Direção estadual afirma que João Paulo Macarrão cometeu infidelidade partidária ao declarar voto no adversário de Elmano e diz que adotará rigor contra filiados que descumprirem decisões eleitorais da legenda
Da Redação
O Diretório Estadual do PT no Ceará anunciou nesta quarta-feira (19) que vai desfiliar o vice-prefeito de Redenção, João Paulo Macarrão, depois que o político declarou apoio à candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Estado. Para a direção petista, a manifestação contraria formalmente a posição partidária, que apoia a reeleição do governador Elmano de Freitas (PT).
As informações foram divulgadas inicialmente pelo jornal Opinião CE. Em nota, o PT afirmou que será “rigoroso com casos de infidelidade partidária” durante as eleições de 2026 e indicou que a decisão sobre Macarrão também funciona como orientação para outros filiados diante das disputas locais por apoio.
Vice-prefeito declarou apoio a Ciro
João Paulo Macarrão anunciou apoio a Ciro apesar de continuar filiado ao partido que tem Elmano como candidato ao Governo do Ceará. A declaração provocou reação da direção estadual poucos dias depois do início oficial da campanha.
A direção petista considera incompatível a permanência no partido com o apoio público ao principal adversário de Elmano. O PT também ressaltou que a resolução nacional da legenda determina apoio às candidaturas escolhidas oficialmente pelas instâncias partidárias.
A disputa cearense aumenta a importância dessas manifestações individuais. Ciro e Elmano ocupam as duas primeiras posições nas pesquisas e começaram a campanha tentando consolidar suas bases municipais, em uma eleição marcada por alianças que atravessam antigas divisões políticas.
PT promete rigor com novos casos
A manifestação sobre Macarrão sinaliza que o partido pretende acompanhar declarações semelhantes em outros municípios. Prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e lideranças locais possuem influência própria e nem sempre seguem integralmente as alianças definidas pelas direções estaduais.
No Ceará, essa situação se tornou especialmente delicada porque Ciro conseguiu reunir em sua coligação setores partidários que nacionalmente mantêm relações com Lula ou participam de outras composições políticas. O tucano também recebe apoio do PL, ampliando a distância entre sua candidatura e o campo político atualmente organizado em torno do governo estadual.
Ao anunciar a saída de Macarrão, o PT estabelece um limite para seus próprios filiados: divergências internas podem existir, mas o apoio eleitoral público ao candidato que enfrenta Elmano será tratado como infidelidade partidária.
Ciro lidera pesquisas e disputa apoios municipais
A movimentação ocorre em um momento favorável a Ciro nas pesquisas. Datafolha divulgado na semana passada mostrou o candidato do PSDB com 52% das intenções de voto, diante de 33% de Elmano. Outro levantamento, realizado pela AtlasIntel para a Focus Poder, registrou Ciro com 49,3% e Elmano com 44,6%.
As metodologias, períodos de coleta e margens de erro são diferentes, portanto os percentuais não devem ser comparados diretamente. Os dois levantamentos, entretanto, colocaram Ciro numericamente à frente do governador no início da campanha oficial.
Esse cenário torna a disputa por lideranças municipais particularmente relevante. Elmano busca associar sua candidatura ao Presidente Lula e consolidar a estrutura dos partidos governistas, enquanto Ciro tenta ampliar apoios locais para além das legendas formalmente reunidas em sua coligação.
Alianças de 2026 embaralham fronteiras partidárias no Ceará
A eleição cearense produziu uma composição incomum de forças que estiveram juntas ou em campos diferentes nos últimos anos. Ciro, atualmente no PSDB, construiu sua candidatura com apoio de grupos de centro e direita, enquanto Elmano reúne PT, PSD, PSB e outras legendas em torno de sua reeleição.
A própria família Ferreira Gomes está dividida. Cid Gomes disputa a reeleição ao Senado pela coligação de Elmano e participa de atos em defesa da reeleição de Lula. Ivo Gomes, por outro lado, declarou voto em Lula para presidente e Ciro para governador, demonstrando que as fronteiras da disputa estadual não reproduzem integralmente a eleição nacional.
Para o PT, porém, existe uma diferença entre aliados externos fazerem escolhas distintas e um filiado trabalhar pela candidatura adversária. A nota sobre João Paulo Macarrão estabelece como a direção estadual pretende tratar essa segunda situação durante a campanha: apoio público a Ciro será considerado infidelidade partidária e poderá resultar em desligamento da legenda.
[16:22, 19/08/2026] Sara Goes: # ICMBio libera 89% da APA da Chapada do Araripe para atividades econômicas e comunidades temem avanço do agronegócio
Plano de manejo permite agricultura, pecuária e outras atividades em cerca de 914 mil hectares; representantes de comunidades afirmam que salvaguardas discutidas durante elaboração do documento ficaram fora da versão final
Da Redação
Quase 30 anos depois da criação da Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aprovou o primeiro plano de manejo da unidade. O zoneamento admite atividades econômicas, incluindo agricultura e pecuária, em 89% de seu território, aproximadamente 914 mil hectares, enquanto estabelece diferentes graus de proteção para áreas consideradas ambientalmente mais sensíveis.
As informações foram publicadas nesta quarta-feira (19) pelo O POVO. O novo plano abriu uma disputa sobre o futuro da Chapada. Representantes do setor agropecuário consideram que as regras oferecem segurança jurídica para novos investimentos, enquanto comunidades locais temem que a expansão de grandes empreendimentos aumente a pressão sobre a vegetação, os recursos hídricos e atividades tradicionais.
Plano chega quase três décadas depois da criação da APA
Criada em 1997, a APA da Chapada do Araripe abrange territórios do Ceará, Pernambuco e Piauí e possui mais de 1 milhão de hectares. A região reúne diferentes formações vegetais e possui importância ambiental, hídrica, cultural e econômica para os municípios de seu entorno.
Uma Área de Proteção Ambiental pertence à categoria de unidade de conservação de uso sustentável. Isso significa que propriedades privadas e atividades econômicas podem existir dentro de seus limites, desde que submetidas às regras ambientais e ao zoneamento estabelecido para a unidade.
A aprovação do plano de manejo procura definir quais usos são permitidos e quais restrições precisam ser observadas em cada parte da APA. A ausência desse instrumento havia se prolongado por quase três décadas.
Atividades econômicas poderão ocupar 89% da área
O plano divide a APA em seis zonas de manejo. Cerca de 89% do território admite atividades econômicas sob diferentes condições e restrições ambientais.
A autorização não representa uma liberação irrestrita para desmatamento ou agricultura intensiva. O plano estabelece proibições válidas para toda a APA, entre elas o desmatamento com uso de correntões, o cultivo de organismos geneticamente modificados e a pulverização aérea de agrotóxicos.
A Zona de Uso Restrito, destinada à proteção mais rigorosa de nascentes, encostas e áreas relacionadas ao hábitat do soldadinho-do-araripe, corresponde a uma parcela pequena do território. A ave existe exclusivamente na região e está ameaçada de extinção.
Agronegócio projeta ocupar até 200 mil hectares
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará recebeu o plano como uma oportunidade para ampliar a produção agropecuária no Cariri. O presidente da entidade, Amílcar Silveira, afirmou ao O POVO que o novo zoneamento oferece maior segurança jurídica aos produtores.
A projeção apresentada pelo setor é de utilização de aproximadamente 200 mil hectares para produção agrícola, incluindo frutas, legumes, verduras e culturas como o café. As condições de altitude e temperatura da Chapada são consideradas favoráveis à produção de determinados alimentos de maior valor agregado.
A Faec também pretende discutir alterações em algumas restrições. Entre os pontos questionados pela entidade estão justamente a proibição da pulverização aérea de defensivos e a vedação ao cultivo de organismos geneticamente modificados.
Comunidades questionam versão final do plano
Representantes das comunidades que participaram das discussões sobre o plano apresentam uma avaliação diferente. Um integrante do conselho consultivo da APA, ouvido pelo O POVO sob condição de anonimato por relatar ameaças, afirmou que algumas salvaguardas discutidas durante a elaboração não permaneceram no documento aprovado.
Entre elas estariam restrições às grandes monoculturas e uma proposta de ampliação para 35% da reserva legal. Esses dispositivos ficaram fora da versão final.
Há também preocupação com a aquisição de grandes extensões de terra por grupos econômicos interessados em projetos agropecuários e energéticos. Para as comunidades, a expansão desses empreendimentos pode afetar a agricultura familiar, o extrativismo e outras formas tradicionais de utilização do território.
Produtos como pequi, fava d’anta e frutos nativos fazem parte da economia local. A ocupação da Chapada também está relacionada a comunidades tradicionais e manifestações culturais que dependem da preservação do território.
Desmatamento já pressiona a Chapada
O debate ocorre em uma região que já enfrenta problemas ambientais. Dados do MapBiomas citados pelo O POVO colocam a APA da Chapada do Araripe entre as unidades de conservação brasileiras atingidas pelo desmatamento.
O próprio ICMBio informou anteriormente ter intensificado operações contra desmatamento irregular, queimadas, caça e degradação do solo. Entre janeiro e maio de 2025, foram registrados 125 autos de infração, mais de R$ 6,6 milhões em multas e aproximadamente 2,3 mil hectares de áreas degradadas embargadas.
O Ministério Público Federal também já havia apontado problemas relacionados ao fracionamento irregular de terras, expansão urbana desordenada e aumento da demanda por água, energia e saneamento dentro da APA.
Nascentes estão entre os pontos mais sensíveis
A questão hídrica ocupa posição importante nessa discussão. A Chapada do Araripe possui nascentes que abastecem comunidades e municípios do Cariri, enquanto suas áreas de mata úmida são fundamentais para espécies endêmicas.
Entre elas está o soldadinho-do-araripe, cuja ocorrência conhecida está concentrada nas florestas úmidas associadas às fontes da região. A redução ou alteração desses ambientes representa uma ameaça direta à sobrevivência da espécie.
O novo plano estabelece regras específicas para áreas consideradas sensíveis. A discussão agora se concentra sobre a capacidade dessas restrições de compatibilizar a preservação ambiental com a perspectiva de expansão agrícola.
Depois de quase três décadas sem um plano de manejo, a APA passa a ter regras próprias para organizar a ocupação de seu território. A aplicação dessas normas e eventuais mudanças reivindicadas pelo setor produtivo deverão definir quanto espaço haverá para a expansão do agronegócio e quais garantias serão mantidas para as comunidades e os ecossistemas da Chapada do Araripe.





