Professor defende que a esquerda reconheça o empreendedorismo existente nas periferias e formule políticas de trabalho e renda conectadas à realidade material

Professor defende políticas de trabalho e renda conectadas à realidade material das periferias e critica setores da esquerda que tratam o empreendedorismo como expressão exclusiva do capitalismo

Da Redação

As políticas sociais destinadas às periferias precisam considerar como as famílias trabalham, produzem renda e garantem a própria sobrevivência. A avaliação foi feita pelo professor Osmar de Sá Ponte durante o programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, em uma conversa sobre projetos sociais e a atuação do poder público nas comunidades. A edição contou com a participação do vereador e candidato a deputado estadual Luiz Sérgio.

Ao analisar o crescimento da economia popular, Osmar criticou abordagens que discutem educação, saúde e assistência sem enfrentar a realidade material das famílias. Segundo ele, assegurar serviços públicos é indispensável, mas essas políticas ficam incompletas quando não são acompanhadas por oportunidades de trabalho, renda e organização econômica.

“Se você não resolver como as pessoas vivem, se sustentam e geram oportunidades de renda, tudo mais vai parecer que está faltando”, afirmou.

O professor defendeu que governos e universidades reconheçam a capacidade produtiva existente nas periferias. Pequenos comércios, oficinas, serviços de alimentação, atividades culturais e trabalhos realizados dentro das próprias residências movimentam valores expressivos, embora permaneçam distantes dos programas tradicionais de desenvolvimento econômico.

A periferia já produz sua própria economia

Para Osmar, a economia das periferias não está esperando que o Estado formule uma teoria adequada para começar a funcionar. Diante da escassez de empregos formais, moradores criam atividades que atendem às necessidades locais e asseguram alguma renda às famílias.

“A periferia está dando o jeito que é possível dar na sua vida. Ela não está refém de um mundo que não tem capacidade de entendê-la”, declarou.

O professor mencionou o pequeno estabelecimento aberto na frente de casa, a pizzaria, o serviço de manutenção de celulares e as atividades culturais como exemplos dessa capacidade produtiva. Essas experiências não devem ser romantizadas como demonstrações de que as famílias conseguem sobreviver sem políticas públicas. Ao contrário, revelam que existe uma base econômica concreta que precisa ser reconhecida e apoiada.

Osmar questionou quais programas governamentais dialogam atualmente com essa realidade. Embora governos promovam ações de crédito e qualificação, muitas iniciativas ainda são formuladas sem considerar as condições específicas dos territórios periféricos, a informalidade, a dificuldade de acesso à tecnologia e a ausência de canais adequados de comercialização.

“Qual é a política de desenvolvimento econômico que dialoga com a realidade das periferias?”, perguntou.

Na avaliação do professor, a falta de resposta para essa questão também abre espaço para que grupos criminosos exerçam controle sobre atividades econômicas e serviços locais. Quando instituições financeiras, órgãos públicos e programas de apoio não chegam a determinados territórios, outras formas de regulação ocupam esse espaço.

Empreendedorismo não pertence ao capitalismo

Osmar também criticou a resistência de setores da esquerda à utilização do conceito de empreendedorismo. Segundo ele, a palavra foi associada quase exclusivamente ao discurso empresarial e à responsabilização individual pela pobreza, mas o ato de empreender é mais amplo e pode assumir formas coletivas, comunitárias e solidárias.

“Empreender é muito mais amplo do que simplesmente um jogo de vender e comprar. A cultura e a organização política são atos de empreender. A comunicação é outro ato de empreender. E há uma parte do empreendimento que é econômica”, explicou.

Para o professor, nenhuma sociedade consegue dispensar a produção de bens, serviços e riqueza. Mesmo uma organização econômica orientada por princípios socialistas precisaria planejar a produção, distribuir tarefas e garantir os meios materiais necessários à vida.

“Nós não temos como viver sem economia. E não é uma coisa do capitalismo. Qualquer país do mundo, ainda que socialista, vai ter que empreender e produzir algo para viver”, afirmou.

A crítica de Osmar não significa uma adesão ao discurso segundo o qual todas as pessoas devem administrar a própria vida como empresas. Seu argumento se concentra na necessidade de compreender as atividades econômicas realmente existentes e criar políticas que permitam sua organização em condições mais seguras.

Isso envolve apoiar microempreendedores, cooperativas e pequenos negócios, além de ampliar a oferta de crédito, formação profissional e tecnologia. O professor também defendeu a criação de oportunidades formais de trabalho, especialmente para os jovens.

A experiência das incubadoras de cooperativas

Durante a entrevista, Osmar recordou sua participação na criação da Incubadora de Cooperativas da Universidade Federal do Ceará, na década de 1990. O projeto buscava gerar trabalho e renda para pessoas excluídas do mercado formal e das oportunidades tradicionais de empreendedorismo.

A iniciativa foi desenvolvida em diálogo com o economista Paul Singer, um dos principais formuladores das políticas de economia solidária no Brasil. Segundo Osmar, a incubadora da UFC esteve entre as primeiras experiências universitárias desse tipo no país e integrou uma rede que chegou a reunir mais de 60 projetos.

O professor contou que formulou o conceito de “empreendedorismo cooperativo” para explicar que a produção coletiva depende da participação e da capacidade de cada integrante. Naquele período, o uso da palavra empreendedorismo provocou resistência entre pesquisadores e militantes ligados à economia solidária.

“Quando usei pela primeira vez esse conceito, fui praticamente apedrejado porque o empreendedorismo era considerado uma coisa burguesa e capitalista”, relatou.

Osmar argumentou que não existe oposição automática entre iniciativa individual e trabalho coletivo. Em uma cooperativa, o resultado depende do desempenho de cada pessoa e da forma como essas contribuições são organizadas em benefício do conjunto.

“A cooperativa não produz no abstrato. Quem produz é cada indivíduo, com as tarefas que precisa desempenhar, para que o todo mostre um resultado favorável”, explicou.

Para ele, conceitos como solidariedade e coletividade perdem utilidade quando são separados das necessidades materiais dos trabalhadores. Uma cooperativa precisa produzir, vender, gerar receita e remunerar seus integrantes. Sem sustentabilidade econômica, a organização não consegue garantir renda nem manter suas atividades.

Economia solidária precisa gerar riqueza

O professor utilizou a própria expressão “economia solidária” para mostrar o problema de um debate excessivamente abstrato. Segundo ele, a economia é o elemento central, enquanto a solidariedade caracteriza a maneira como a produção e a distribuição são organizadas.

“Se você tem economia solidária, tem um substantivo e um adjetivo. Sem o substantivo, o adjetivo não tem sentido. Qual é o substantivo? É a economia”, afirmou.

Na avaliação de Osmar, uma organização solidária precisa ser capaz de gerar riqueza. Somente a partir da produção concreta será possível distribuir resultados, melhorar a renda dos trabalhadores e manter a atividade coletiva.

“Se ela não gerar riqueza, e se as pessoas coletivamente não tiverem capacidade de gerar riqueza, não tem como dividir. Vai dividir o quê? A pobreza ou aquilo que não deu resultado?”, questionou.

O professor avaliou que parte do movimento de economia solidária perdeu capacidade de expansão porque tratou questões econômicas como problemas ideológicos. A resistência a conceitos relacionados à produtividade, gestão e empreendedorismo teria limitado a consolidação de algumas experiências.

Para Osmar, a forma coletiva de organização precisa ser preservada, mas não pode ignorar custos, qualidade, planejamento e comercialização. Esses elementos determinam se uma cooperativa conseguirá garantir condições dignas aos seus integrantes.

O risco de uma esquerda distante da vida real

Osmar fez uma crítica direta a setores políticos que rejeitam o empreendedorismo sem apresentar alternativas concretas para milhões de pessoas que não encontram vagas no mercado formal.

“Ou fazemos isso por grupos organizados, individualmente, como micro e pequena empresa, ou vamos ficar com um discurso de esquerda totalmente alienado, dizendo que isso é coisa de capitalista e que não podemos apoiar”, afirmou.

O professor perguntou qual seria a alternativa oferecida às famílias que dependem de pequenos negócios para sobreviver. Em um mercado incapaz de gerar empregos em quantidade suficiente, impedir ou desestimular essas iniciativas significaria desconsiderar as necessidades mais imediatas de trabalhadores e jovens.

“Qual é o outro meio dessas pessoas viverem, se não for abrindo um pequeno negócio? A sociedade já não gera emprego suficiente há muito tempo”, observou.

A formulação de políticas públicas, segundo Osmar, exige uma leitura precisa das condições presentes. Projetos baseados apenas em expectativas sobre como a sociedade deveria funcionar correm o risco de não alcançar quem precisa de apoio.

“É necessário que a esquerda, e qualquer grupo que queira tratar de políticas públicas, perceba o mundo como ele é, e não do jeito que deseja que ele fosse”, declarou.

O professor sustentou que a vida cotidiana continuará produzindo suas próprias soluções quando os partidos, governos e movimentos sociais não oferecerem respostas. Essas soluções, contudo, podem surgir em condições precárias, sem proteção social e submetidas ao controle de grupos que dominam determinados territórios.

Juventude sem garantia de emprego

A ausência de perspectivas para a juventude foi apontada como uma das consequências mais graves do atual modelo econômico. Osmar comparou as expectativas de sua geração com a realidade encontrada pelos jovens que hoje ingressam em universidades e cursos profissionalizantes.

“Na minha época, você tinha um sonho: entrar na universidade, terminar e ter um emprego garantido para a vida toda. O que esse jovem pensa hoje? Ele não tem esse emprego e precisa dar um jeito na vida”, afirmou.

Mesmo estudantes universitários encontram dificuldades para conseguir estágio e iniciar uma trajetória profissional. Muitos concluem a formação sem oportunidades na área escolhida, enquanto outros abandonam os estudos para realizar atividades que ofereçam renda imediata.

Para Osmar, essa instabilidade ajuda a explicar o avanço da ansiedade entre os jovens. A insegurança não pode ser interpretada somente como uma questão individual ou comportamental. Ela está relacionada à dificuldade de projetar o futuro e encontrar possibilidades concretas de autonomia.

O apoio ao empreendedorismo não deve servir como desculpa para que o Estado abandone a criação de empregos ou transfira toda a responsabilidade aos indivíduos. A proposta defendida pelo professor combina trabalho formal, pequenos negócios, cooperativismo e políticas de qualificação capazes de atender diferentes realidades.

Universidade conectada às necessidades sociais

A experiência da incubadora de cooperativas também levou Osmar a defender uma universidade mais próxima das necessidades econômicas da sociedade. Ele recordou que, durante a criação do projeto na UFC, houve questionamentos sobre a participação da instituição na geração de trabalho e na organização de empreendimentos coletivos.

“A universidade ficou atônita, porque diziam que não era atribuição da UFC gerar oportunidade, emprego, trabalho ou empresas coletivas. Nós queremos uma universidade que seja realista, capaz de ler o que a população precisa”, afirmou.

Segundo o professor, a universidade pode oferecer conhecimento técnico, apoio tecnológico e formação profissional para cooperativas, microempresas e negócios de diferentes portes. Essa atuação também beneficia os estudantes, que encontram espaços para desenvolver pesquisas, realizar estágios e aplicar o conhecimento adquirido.

Osmar defendeu que essa relação não fique restrita aos projetos de assistência. Instituições públicas de ensino podem contribuir com soluções para problemas de gestão, produção, comunicação e inovação encontrados por trabalhadores e empreendedores.

“O estudante, às vezes, passa anos na universidade e não tem onde estagiar. Ele termina o curso e continua sem conseguir uma oportunidade”, observou.

Políticas públicas para a economia que já existe

A fala de Osmar de Sá Ponte chama atenção para uma lacuna recorrente no debate sobre as periferias. Projetos de assistência são fundamentais para responder às necessidades imediatas, mas não substituem uma política de desenvolvimento econômico capaz de garantir autonomia e perspectiva de futuro.

Esse desenvolvimento precisa partir das atividades que já existem nos territórios, reconhecendo seus limites e suas possibilidades. O desafio não consiste apenas em incentivar novos negócios, mas em melhorar as condições dos que já funcionam, facilitar o acesso ao crédito e impedir que trabalhadores permaneçam indefinidamente sem proteção previdenciária e trabalhista.

Iniciativas coletivas também necessitam de acompanhamento técnico e canais permanentes de comercialização. Sem essas condições, cooperativas podem depender de editais temporários e desaparecer quando o financiamento termina.

A economia popular não pode ser tratada como algo residual, nem como solução improvisada para uma parcela pequena da sociedade. Ela sustenta milhões de famílias e movimenta parte relevante da renda nos bairros. Para Osmar, reconhecer essa realidade é o primeiro passo para formular políticas que não permaneçam restritas ao discurso.

“Nós vamos ficar prisioneiros de ideias e ideologias perfeitas, que só fazem sentido na cabeça de quem as criou, porque a vida vai procurar uma solução real para ela”, concluiu.

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