PF investiga suspeita de sociedade oculta entre Flávio Bolsonaro e dono de bet em operação que envolve empresas no Brasil e em Portugal

Documentos obtidos pela revista piauí revelam conexões entre a casa de apostas Best Bet, duas holdings sediadas na Ilha da Madeira e uma conta bancária na qual o senador e o advogado Willer Tomaz apareciam como usuários com poderes administrativos. Investigação também examina pagamentos, viagens internacionais e possíveis relações financeiras não declaradas.

Da Redação

A Polícia Federal investiga a suspeita de que o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenha mantido uma participação societária não declarada na Best Bet, casa de apostas ligada ao advogado e empresário Willer Tomaz, seu amigo pessoal. A hipótese é examinada a partir de documentos bancários, registros empresariais brasileiros e portugueses, movimentações financeiras e informações sobre viagens internacionais. A investigação ganhou novos elementos nesta terça-feira, 20 de outubro, com a publicação de uma reportagem da revista piauí que reconstituiu a estrutura societária da empresa de apostas e identificou conexões entre duas holdings registradas na Ilha da Madeira, em Portugal, e uma conta empresarial do Santander na qual Flávio e Tomaz figuravam como usuários com elevados privilégios de administração.

A revelação acrescenta uma dimensão empresarial às informações divulgadas anteriormente sobre a relação entre o senador e o advogado. Até então, a investigação havia ganhado repercussão principalmente por causa de mensagens eletrônicas, registros de viagens e documentos que apontavam a existência de permissões bancárias associadas aos dois. Agora, a hipótese examinada pelos investigadores é mais abrangente: verificar se a proximidade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz envolvia participação financeira efetiva em uma empresa do setor de apostas, ainda que essa participação não aparecesse formalmente nos registros societários.

A reportagem da piauí, assinada por Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia, foi produzida a partir de apurações realizadas no Brasil e em Portugal. Os jornalistas consultaram registros comerciais, obtiveram documentos contábeis e visitaram o endereço utilizado pelas empresas investigadas na cidade de Funchal, capital da Ilha da Madeira. Também examinaram informações relacionadas ao funcionamento da Best Bet e às permissões bancárias atribuídas ao senador.

O conjunto de documentos levou a Polícia Federal a solicitar ao Supremo Tribunal Federal o aprofundamento da investigação sobre uma eventual sociedade oculta. A existência dessa suspeita, entretanto, não significa que a participação societária tenha sido comprovada. A apuração precisa estabelecer se Flávio possuía direitos econômicos sobre a empresa, recebeu recursos de suas atividades, exerceu poderes de gestão ou participou de decisões relacionadas ao negócio.

A distinção é juridicamente importante. O cadastro de uma pessoa como usuário autorizado de conta bancária empresarial pode constituir um elemento relevante de investigação, mas não demonstra automaticamente que ela seja proprietária da empresa titular da conta ou beneficiária de seus resultados financeiros.

Ainda assim, a estrutura identificada pela reportagem levanta questões sobre as relações entre os diferentes empreendimentos administrados por Willer Tomaz e sobre o papel efetivamente desempenhado pelo senador.

A origem da rede empresarial remonta ao início de 2023. Em janeiro daquele ano, Tomaz constituiu a Cathedral Holdings na Ilha da Madeira, com capital inicial de 50 mil euros. A companhia foi registrada em Funchal e tinha como sócios formais o advogado e Jorge Barbosa Dias.

No mês seguinte, o grupo criou a Rede Loto Ltda., empresa brasileira com capital de R$ 1 milhão que passou a explorar atividades relacionadas a apostas sob o nome comercial Best Bet. A controladora da empresa brasileira era a Cathedral Holdings, constituída em Portugal.

O uso de empresas estrangeiras na organização de operações comerciais não é, por si só, ilegal. Companhias podem estabelecer holdings em diferentes países por motivos tributários, administrativos ou de organização societária. Entretanto, estruturas internacionais também exigem fiscalização adequada sobre seus beneficiários efetivos, as operações realizadas entre empresas relacionadas e a origem dos recursos utilizados.

No caso examinado pela Polícia Federal, o interesse investigativo surgiu da identificação de vínculos entre a Cathedral e outra companhia constituída por Willer Tomaz: a Alcazar Holdings.

Também registrada em Funchal, a Alcazar possuía uma empresa correspondente no Brasil, denominada Alcazar Brasil Ltda., com sede em São Paulo. Segundo os documentos obtidos pela piauí, as duas holdings portuguesas compartilhavam o mesmo proprietário, Willer Tomaz, o mesmo administrador, Mateo Scudeler, e o mesmo endereço comercial.

Ambas estavam registradas na sala 105 do edifício Marina Club, localizado na Avenida Arriaga, em Funchal.

Em visita realizada em 16 de outubro, os jornalistas não encontraram sinais visíveis de atividade operacional das empresas no endereço. Os registros comerciais consultados indicavam a existência de apenas um funcionário na Cathedral e nenhum na Alcazar.

Essas informações podem levantar dúvidas sobre a natureza das atividades desempenhadas naquele local, mas não demonstram automaticamente que as companhias sejam fictícias ou utilizadas para fins ilegais. Empresas de participação patrimonial frequentemente possuem estruturas administrativas reduzidas e contratam serviços externos de contabilidade, gestão e representação.

A investigação precisa determinar se as holdings desenvolviam atividades legítimas, quais operações realizavam e quem eram seus beneficiários econômicos.

Os registros financeiros analisados pela revista também revelaram movimentações que podem ajudar a esclarecer a relação entre as duas empresas.

Em 2024, a Cathedral Holdings contabilizava aproximadamente 7,8 mil euros em créditos a receber. Em 2025, esse valor aumentou para 984 mil euros.

Na Alcazar Holdings, as obrigações registradas passaram de 8,1 mil euros para 824 mil euros no mesmo intervalo.

A proximidade entre os valores chamou atenção dos jornalistas, que procuraram um auditor fiscal da Autoridade Tributária e Aduaneira de Portugal para analisar os documentos.

Segundo a avaliação desse profissional, ouvido sob condição de anonimato, é possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente.

A hipótese é relevante porque a primeira empresa controlava a Best Bet, enquanto a segunda possuía vínculos com a conta bancária na qual Flávio Bolsonaro aparecia como usuário autorizado.

Entretanto, o aumento simultâneo de créditos em uma empresa e obrigações em outra não comprova, isoladamente, a existência de uma transferência específica entre ambas. Para confirmar a natureza das operações, seria necessário examinar contratos, registros de pagamentos, declarações fiscais e documentos bancários.

Conta do Santander é peça central da investigação

O principal elo identificado entre Flávio Bolsonaro e essa estrutura empresarial é uma conta bancária associada à Alcazar Brasil Ltda.

Segundo os documentos descritos pela piauí e anteriormente revelados pelo UOL, o senador e Willer Tomaz apareciam cadastrados como usuários máster da conta empresarial mantida no Santander.

Esse tipo de perfil pode oferecer poderes administrativos sobre operações bancárias digitais, incluindo consulta de saldos, visualização de extratos, administração de permissões e, dependendo das autorizações efetivas, realização ou aprovação de transações financeiras.

De acordo com a reportagem, apenas Flávio e Tomaz possuíam essa classificação na conta.

A informação é relevante porque ultrapassa a simples existência de uma relação de amizade entre os dois. Um cadastro administrativo em conta empresarial constitui um vínculo operacional específico, ainda que sua finalidade e sua utilização efetiva precisem ser esclarecidas.

A investigação deverá determinar desde quando o senador figurava como usuário, quem solicitou o cadastro, quais poderes estavam efetivamente disponíveis e se existem registros de movimentações financeiras realizadas mediante suas credenciais.

Também será necessário estabelecer se o vínculo bancário correspondia a uma atividade profissional formalmente contratada, a uma autorização administrativa concedida por terceiros ou a algum interesse econômico não declarado.

A existência de permissões bancárias não é equivalente à comprovação de sociedade oculta. Para demonstrar participação societária efetiva, os investigadores precisariam identificar elementos adicionais que caracterizassem a condição de sócio ou beneficiário dos negócios.

Outro dado importante é a retirada do nome do senador da relação de usuários máster.

Segundo a piauí, em 22 de maio de 2025, Fayla Zulmira Menezes, funcionária de Willer Tomaz, encaminhou ao Santander uma solicitação para excluir Flávio Bolsonaro dessa condição.

O pedido não apresentava uma justificativa para a alteração.

Na mesma data, o senador estava em Portugal acompanhado de Tomaz. No dia seguinte, os dois viajaram com seus familiares de Cascais, em território português, para Nice, na França, utilizando uma aeronave contratada em nome da Cathedral Holdings.

A coincidência entre a alteração bancária e a viagem foi registrada pela investigação jornalística, mas não demonstra, isoladamente, que os acontecimentos tenham relação causal.

Para esclarecer as circunstâncias, seria necessário identificar quem decidiu pela retirada do acesso, por qual motivo e se a operação correspondeu ao encerramento de alguma atividade ou autorização anterior.

Flávio Bolsonaro já havia negado publicamente a existência de uma conta compartilhada com Willer Tomaz ou com empresas ligadas ao advogado.

Tomaz também contestou os registros e afirmou que a conta mencionada não lhe pertencia e que jamais criou um usuário bancário em nome do senador.

As negativas precisam ser consideradas juntamente com a documentação apresentada pelas reportagens, que indica a existência de registros administrativos associados aos dois.

A discrepância entre as versões constitui um dos pontos que exigem esclarecimento.

A revista encaminhou novas perguntas a Flávio sobre eventual participação na Best Bet, a data de início de seu acesso bancário e sua relação com os negócios da Cathedral Holdings. Segundo a publicação, o senador não respondeu até o fechamento da reportagem.

O advogado também foi procurado para esclarecer as relações contábeis entre as empresas e as circunstâncias da conta bancária, mas não apresentou novas respostas à revista dentro do prazo informado.

Best Bet obteve licença da Loterj e ampliou atuação nacional

A investigação também examina o percurso da Best Bet no mercado brasileiro de apostas.

A empresa recebeu autorização para operar por meio da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) em 2023, durante o governo de Cláudio Castro (PL).

Naquele ano, a loteria estadual avançou na concessão de licenças a empresas interessadas na exploração de apostas, após mudanças no entendimento jurídico sobre a atuação de loterias estaduais.

A Best Bet estava entre as companhias beneficiadas.

A autorização foi assinada pelo então presidente da Loterj, Hazenclever Cançado. Segundo informações da Folha de S.Paulo citadas pela revista piauí, Cançado havia chegado à função por indicação de Flávio Bolsonaro.

A eventual existência de uma indicação política não comprova favorecimento ilegal. Nomeações para cargos administrativos e decisões regulatórias precisam ser examinadas segundo os requisitos e procedimentos aplicáveis.

Entretanto, a combinação de relações políticas, participação de empresários próximos ao senador e benefícios comerciais obtidos no setor constitui uma das circunstâncias consideradas relevantes pela reportagem.

A questão ganhou dimensão adicional quando a Best Bet passou a explorar apostas fora do território fluminense.

A interpretação regulatória adotada pela Loterj permitiu que empresas licenciadas pelo estado alcançassem apostadores de outras unidades da Federação. Isso ampliou significativamente o mercado potencial das operadoras.

A situação provocou conflito com as autoridades federais responsáveis pela regulamentação nacional das apostas.

Em 2024, o governo Lula passou a contestar a exploração nacional de apostas por empresas que possuíam apenas autorizações estaduais.

A controvérsia chegou aos tribunais e resultou em decisões sobre os limites territoriais das licenças concedidas pela loteria fluminense.

Em janeiro de 2025, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou que as empresas licenciadas pela Loterj não poderiam explorar apostas irrestritamente em todo o país, restringindo sua atuação às condições territoriais autorizadas.

A decisão atingiu diretamente a Best Bet, reduzindo seu mercado potencial.

Segundo a piauí, a empresa encerrou suas atividades em meados de 2025, alguns meses depois da decisão judicial e da retirada do acesso bancário atribuído a Flávio Bolsonaro.

Essa sequência temporal pode orientar questionamentos investigativos, mas não comprova que as decisões sobre a conta bancária decorreram da perda de alcance comercial da empresa.

A investigação precisará estabelecer se houve vínculos econômicos efetivos entre esses acontecimentos.

A disputa envolvendo a Loterj também foi acompanhada por contatos entre integrantes do setor de apostas e representantes políticos.

A reportagem menciona uma reunião organizada por Willer Tomaz em seu escritório de Brasília, durante o período de controvérsia sobre a operação nacional das empresas licenciadas pelo órgão estadual.

Participaram do encontro os senadores Dr. Hiran e Soraya Thronicke, então relacionados à condução da CPI das Bets, além do governador Cláudio Castro. Hazenclever Cançado participou por videochamada.

A presença de autoridades em uma reunião sobre uma disputa regulatória não configura automaticamente irregularidade. É necessário conhecer o conteúdo das conversas, os interesses representados e a existência de eventuais decisões administrativas relacionadas aos participantes.

O episódio, contudo, demonstra que o debate sobre a atuação das empresas de apostas alcançou diferentes instâncias de poder.

Movimentações financeiras e faturamento de escritório ampliam questionamentos

A apuração sobre a possível sociedade oculta ocorre paralelamente a outras investigações financeiras envolvendo Willer Tomaz.

Segundo reportagem do UOL publicada em 18 de outubro, a Polícia Federal examina aproximadamente R$ 1,4 bilhão em transações associadas ao advogado e à plataforma de apostas Blaze.

Os investigadores consideram a hipótese de que operações de apostas e transferências entre diferentes contas tenham sido utilizadas para ocultar a origem ou a destinação de valores.

Tomaz nega participação societária na Blaze e afirma que sua relação com a plataforma se limitou à condição de cliente.

A empresa responsável pela operação brasileira da Blaze, Foggo Entertainment, também rejeita a existência de qualquer relação societária com o advogado.

Esse procedimento precisa ser distinguido da hipótese de participação de Flávio Bolsonaro na Best Bet. A Blaze e a Best Bet são operações diferentes, e as suspeitas relacionadas a uma empresa não comprovam automaticamente fatos atribuídos à outra.

A movimentação financeira examinada no caso da Blaze também não pode ser atribuída ao senador sem documentos que demonstrem sua participação.

Outra informação divulgada nesta terça-feira envolve o faturamento do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.

Segundo o UOL, a atividade profissional do senador registrou receitas de aproximadamente R$ 14 milhões entre 2023 e 2026.

A reportagem afirma que parte dos pagamentos foi direcionada à conta bancária associada à Alcazar, na qual Flávio e Willer Tomaz apareciam como usuários com poderes administrativos.

O volume de faturamento, por si só, não constitui indício suficiente de irregularidade. Escritórios de advocacia podem receber remunerações elevadas conforme a natureza, a quantidade e os valores das causas ou serviços prestados.

As questões investigativas relevantes dizem respeito à origem dos pagamentos, à prestação efetiva dos serviços, à titularidade das contas utilizadas e à existência de eventuais relações financeiras não declaradas.

Os valores individualizados das transferências mencionadas na reportagem não foram integralmente divulgados, o que impede estabelecer sua relação concreta com a Best Bet.

A Polícia Federal também identificou registros de viagens internacionais e utilização de aeronaves particulares envolvendo o senador e Willer Tomaz.

Parte dos deslocamentos teria sido custeada ou organizada por empresas ligadas ao advogado.

O financiamento de viagens por terceiros pode exigir esclarecimentos sobre sua natureza e eventual relação com atividades profissionais, empresariais ou políticas.

Entretanto, viajar na companhia de um empresário ou utilizar serviços contratados por ele não constitui, isoladamente, participação em crime.

O conjunto das circunstâncias poderá adquirir significado jurídico apenas se forem demonstradas operações irregulares ou vantagens indevidas associadas às relações identificadas.

Setor de apostas também participa do ambiente político da campanha

A reportagem da piauí destaca ainda a aproximação de empresários ligados às apostas com a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Entre os nomes mencionados estão Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, proprietário da 7 Games Bet, e Ernildo Júnior de Farias Santos, ligado à Pix Bet.

Segundo a publicação, integrantes do setor manifestam expectativa de mudanças regulatórias em uma eventual administração do senador, especialmente diante das restrições estabelecidas pelo governo Lula em 2026.

A participação de empresários em atividades políticas e seu apoio a candidaturas não são, por si só, ilegais. Setores econômicos frequentemente procuram apresentar suas reivindicações a candidatos e representantes do poder público.

O problema jurídico surge quando existem vantagens indevidas, financiamento irregular, conflitos de interesses não administrados ou decisões públicas tomadas em troca de benefícios particulares.

A existência de apoio empresarial também não permite concluir que um candidato necessariamente adotará todas as medidas desejadas pelos seus apoiadores.

Para examinar essa relação de maneira adequada, seria necessário conhecer propostas formalmente apresentadas, compromissos assumidos e eventuais negociações documentadas.

A regulamentação do setor de apostas possui consequências econômicas e sociais relevantes. Envolve arrecadação tributária, fiscalização de transações financeiras, proteção dos consumidores, prevenção à lavagem de dinheiro e enfrentamento dos problemas associados ao jogo compulsivo.

A presença de interesses empresariais nessa discussão torna especialmente importante a transparência sobre quem participa das decisões regulatórias e quais relações econômicas mantém com os agentes públicos envolvidos.

No caso da Best Bet, a investigação procura esclarecer justamente se existiu um vínculo empresarial não declarado entre um parlamentar e uma companhia que obteve autorização para explorar apostas durante a administração estadual de seu aliado político.

A demonstração dessa hipótese exige provas específicas.

Até o momento, os documentos divulgados mostram conexões administrativas e societárias entre empresas controladas por Willer Tomaz, registros bancários atribuídos ao senador e circunstâncias financeiras que motivaram a investigação.

Não estabelecem definitivamente que Flávio Bolsonaro fosse beneficiário econômico da Best Bet ou que tenha praticado lavagem de dinheiro.

Investigação depende de comprovação dos vínculos financeiros

A suspeita de sociedade oculta envolve a possibilidade de uma pessoa participar economicamente de um empreendimento sem figurar como sócia nos documentos formais da empresa.

A existência dessa condição pode ser demonstrada por diferentes elementos, como recebimento de resultados financeiros, participação em decisões empresariais, contratos, movimentações bancárias e comunicações que revelem direitos ou obrigações de natureza societária.

Nenhum desses elementos deve ser presumido apenas pela existência de amizade ou proximidade política.

Da mesma forma, o cadastro como usuário de uma conta bancária não substitui a análise sobre quem efetivamente controla a empresa e recebe os benefícios econômicos de suas atividades.

A investigação relacionada a Flávio Bolsonaro precisará determinar se os registros administrativos e financeiros correspondem a algum interesse societário oculto ou se possuem outra explicação lícita.

Também será necessário examinar as relações entre Cathedral Holdings e Alcazar Holdings, identificando eventuais contratos e transferências realizadas entre as companhias.

A ausência de esclarecimentos públicos completos sobre essas relações não constitui prova automática de crime, mas demonstra a importância de uma apuração documental.

O envio do caso ao Supremo Tribunal Federal decorre da necessidade de observar as regras de competência aplicáveis a procedimentos que envolvem parlamentares federais. A abertura e o prosseguimento das diligências dependem das providências jurídicas pertinentes.

A investigação ocorre durante a última semana da eleição presidencial, o que amplia sua repercussão política. Entretanto, o calendário eleitoral não altera os critérios necessários para demonstrar irregularidades.

Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz têm direito de contestar as suspeitas, apresentar documentos e participar dos procedimentos legais de defesa.

Da mesma maneira, a relevância pública das informações exige que os fatos identificados sejam examinados pelas autoridades competentes, independentemente da posição política dos envolvidos.

A reportagem da piauí acrescenta elementos concretos ao debate porque apresenta uma estrutura empresarial passível de verificação, identifica documentos contábeis e descreve registros bancários que poderão ser confrontados com informações oficiais.

Sua principal contribuição está em deslocar a investigação da descrição de uma amizade entre um senador e um empresário para a análise de possíveis relações econômicas entre ambos.

A existência de uma sociedade oculta permanece como hipótese investigativa.

O esclarecimento dependerá da identificação dos beneficiários efetivos da Best Bet, do exame de movimentações financeiras, da verificação das permissões concedidas ao senador e da análise dos documentos relacionados à atividade das empresas no Brasil e em Portugal.

Até que essas questões sejam respondidas, não há fundamento para apresentar Flávio Bolsonaro como sócio comprovado da empresa ou responsável por operações de lavagem de dinheiro.

O que está demonstrado pelas reportagens é que a Polícia Federal considera relevantes as conexões encontradas e busca aprofundar a apuração sobre seu significado.

A investigação ganha dimensão adicional por envolver uma atividade econômica sujeita a intensas disputas regulatórias e por alcançar relações entre empresários e autoridades públicas.

O caso evidencia, assim, a importância da transparência sobre estruturas societárias, operações financeiras internacionais e eventuais conflitos de interesses entre agentes políticos e empresas reguladas pelo poder público.

A cinco dias do segundo turno presidencial, as informações divulgadas provocam novos questionamentos sobre a relação de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz e com os negócios ligados à Best Bet. A resposta definitiva dependerá das provas reunidas, das explicações dos envolvidos e das decisões das autoridades responsáveis.