Da Redação
A relação entre religião e política esteve no centro da edição de segunda-feira, 21 de setembro, do programa Café com Democracia, da Atitude Popular. A discussão partiu de uma declaração atribuída ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, sobre o uso da religião no debate político. O professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, foi entrevistado pelo âncora Luiz Regadas e apresentou uma leitura histórica sobre a presença da fé nas disputas de poder.
“Em nome de Deus já se fez muita patifaria”, afirmou Gilmar Mendes, frase que serviu como ponto de partida para a conversa. Ao longo do programa, Nelson Campos procurou relacionar o uso político da religião a diferentes momentos históricos, passando pelas sociedades antigas, pela formação do cristianismo, pela Igreja Católica medieval, pela Reforma Protestante e pelas disputas políticas contemporâneas.
Logo no início, o professor defendeu que a religião deve ser compreendida como um campo de crenças que varia de acordo com as sociedades e os períodos históricos. Ele citou uma formulação atribuída a Xenófanes para discutir a maneira como diferentes povos construíram suas representações sobre o divino.
Campos destacou que, em sua perspectiva, a existência de diferentes tradições religiosas impede que uma determinada crença seja apresentada como verdade universal incontestável. “Você crê no que você quiser ou pode não crer também. Você pode ser agnóstico, pode ser ateu, fica aí por conta da cabeça de cada um”, afirmou.
A partir desse ponto, o entrevistado passou a discutir o pensamento mítico e a relação entre fé e comprovação. Segundo ele, a crença religiosa não funciona segundo os mesmos critérios utilizados pela investigação científica. “Quando a pessoa crê, ela não tá em busca da verdade, ela tá defendendo a sua fé. E fé é você acreditar em algo que não pode ser comprovado”, disse.
O professor também recorreu à história das religiões para explicar como crenças e estruturas políticas estiveram relacionadas ao longo dos séculos. Ao abordar a Antiguidade, lembrou que diferentes povos adotavam sistemas politeístas e que os romanos incorporaram elementos da mitologia grega depois da conquista da Grécia.
Na análise de Campos, a religião também pode cumprir funções de organização social e política. Ele chamou atenção para o modo como determinadas instituições religiosas passaram a reivindicar autoridade sobre a interpretação do mundo e sobre o comportamento das pessoas.
Ao abordar a Idade Média, o professor falou sobre o pensamento teocêntrico e sobre a influência da Igreja Católica na sociedade europeia. Ele mencionou a Inquisição e os conflitos em torno da autoridade religiosa, além dos cismas que dividiram o cristianismo.
A Reforma Protestante também foi utilizada como exemplo para discutir a relação entre religião e interesses econômicos e políticos. Campos mencionou Martinho Lutero e as 95 teses publicadas em 1517, além da disputa envolvendo as indulgências e o apoio recebido por setores da nobreza alemã.
Segundo o professor, a expansão do protestantismo não pode ser compreendida apenas como uma questão teológica. Ele associou o processo às disputas por patrimônio e poder entre setores da sociedade europeia. Também destacou o papel do calvinismo na formação de uma ética associada à riqueza e ao desenvolvimento comercial em determinados países.
A discussão histórica foi conectada pelo entrevistado ao cenário político brasileiro. Campos criticou o uso de referências religiosas para legitimar posições políticas e questionou a apropriação de símbolos e discursos cristãos por grupos que, segundo sua análise, defendem posições incompatíveis com princípios atribuídos ao cristianismo.
Ao abordar o bolsonarismo, o professor fez críticas a Jair Bolsonaro e a seus apoiadores. Ele também mencionou a indicação de André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal e a justificativa de que o ministro seria “terrivelmente evangélico”. A partir disso, questionou o peso que a identidade religiosa deve ter na escolha de integrantes de instituições do Estado.
Campos também relacionou o discurso religioso à defesa de determinadas posições sobre segurança pública, tortura e violência. Ao fazer essa discussão, lembrou declarações públicas de Jair Bolsonaro sobre tortura e sua atuação política.
A entrevista avançou então para denúncias e suspeitas envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro, tema que o programa tratou como parte de uma discussão mais ampla sobre as relações entre poder econômico, política e instituições públicas.
Durante a conversa, Campos citou políticos e autoridades que, segundo ele, aparecem em informações divulgadas pela imprensa e em investigações relacionadas ao caso. Como as alegações mencionadas no programa envolvem pessoas específicas e acusações de corrupção, ele próprio ressaltou a necessidade de distinguir aquilo que foi efetivamente comprovado daquilo que permanece no campo das suspeitas.
Ao discutir o tema, o professor afirmou que não caberia a ele determinar quem deveria ser condenado. “Eu não posso dizer que quem tá quem deveria ser condenado ou não”, declarou, ao comentar informações relacionadas a autoridades públicas.
A entrevista também passou pelo debate eleitoral. Campos criticou declarações antecipadas sobre possíveis fraudes nas eleições e associou o tema às disputas políticas que antecederam e sucederam as eleições de 2022. Ele mencionou a tentativa de golpe e os processos envolvendo integrantes do governo Bolsonaro e militares.
O professor afirmou que a tentativa de ruptura institucional deveria ser analisada a partir dos fatos e documentos produzidos durante as investigações. Também citou as investigações sobre planos para assassinar o então presidente eleito Lula, o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
Outro eixo da entrevista foi a utilização da palavra “comunismo” no debate político brasileiro. Campos sustentou que o termo é frequentemente utilizado sem que aqueles que o empregam demonstrem conhecimento sobre seu significado histórico ou teórico.
Ele também procurou diferenciar comunismo enquanto teoria política das experiências históricas de governos que se reivindicaram comunistas. Segundo sua explicação, a ideia de uma sociedade comunista pertence ao campo teórico e não teria sido realizada integralmente em nenhum país.
A religião voltou ao centro da conversa quando Campos abordou a conhecida formulação de Karl Marx sobre a religião como “ópio do povo”. O professor explicou que, em sua interpretação, a expressão não deve ser entendida simplesmente como uma condenação da religião, mas como uma referência ao papel de consolo que a crença pode exercer diante do sofrimento.
“Eu sou da família mais religiosa que existe por aqui”, afirmou Campos em outro momento. Ele contou que teve familiares ligados à Igreja Católica e disse que continua lendo a Bíblia, mas procura fazê-lo a partir de uma perspectiva histórica e crítica.
A afirmação serviu para diferenciar crítica à utilização política da religião de uma rejeição das crenças religiosas. Para Campos, o problema central está na transformação da fé em instrumento de disputa política ou de legitimação de interesses econômicos.
O professor também estabeleceu uma distinção entre judaísmo e sionismo. Na entrevista, afirmou que judaísmo corresponde a uma religião, enquanto o sionismo se refere a uma corrente política. A partir dessa diferenciação, criticou a associação automática entre defesa do Estado de Israel e identidade cristã.
Na parte final do programa, Luiz Regadas apresentou questionamentos sobre integrantes do Supremo Tribunal Federal e possíveis relações com o caso envolvendo Daniel Vorcaro. Nelson Campos comentou informações que, segundo ele, foram divulgadas pela imprensa e afirmou que há diferentes alegações envolvendo autoridades.
Ao tratar de Alexandre de Moraes, Campos mencionou mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e registrou que o ministro negou ser o destinatário das mensagens citadas. O professor destacou que, diante de situações desse tipo, é necessário considerar as versões apresentadas e não antecipar uma condenação.
A conversa terminou com um retorno ao tema central: o uso da religião no debate público. Para Nelson Campos, compreender historicamente a formação das instituições religiosas e suas relações com estruturas econômicas e políticas é fundamental para analisar o papel da fé na política contemporânea.
A edição do Café com Democracia foi apresentada por Luiz Regadas, com participação do professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC. O programa integra a programação da Atitude Popular e é transmitido de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 8h.
Referências
Bíblia, obra mencionada pelo professor Nelson Campos durante a entrevista.
Karl Marx, autor citado na discussão sobre a religião como “ópio do povo”.
Xenófanes, filósofo grego mencionado na discussão sobre a construção das representações humanas sobre os deuses.
Martinho Lutero, teólogo e personagem central da discussão sobre a Reforma Protestante e as 95 teses de 1517.
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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