios anteriores da PF já descreveram pagamentos de viagens, relações pessoais e tentativas de interlocução política ligadas ao ex-controlador do Master.
Mas a lista, sozinha, ainda não responde a essa pergunta. Não há, no material público conhecido até agora, prova de que “40”, “10” ou “5” sejam milhões, milhares ou sequer dinheiro. Também não há demonstração de que os nomes identificados preliminarmente pela PF tenham recebido qualquer quantia relacionada ao documento. Da mesma forma, o relato de que os papéis seriam queimados é relevante para a investigação, mas não permite concluir automaticamente que houve tentativa de destruição de prova.
O que existe é uma peça documental apreendida dentro da residência de um senador que já estava sendo investigado por sua relação financeira com Daniel Vorcaro, acompanhada de uma circunstância incomum: ela estava entre papéis destinados à churrasqueira. Isso torna legítimo exigir uma explicação para a lista, mas não autoriza antecipar aquilo que a perícia e o rastreamento financeiro ainda precisam demonstrar.
A próxima etapa é essencialmente documental. A PF terá de identificar com segurança cada nome, descobrir o significado dos números e verificar se existem movimentações financeiras, mensagens ou decisões parlamentares correspondentes às anotações. Se essas conexões aparecerem, a lista poderá adquirir peso muito maior dentro do caso Master. Se não aparecerem, continuará sendo um rascunho de significado desconhecido encontrado durante uma busca.
Por enquanto, a formulação mais precisa é também a mais contundente: a Polícia Federal encontrou na churrasqueira da residência de Ciro Nogueira uma lista intitulada “Câmara”, com nomes que associa provavelmente a deputados e números que considera provavelmente valores. O que esses números significam — e por que aquele papel estava entre documentos destinados a ser queimados — é exatamente o que a investigação ainda terá de explicar.






