Da Redação
Operação Make Up cumpre 49 mandados em quatro unidades da Federação e investiga suspeitas de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e contratos sem comprovação de serviços. Deputado Mario Frias e a produtora Karina Gama estão entre os alvos. A apuração se conecta ao entorno empresarial do filme sobre Jair Bolsonaro, mas é distinta do inquérito que investiga os recursos de Daniel Vorcaro destinados à produção.
A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira, 10 de setembro, uma operação de grandes proporções para investigar suspeitas de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e contratos celebrados com organizações da sociedade civil. Batizada de Operação Make Up, a ação cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a produtora Karina Gama, ligada ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à produção de Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. As medidas foram autorizadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e a investigação é conduzida pela PF em conjunto com a Controladoria-Geral da União.
O alcance da operação exige uma distinção fundamental. A Make Up não deve ser apresentada simplesmente como uma operação que já comprovou “financiamento ilegal” do filme. Segundo a própria PF, o objeto central é um suposto esquema de desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares, repassados por termos de fomento a organizações da sociedade civil. A investigação procura descobrir se valores públicos destinados formalmente a determinados projetos foram direcionados a empresas subcontratadas de maneira irregular e sem comprovação efetiva dos serviços. A relação com Dark Horse surge porque organizações e personagens alcançados pela apuração também estão vinculados à produção cinematográfica.
De acordo com a PF, levantamentos financeiros identificaram movimentações de “centenas de milhões de reais” entre empresas integrantes do esquema investigado. A corporação afirma que as suspeitas envolvem agentes públicos e privados e que possíveis mecanismos destinados a dissimular os desvios teriam continuado até julho deste ano. Estão sob investigação crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos relacionados a licitações. São suspeitas em investigação: mandados de busca e apreensão não equivalem a condenação e tampouco demonstram, isoladamente, responsabilidade criminal dos alvos.
Mario Frias entra diretamente nessa frente porque destinou R$ 1 milhão em emenda parlamentar ao Instituto Conhecer Brasil, organização comandada por Karina Gama. Formalmente, segundo a apuração publicada pelo UOL, o dinheiro deveria financiar um programa de empreendedorismo no interior paulista. O projeto, entretanto, não havia saído do papel quando o caso foi revelado em junho. É justamente o destino efetivo dos recursos e a relação financeira entre as organizações e empresas envolvidas que os investigadores agora procuram reconstruir.
A dimensão da investigação aumenta porque o Instituto Conhecer Brasil e empresas relacionadas a Karina Gama já apareciam em outra apuração. A Polícia Civil paulista investigava possíveis irregularidades envolvendo um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado pela Prefeitura de São Paulo com o ICB, originalmente relacionado ao fornecimento de acesso gratuito à internet em comunidades. A suspeita investigada é de que parte dos recursos possa ter sido desviada e alcançado empresas relacionadas à produção de Dark Horse. Em agosto, Dino autorizou a PF a acessar elementos dessa investigação estadual.
Karina Gama nega irregularidades. Procurada pela Folha, afirmou que os recursos foram corretamente aplicados e declarou: “Não tenho nada para delatar”. Sua posição precisa integrar o quadro factual enquanto a investigação não apresenta conclusões definitivas.
Duas investigações diferentes convergem em “Dark Horse”
É aqui que o caso ganha uma dimensão muito maior. Existem atualmente frentes investigativas distintas que alcançam o universo financeiro do filme.
A investigação conduzida sob relatoria de Flávio Dino concentra-se nas emendas parlamentares, termos de fomento, organizações da sociedade civil e possíveis desvios de dinheiro público. É nesse procedimento que ocorre a Operação Make Up desta quinta-feira.
Paralelamente, outro inquérito, sob relatoria do ministro André Mendonça, investiga os recursos provenientes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, destinados ao financiamento de Dark Horse. Esse segundo procedimento foi aberto depois de manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República e procura estabelecer o caminho percorrido pelo dinheiro, sua origem e seus beneficiários finais.
As duas linhas não devem ser artificialmente fundidas. Uma trata essencialmente de recursos públicos e emendas; a outra, de operações financeiras envolvendo Vorcaro e o projeto cinematográfico. Elas se tornam relevantes em conjunto porque convergem sobre pessoas, empresas ou estruturas relacionadas ao mesmo filme.
A frente Vorcaro possui números expressivos. O acordo de financiamento divulgado anteriormente previa cerca de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões pela cotação mencionada nas reportagens, para a produção. Investigações e reportagens apontaram que dezenas de milhões de reais chegaram efetivamente ao projeto. Documentos financeiros também identificaram uma transferência de US$ 12,3 milhões entre a Entre Investimentos e Participações e o Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos. A destinação final desses recursos integra a investigação e não deve ser antecipada como fato criminoso antes da conclusão das autoridades.
Essa frente ganhou novo peso nesta semana. André Mendonça homologou acordo de colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, empresário apontado como operador financeiro ligado a Vorcaro. Segundo a investigação relatada pela Folha, a colaboração aborda movimentações financeiras atribuídas ao grupo e inclui recursos destinados ao Havengate Development Fund, estrutura que participou do financiamento de Dark Horse. Homologar uma colaboração significa reconhecer sua regularidade jurídica; não significa que todas as declarações do colaborador tenham sido comprovadas. Elas precisam ser confrontadas com documentos, registros bancários e outras evidências.
A existência dessas duas linhas investigativas ajuda também a compreender por que Dark Horse apareceu no centro da crise institucional que atingiu o STF e a Polícia Federal nos últimos dias.
Quando André Mendonça determinou o afastamento temporário do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, este recorreu alegando, entre outros argumentos, que a medida interferia diretamente no andamento da investigação sobre as emendas relacionadas ao filme. Ao restabelecer Andrei no cargo na quarta-feira, Flávio Dino afirmou que precisava preservar a efetividade das medidas já determinadas em processos sob sua relatoria e impedir interferências externas capazes de comprometer as investigações. Posteriormente, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as decisões conflitantes de Mendonça e Dino, mantendo Andrei no comando da PF enquanto centraliza o tratamento da crise.
A deflagração da Operação Make Up um dia depois desse confronto institucional mostra concretamente que a investigação mencionada por Dino estava em estágio operacional avançado. Mas a proximidade temporal, por si só, não demonstra que a operação tenha sido desencadeada como resposta política à crise do Supremo. Os 49 mandados dependiam de investigação prévia e autorização judicial; afirmar retaliação exigiria evidências específicas que, até agora, não aparecem nas informações públicas disponíveis.
Também é necessário estabelecer com precisão a posição de Jair Bolsonaro e de seus familiares nessa operação. Dark Horse é uma produção cinematográfica baseada na trajetória do ex-presidente, mas isso não significa que Bolsonaro seja automaticamente investigado por qualquer irregularidade financeira relacionada ao projeto. Da mesma forma, Flávio Bolsonaro não é alvo da Operação Make Up desta quinta-feira, segundo as informações disponíveis. Seu nome aparece na outra investigação, relacionada aos recursos de Vorcaro e às negociações para financiar o filme.
A situação de Mario Frias é diferente. Ele é alvo direto de busca e apreensão na operação desta quinta-feira e foi responsável por uma emenda destinada ao ICB. Isso coloca seus atos e as relações financeiras decorrentes dessa destinação sob escrutínio policial, mas não estabelece antecipadamente sua responsabilidade pelos crimes investigados.
O caso agora dependerá principalmente do material apreendido. Computadores, celulares, documentos, contratos, notas fiscais, registros bancários e comunicações poderão permitir à PF reconstruir o caminho dos recursos. O ponto decisivo será verificar se os serviços previstos nos termos de fomento e contratos foram efetivamente executados, quem recebeu o dinheiro, quais empresas foram subcontratadas, qual foi a justificativa econômica das transferências e se parte desses recursos chegou à produção cinematográfica ou a outros destinatários sem relação com sua finalidade original.
É nessa reconstrução financeira que a investigação poderá avançar da suspeita para a prova — ou afastar hipóteses que não encontrem respaldo documental.
O que já existe nesta quinta-feira é suficientemente relevante: 49 mandados, quatro unidades da Federação, participação conjunta da Polícia Federal e da CGU, um deputado federal entre os alvos, organizações ligadas à produção de um filme politicamente sensível e movimentações financeiras que, segundo a PF, alcançam centenas de milhões de reais.
Mas o aspecto potencialmente mais importante está na convergência das investigações. De um lado, a PF procura saber se dinheiro público proveniente de emendas e contratos foi desviado através de organizações e empresas privadas. De outro, investigadores tentam reconstruir o circuito financeiro que levou recursos vinculados a Daniel Vorcaro ao projeto cinematográfico.
O elo entre essas duas histórias é Dark Horse.
A partir das buscas desta quinta-feira, a investigação terá a possibilidade de descobrir se esse elo é apenas a coincidência entre pessoas e empresas que circulavam ao redor do mesmo projeto ou se existe uma arquitetura financeira mais ampla conectando os diferentes fluxos de recursos. Essa resposta ainda não existe. É justamente o que a Polícia Federal agora procura estabelecer.






