Sistema nacional de pagamentos, gratuito, desperta a sensação de pertencimento, como fez o futebol. Isso explica a força da narrativa e o alcance nas redes
Por Eliara Santana
Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).
A narrativa dominante nesses últimos dias nas redes sociais é sobre o mais novo queridinho do Brasil: o Pix. Desde o anúncio do novo tarifaço do governo norte-americano contra o Brasil, o assunto predomina no mundo midiático digital sob o mote “o Pix é nosso, e ninguém mexe”.
Nesse turbilhão de acontecimentos que envolve a pressão econômica dos EUA sobre o Brasil, com a imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, o tarifaço, que entra em vigor hoje, 22 de julho, é muito interessante e importante observar como, rapidamente, o Pix deixou de ser somente um sistema de pagamentos muito eficiente para se tornar uma ideia.
E uma ideia potente que mobiliza defensores e chama a atenção do mundo todo. Porque o Pix conseguiu aglutinar a mobilização em torno de conceitos difíceis de serem compreendidos como “autonomia’ e “soberania”. Defender o Pix é tudo isso e muito mais. É organizar e consolidar uma narrativa forte em relação à Nação que envolve emoções e sentimentos importantes como proteção, orgulho, empoderamento, altivez: nós nos tornamos o Brasil do Pix. Somos o país do Pix (não mais do futebol!), um sistema gratuito e para todos, sem discriminação, que facilita a vida e o dia a dia dos cidadãos.
E o que pode explicar essa força narrativa?
Antes da reflexão, vamos ao conceito, porque é importante entender – e muito bem – que narrativa não é simples relato ou apenas “contar uma história”. A narrativa é um projeto argumentativo capaz de construir um processo de convencimento; a narrativa organiza e ordena as coisas do mundo e produz um imaginário.
Essa narrativa de defesa do Pix, que conquista os brasileiros e toma conta de todas as redes e discussões, tem um pano de fundo que é muito importante, para além da mobilização dos conceitos e emoções aos quais me referi. Trata-se do sentimento de pertença, ou pertencimento.
A narrativa de defesa de um sistema de pagamentos que é gratuito e para todos evoca essa perspectiva do pertencimento. Um pouco como faz – ou fazia – o futebol ao unir, juntar, congregar pessoas diferentes em torno de um único sentimento, o de pertencer a algo, o de fazer parte de algo bom, grande, expressivo. Por isso, em contraposição, quem se posiciona e ameaça esse conjunto é traidor, e não somente do Brasil, mas desse algo “grande” que mobiliza.
A ideia de pertencimento ao país passou a ser dada pela percepção de que o Pix representa algo que é, sim, inclusivo, porque é gratuito e para todos os perfis de brasileiros, ricos e pobres. Um sentimento que congrega, certamente, a sensação positiva de que há, com o Pix, uma espécie de “autorização” para todo mundo poder participar do sistema bancário sem ser explorado, sem ter de pagar taxas altíssimas por transação, tudo gratuito, e algo brasileiro, que atende aos brasileiros.
De acordo com dados do Banco Central, pelo menos 70 milhões de pessoas passaram a integrar o sistema financeiro formal desde o lançamento do Pix. Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio, divulgados pelo jornal O Globo, mostram que instituições financeiras (bancos) em municípios com maior adoção do Pix registraram maior crescimento de depósitos, e que esse efeito foi ainda mais forte nas regiões com grande volume de economia informal.
O nome disso é inclusão financeira, e os brasileiros entendem porque há uma conexão real com a vida de todo mundo, da manicure ao empresário. Por isso, mexer com o Pix é mexer com o Brasil.
Outro aspecto importante a se considerar é o binômio, em oposição, DEFESA X TRAIÇÃO. Esse entendimento se fortaleceu bastante e se impôs quase como lógica de partido político, ou melhor, de time de futebol. Há os que defendem o Pix e há os traidores, aqueles que querem entregar um bem nacional a um país estrangeiro. Simples assim.
O alcance das reações nas redes
Para termos uma noção do alcance e da potência das reações, levantamento da Agência Pública em sua newsletter mostrou alguns comentários bem raivosos, como este a seguir, que circulou no Bluesky:
“Índia, Tailândia e Singapura também têm sistemas de pagamento semelhantes ao Pix. E por que Trump não ataca esses países? Porque nenhum desses países tem uma família desgraçada [sic] de traidores atacando e querendo entregar o próprio país”.
O levantamento da Agência Pública, divulgado em sua newsletter, informa que o tema “Pix” tem dominado as conversas nas redes: “segundo dados da plataforma Meltwater, o termo “Pix” registra, em média, 42 mil menções diárias no X e no YouTube. O volume de publicações atingiu seu maior patamar em 2 de junho, após o governo dos EUA acusar o Banco Central do Brasil de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento”.
De acordo com levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, os temas “O Pix é do Brasil” e “Brasil soberano” figuraram em destaque nas redes na semana passada (16 e 17 de julho), ainda sob o impacto da imposição do“tarifaço”.

E o assunto é tão relevante que ganhou destaque na imprensa internacional. Na edição desta semana, divulgada ontem (20 de julho), a revista The Economist publicou reportagem afirmando que o “amado sistema de pagamentos do Brasil” atraiu a ira de Donald Trump e que a tarifa de ataque ao Pix apenas faz com que os brasileiros o amem – e a Lula – muito mais.

Na mesma medida da defesa do sistema de pagamentos está a responsabilização pelos ataques. E isso é imputado à família Bolsonaro e, mais especificamente, a Flávio e Eduardo Bolsonaro, que há bastante tempo se articulam para que os EUA imponham sanções econômicas ao Brasil. Nesse contexto, segundo o levantamento da Lupa, há duas narrativas que se impuseram nesses dias e que viralizaram:
- 1 – Trump quer atacar o Pix para beneficiar empresas de cartão de crédito e big techs norte-americanas
O mote dessas postagens é que o Pix incomoda interesses econômicos das empresas de cartão de crédito e das empresas de tecnologia. Como mostrou o levantamento da Lula, “as mensagens apontam que o governo norte-americano tenta forçar o Brasil a recuar em seu sistema próprio e que a investida contra o Pix é uma retaliação porque o modelo serve de precedente para que outros países emergentes construam redes públicas eficientes”.
- 2 – Família Bolsonaro é a responsável pelo ataque dos EUA ao Brasil
As mensagens com mais engajamento afirmam que o tarifaço (25%) imposto aos produtos brasileiros é resultado de articulações da família Bolsonaro com Donald Trump. Nesse sentido, ressalto dois pontos: o primeiro é que essas duas narrativas que viralizaram estão envoltas pelo eixo macronarrativo “O Pix é do Brasil”, porque é ele o mote principal articulador, é ele que dá o tom das reações, das mobilizações, das contrapartidas, das manifestações – e esse eixo é um potente construtor de imaginários sociodiscursivos. O segundo ponto é que outras narrativas, sob esse viés, vão surgir e se consolidar ao longo das semanas.
A despeito da maior ou menor viralização nas redes nestas semanas, o fato é que o tema “Pix” permanece e vai se manter com muita força mobilizadora e agregadora, ou seja, até mesmo quem não é favorável ao presidente Lula e ao PT entende que a defesa do sistema de pagamentos nacional – gratuito e universal – extrapola meras questões ideológicas ou partidárias e é algo que pertence aos brasileiros. Essa, sim, é uma percepção que não tem volta.



