Da Redação
Relatório reservado voltado à elite militar e à indústria de defesa russa, apresentado em reportagem reproduzida nesta quarta-feira, oferece uma janela incomum para as prioridades estratégicas de Moscou. Cruzamento com estudos independentes publicados em 2026 mostra uma transformação importante: a experiência ucraniana está empurrando a Rússia para uma combinação de guerra de atrito, campo de batalha “transparente”, sistemas não tripulados, inteligência artificial, ataques de precisão em massa e dissuasão nuclear e convencional integrada.
Uma reportagem publicada nesta quarta-feira, 9 de setembro, chama atenção para um documento pouco conhecido fora dos círculos especializados: o Russian Military Yearbook 2026, anuário analítico dirigido a oficiais superiores, integrantes dos órgãos de segurança e executivos da indústria de defesa russa. Diferentemente de documentos concebidos prioritariamente para divulgação pública, o anuário procura discutir planejamento militar, desenvolvimento tecnológico, indústria de defesa e prioridades estratégicas. A existência da publicação é verificável em referências acadêmicas e institucionais russas a edições anteriores, inclusive trabalhos do MGIMO que citam nominalmente o Russian Military Yearbook publicado com participação da Rosoboronexport.
O interesse do documento de 2026 está menos numa eventual revelação espetacular do que na possibilidade de observar como parte do establishment militar russo está interpretando um mundo transformado pela guerra da Ucrânia. E, quando suas teses são confrontadas com estudos independentes recentes sobre o pensamento militar russo, emerge um quadro coerente: Moscou está absorvendo as lições de quatro anos e meio de guerra e reorganizando sua concepção sobre como grandes conflitos serão travados nas próximas décadas.
Não significa que o anuário represente automaticamente uma ordem operacional do Kremlin ou um plano secreto do Estado-Maior russo. Essa distinção é indispensável. Um documento analítico destinado às elites de defesa pode refletir debates e prioridades importantes sem equivaler à doutrina oficialmente aprovada. Mas há razões para levá-lo a sério: vários dos fenômenos descritos aparecem simultaneamente em publicações militares russas e em pesquisas independentes que acompanham a transformação das Forças Armadas.
Um dos estudos mais abrangentes apareceu em fevereiro deste ano. O instituto sueco FOI analisou fontes militares russas publicadas entre 2021 e 2025 e concluiu que a guerra da Ucrânia funciona como uma “guerra de transição”, na qual conceitos herdados do período soviético e das reformas pós-soviéticas estão sendo confrontados com drones, vigilância permanente, sensores espaciais, armas de precisão e integração digital.
A grande questão russa passou a ser brutalmente simples: como movimentar grandes forças quando quase tudo pode ser visto?
O campo de batalha tornou-se transparente
A guerra da Ucrânia demonstrou que concentrações de tropas, depósitos, centros de comando, sistemas de artilharia e linhas logísticas podem ser detectados por uma combinação de satélites, drones, sensores, inteligência eletrônica e imagens comerciais. A informação circula cada vez mais rapidamente entre quem detecta um alvo e quem possui capacidade de atacá-lo.
Os russos chamam atenção crescente para aquilo que especialistas descrevem como “campo de batalha transparente”. Um estudo acadêmico sobre o pensamento militar russo já identificava essa questão como uma das principais lições conceituais da guerra. O FOI confirmou em 2026 que o problema passou ao centro das discussões russas sobre conflitos futuros.
Isso produz uma contradição militar importante. A guerra convencional historicamente depende da concentração de forças para romper posições inimigas. Mas concentrar centenas de veículos, soldados e peças de artilharia num ambiente permanentemente observado pode transformar essa concentração num alvo.
O NATO Defense College chegou a conclusão semelhante ao examinar textos estratégicos russos. Segundo estudo publicado em fevereiro, existe entre pensadores militares russos uma valorização renovada da guerra posicional e do atrito, justamente porque drones e sensores dificultam surpresa e grandes manobras. O problema que Moscou tenta resolver agora é como recuperar capacidade de manobra sem abandonar as vantagens da massa.
É aqui que drones, inteligência artificial, redes digitais e armas de precisão deixam de ser equipamentos adicionais e passam a integrar uma transformação mais profunda.
Da massa de fogo à “precisão em massa”
Durante décadas, a imagem das forças terrestres russas esteve associada ao emprego maciço de artilharia. A experiência ucraniana não eliminou essa tradição, mas está modificando sua lógica.
Um estudo do Royal United Services Institute publicado em 25 de agosto de 2026 identifica uma evolução particularmente importante: da concentração de poder de fogo para a “mass precision” — precisão em massa. A ideia combina quantidade com capacidade de atingir numerosos alvos de maneira relativamente precisa, utilizando diferentes famílias de armas e sistemas não tripulados.
A transformação pode ser observada na evolução dos drones russos. Análise do CSIS publicada em 4 de setembro mostra que o programa Geran, derivado originalmente do Shahed iraniano, deixou de funcionar simplesmente como reprodução de um projeto estrangeiro. Navegação, comunicações, propulsão, cargas e táticas estão sendo modificadas continuamente. Alterações improvisadas são testadas no campo de batalha; aquelas consideradas eficazes entram na produção, enquanto soluções malsucedidas são descartadas. O ciclo entre combate, avaliação, engenharia e fabricação pode ocorrer em semanas.
Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes da transformação militar em andamento: a fábrica começa a aproximar-se do campo de batalha como parte do próprio ciclo operacional.
Não se trata somente de produzir armas. Trata-se de transformar informação produzida no combate em alteração industrial rápida.
A guerra transforma o próprio sistema de comando
Outra consequência da Ucrânia está aparecendo na arquitetura de comando e controle russa.
Antes da guerra, Moscou buscava grandes sistemas automatizados e integrados. A experiência concreta mostrou os limites dessa ambição. Pesquisa do CSIS publicada em fevereiro concluiu que a Rússia passou a privilegiar soluções menores e específicas para problemas concretos do campo de batalha, em vez de apostar exclusivamente numa arquitetura digital gigantesca e universal.
É uma adaptação pragmática: desenvolver software para controlar determinada família de drones, integrar determinado sensor ou acelerar determinado circuito de ataque pode ser mais eficiente durante uma guerra do que esperar pela construção de uma rede perfeita.
Isso não significa que o processo russo seja uniforme ou particularmente eficiente em todos os níveis. Um estudo do RUSI publicado em julho identifica justamente uma contradição: flexibilidade tática coexistindo com rigidez operacional. Unidades e estruturas próximas ao combate podem aprender rapidamente, enquanto escalões superiores continuam submetidos a burocracia, centralização e dificuldades institucionais.
Portanto, a imagem de uma máquina militar russa que aprende automaticamente com cada erro seria tão enganosa quanto a imagem oposta de uma força incapaz de aprender.
O que a Ucrânia revela é uma organização militar submetida a uma gigantesca pressão evolutiva.
O Ártico aparece no horizonte estratégico
O Russian Military Yearbook 2026 também dedica atenção especial ao Ártico. Segundo a reportagem sobre o documento, estrategistas russos observam o aumento da atividade militar da OTAN na região e consideram a área uma possível futura zona de confronto.
Essa preocupação possui fundamento geopolítico concreto. A entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN alterou profundamente o ambiente estratégico do norte europeu. A fronteira terrestre entre Rússia e países da aliança aumentou, enquanto o Báltico e o extremo norte passaram a ocupar posição ainda mais importante no planejamento dos dois lados.
Publicações militares russas já demonstram essa preocupação. Análise recente do Foreign Policy Research Institute cita artigo do chefe do GRU, almirante Igor Kostyukov, publicado na revista Military Thought, no qual a Finlândia aparece como possível território para instalação de capacidades norte-americanas capazes de atingir objetivos no norte e no oeste da Rússia.
É importante distinguir percepção de ameaça de intenção comprovada. O fato de planejadores russos estudarem uma guerra no Ártico não significa que Moscou tenha decidido travá-la. Da mesma maneira, exercícios da OTAN na região não demonstram por si mesmos intenção de atacar a Rússia.
Mas planejamento militar trabalha justamente com contingências.
E o Ártico está deixando de ser periferia.
Mudanças climáticas, recursos naturais, rotas marítimas, instalações militares e a posição estratégica da Frota do Norte transformam a região num dos espaços mais sensíveis da competição entre Rússia e OTAN.
A guerra nuclear não desapareceu do planejamento
Talvez a conclusão mais grave seja justamente aquela que não envolve drones.
Enquanto sistemas não tripulados, inteligência artificial e armas convencionais de precisão avançam, a Rússia continua tratando suas forças nucleares como núcleo último de sua capacidade de dissuasão.
O FOI observa que a modernização nuclear permanece orientada para sobrevivência e flexibilidade. Ao mesmo tempo, publicações militares russas recentes mostram interesse crescente pela integração entre dissuasão nuclear e não nuclear.
Essa diferença é crucial.
Durante boa parte da Guerra Fria, imaginava-se uma fronteira relativamente clara entre guerra convencional e escalada nuclear. O pensamento contemporâneo trabalha cada vez mais com uma escada de capacidades: operações cibernéticas, guerra eletrônica, ataques convencionais de longo alcance, armas hipersônicas, sistemas estratégicos não nucleares e, no extremo, armas nucleares.
O comandante das Forças de Mísseis Estratégicos russas, Sergei Karakayev, escreveu em 2026 que sistemas convencionais estratégicos como o míssil Oreshnik poderiam desempenhar funções de dissuasão e desescalada antes do recurso às armas nucleares.
Isso não torna o ambiente necessariamente mais seguro. Uma quantidade maior de degraus entre paz e guerra nuclear pode oferecer alternativas ao emprego atômico, mas também torna mais complexa a interpretação das intenções do adversário.
Uma Rússia militarmente diferente está saindo da Ucrânia
Talvez seja essa a conclusão mais importante que emerge quando o anuário russo é confrontado com a literatura independente publicada em 2026.
Independentemente de como e quando terminar a guerra da Ucrânia, as Forças Armadas russas que sairão dela não serão as mesmas que entraram em fevereiro de 2022.
A mudança não significa necessariamente superioridade. A guerra revelou falhas graves de planejamento, comando, logística, inteligência e coordenação. Produziu enormes perdas humanas e materiais e submeteu a estrutura militar a uma pressão extraordinária.
Mas guerras também são laboratórios.
A Rússia acumulou uma experiência que poucas grandes potências possuem atualmente: anos consecutivos de combate convencional de alta intensidade contra um adversário apoiado por sistemas de inteligência, armamentos e tecnologias ocidentais.
Esse processo também está transformando sua elite militar. Pesquisa da CNA publicada em agosto mostra que a guerra provocou forte rotatividade nos comandos operacionais e alterou os mecanismos de promoção. Experiência de combate passou a influenciar carreiras, embora a liderança do Estado-Maior tenha permanecido muito mais estável. A própria CNA adverte que essa rotatividade pode tanto produzir uma geração de oficiais experientes em guerra quanto prejudicar eficiência e continuidade de comando.
O resultado, portanto, não é uma Rússia invencível nem uma Rússia militarmente paralisada.
É algo mais relevante: uma potência nuclear tentando converter quatro anos de guerra em uma nova arquitetura militar.
Drones baratos convivem com mísseis estratégicos. Inteligência artificial entra nos sistemas de comando. Sensores tornam o campo de batalha transparente. Ataques de precisão são empregados em escala industrial. Fábricas recebem retorno quase imediato da experiência de combate. Guerra eletrônica disputa o espectro eletromagnético. Satélites e reconhecimento alimentam cadeias de ataque cada vez menores. E as forças nucleares continuam funcionando como a camada final de dissuasão.
O Russian Military Yearbook 2026 é particularmente interessante porque ajuda a revelar como setores da própria elite de defesa russa organizam intelectualmente esse cenário. Mas sua importância aumenta quando suas linhas gerais encontram correspondência em pesquisas independentes do FOI, RUSI, CNA e CSIS.
A transformação que aparece desse cruzamento é maior do que uma nova arma ou uma nova doutrina.
A Ucrânia está funcionando como um enorme processo de seleção tecnológica e militar. Algumas concepções anteriores a 2022 fracassaram; outras sobreviveram; outras foram reconstruídas no próprio campo de batalha. A pergunta que hoje ocupa os planejadores russos — e que provavelmente ocupará todos os grandes Estados-Maiores — já não é simplesmente quantos tanques, aviões ou soldados uma potência possui.
É quem consegue enxergar primeiro, compreender primeiro, decidir primeiro, produzir primeiro e atingir primeiro num campo de batalha em que esconder-se se tornou extraordinariamente difícil.
Essa pode ser uma das principais heranças militares da guerra da Ucrânia para o restante do século XXI.






