Bancários da Caixa iniciam paralisação nacional por tempo indeterminado após rejeitarem proposta da empresa e cobrarem melhores condições de trabalho, proteção à saúde e novas contratações
Da Redação
Empregados da Caixa Econômica Federal iniciam nesta quinta-feira (10) uma greve nacional por tempo indeterminado. A paralisação foi aprovada após a rejeição da proposta apresentada pela direção do banco e ocorre em meio às denúncias de adoecimento da categoria, aumento dos custos do plano de saúde, cobrança excessiva de metas e redução do quadro de funcionários.
As informações foram apresentadas por Tulio Menezes, empregado da Caixa, secretário de Formação Sindical do Sindicato dos Bancários do Ceará e diretor da Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal no Ceará, durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. A edição foi conduzida pela jornalista Sara Goes e contou com os comentários de Luciano Simplício, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Ceará.
Segundo Tulio, a greve é resultado de uma insatisfação acumulada ao longo dos últimos anos. Praticamente todos os sindicatos que realizaram assembleias pelo país rejeitaram a proposta da Caixa, demonstrando que o descontentamento não está restrito a uma região ou a um grupo específico dentro da instituição.
“Apenas um sindicato no Brasil inteiro não rejeitou a proposta. Os trabalhadores da Caixa estão numa situação de rejeição total ao que foi apresentado”, afirmou.
A categoria ainda participaria de uma rodada de negociação com a direção do banco antes do início da paralisação. Tulio explicou, porém, que uma eventual proposta apresentada na mesa não cancela automaticamente a greve. Somente novas assembleias podem modificar a decisão tomada pelos empregados.
“A greve está confirmada. É uma greve nacional na Caixa. Enquanto não houver uma proposta que possa nos tirar da paralisação, a orientação é manter o movimento”, explicou.
Greve não tem prazo para terminar
Tulio esclareceu que a mobilização não foi convocada apenas para um dia. A paralisação seguirá por tempo indeterminado até que a empresa apresente uma resposta considerada adequada pelos trabalhadores.
“Não é uma greve de um dia. A greve é por tempo indeterminado”, ressaltou.
No Ceará, o Sindicato dos Bancários convocou uma concentração para as 10 horas desta quinta-feira, diante do Edifício Sede 7 da Caixa, na Rua Sena Madureira, em Fortaleza. O ato deverá reunir trabalhadores para acompanhar as negociações, dialogar com os empregados que ainda não aderiram e informar a população sobre as razões da paralisação.
Tulio destacou que o resultado da greve depende da participação da categoria. Uma mobilização ampla aumenta a pressão sobre a direção da Caixa e pode reduzir o tempo necessário para alcançar um acordo.
“Quanto mais forte a greve, mais rápida será a resposta. A gente precisa fazer essa pressão para resolver a situação o mais rápido possível”, declarou.
Os empregados devem acompanhar os canais oficiais do Sindicato dos Bancários do Ceará para receber informações sobre as negociações e as próximas atividades.
Insatisfação começou antes do atual governo
Na avaliação de Tulio, as causas da greve remontam ao governo de Michel Temer, quando começaram mudanças destinadas, segundo ele, a preparar a Caixa para uma possível privatização.
O dirigente citou alterações no custeio do plano de saúde e no estatuto do banco. Uma das medidas limitou a participação da empresa nas despesas com o Saúde Caixa a 6,5% da folha de pagamento.
Tulio considera que o estabelecimento desse teto fazia parte de uma tentativa de calcular os compromissos futuros da instituição com os empregados ativos e aposentados. Com a limitação, uma parcela maior dos custos passou a ser transferida para os beneficiários.
“Foi a partir do golpe contra Dilma que Temer começou a tentativa de retirada de direitos e de preparação da Caixa para uma privatização”, afirmou.
O processo se aprofundou durante o governo de Jair Bolsonaro, quando Pedro Guimarães presidia a Caixa. O período foi marcado por denúncias de assédio sexual e moral e pela utilização da instituição dentro do projeto de venda de ativos públicos.
Segundo Tulio, as condições se tornaram ainda mais difíceis durante a pandemia de Covid-19. Os empregados da Caixa tiveram papel central no pagamento do auxílio emergencial e no atendimento a milhões de pessoas, muitas vezes expostos ao risco de contaminação.
“As pessoas precisavam atender ao público sem proteção suficiente, pagar o auxílio emergencial e ainda lidar com o medo de morrer ou levar o vírus para casa”, recordou.
Os efeitos desse período ainda estão presentes. Trabalhadores convivem com doenças decorrentes da Covid-19, sofrimento psicológico e consequências do assédio institucional.
Bancários estão entre os trabalhadores que mais adoecem
Tulio e Luciano chamaram atenção para a quantidade de bancários afastados ou submetidos ao uso contínuo de medicamentos. O adoecimento está relacionado à cobrança de metas, à pressão para comercializar produtos e à redução das equipes.
“A categoria bancária está entre as que mais adoecem e entre as mais medicadas”, afirmou Tulio.
O problema atinge bancos públicos e privados, mas adquire uma dimensão particular na Caixa porque seus trabalhadores também precisam executar programas sociais e atender parcelas da população que dependem do serviço presencial.
Apesar dos lucros bilionários registrados pelo setor financeiro, a redução do quadro funcional aumenta a sobrecarga. Tulio defendeu a contratação de empregados para melhorar o atendimento e reduzir a pressão sobre quem permanece nas agências e unidades administrativas.
“A Caixa tem lucrado bilhões, mas, em compensação, temos cada vez mais bancários adoecidos”, criticou.
A recomposição das equipes integra a defesa de uma instituição capaz de cumprir suas responsabilidades sociais sem transferir o custo para os trabalhadores.
Saúde Caixa ficou mais caro
O plano de saúde é uma das principais preocupações apresentadas na entrevista. Durante a pandemia, muitos empregados e familiares precisaram recorrer ao Saúde Caixa para internações, exames e tratamentos prolongados.
Ao mesmo tempo, a limitação da contribuição do banco aumentou a participação financeira dos beneficiários. A situação pesa especialmente sobre aposentados, trabalhadores com menores salários e famílias que necessitam de acompanhamento médico contínuo.
Tulio afirmou que a direção da Caixa teve três anos para construir uma solução, mas não apresentou uma resposta capaz de atender às reivindicações.
“O plano de saúde ficou mais caro. A Caixa teve três anos para preparar uma solução e não fez”, disse.
Para os representantes sindicais, o Saúde Caixa não pode ser tratado apenas como uma despesa empresarial. O plano integra os direitos históricos da categoria e possui relação direta com doenças desenvolvidas ou agravadas no ambiente de trabalho.
Direção da Caixa é alvo de críticas
Tulio criticou a influência do Centrão sobre a direção da Caixa e afirmou que o atual presidente da instituição chegou ao cargo por indicação política associada ao então presidente da Câmara, Arthur Lira.
Embora seja empregado de carreira, o dirigente do banco não adotou, na avaliação do sindicalista, uma postura compatível com as expectativas dos trabalhadores.
“Ele é funcionário de carreira, mas isso não significa que tenha compromisso com a defesa do banco público ou dos seus empregados”, ponderou.
Tulio lembrou que existem funcionários da própria Caixa favoráveis à privatização. Segundo ele, aproximadamente 25% dos empregados defenderiam essa proposta, influenciados pela ideia de que a capacidade individual garantiria emprego e reconhecimento em qualquer instituição privada.
O sindicalista comparou essa percepção à experiência dos antigos funcionários do Banespa, vendido ao Santander em 2000. Com a privatização, o estado de São Paulo perdeu um banco utilizado como instrumento de políticas públicas e de financiamento regional.
“A meritocracia faz algumas pessoas acreditarem que são boas e conseguirão trabalhar em qualquer lugar. Mas o Banespa foi privatizado e hoje não temos mais aquele papel de investimento e de agente público”, observou.
Caixa cumpre funções que bancos privados não assumem
A defesa da Caixa como instituição pública ocupou parte central da entrevista. Tulio recordou que o banco administra o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, paga o abono do PIS e operacionaliza programas como Bolsa Família e Pé-de-Meia.
A instituição também possui papel relevante no financiamento da habitação popular, do saneamento básico e de obras de infraestrutura urbana. Em muitos municípios, é um dos principais pontos de acesso da população às políticas públicas federais.
“A Caixa financia habitação popular, saneamento e paga os programas sociais do governo. Ela cumpre um papel muito importante para o país”, afirmou.
Embora a digitalização permita que parte das operações seja realizada por aplicativos, diversas demandas ainda dependem do atendimento humano. Trabalhadores com dificuldade de acesso à internet, idosos e beneficiários de programas sociais recorrem às agências para resolver problemas que não podem ser solucionados pelos canais digitais.
Tulio advertiu que a sociedade também sente os efeitos de um banco com equipes insuficientes. Longas filas, demora na análise de financiamentos e dificuldade para resolver pendências são consequências da redução do quadro.
“Tem muita coisa que a digitalização consegue atender, mas muita coisa ainda precisa do trabalho humano para continuar”, explicou.
Privatização da Caixa Seguridade alterou prioridades
Tulio criticou a abertura de capital da Caixa Seguridade, realizada durante o governo Bolsonaro. Segundo ele, empregados passaram a sofrer pressão para comercializar produtos ligados a uma companhia privada instalada dentro da estrutura da Caixa.
Essa cobrança desloca o foco do trabalho. Em vez de priorizar o financiamento habitacional, a captação para a poupança e o atendimento aos programas públicos, bancários precisam cumprir metas de venda de seguros e outros produtos.
“Os empregados sofrem pressão para vender produtos dessa empresa privada que está dentro da Caixa. Em vez de buscar crédito imobiliário e captar recursos para financiar habitação, ficam submetidos a essas metas”, declarou.
O dirigente defendeu a revisão desse modelo e a recuperação plena do papel público da instituição. Para ele, a Caixa não pode funcionar como uma loja de conveniência financeira orientada pela remuneração de acionistas e pela venda de serviços.
Tulio também lembrou que a gestão de Pedro Guimarães preparou a separação do aplicativo Caixa Tem e de outros serviços digitais para uma possível venda. A plataforma ganhou milhões de usuários durante a pandemia, quando foi utilizada para o pagamento do auxílio emergencial.
“O Caixa Tem foi preparado para virar um banco digital que poderia ser vendido. Essa turma não estava preocupada com o desenvolvimento nacional, mas com os negócios gerados pelas vendas”, acusou.
Luciano Simplício: “A greve é o último recurso”
Luciano Simplício afirmou que nenhum trabalhador entra em greve sem avaliar os custos do movimento. A paralisação ocorre quando as negociações não produzem respostas e a categoria entende que os demais instrumentos foram esgotados.
“Nenhum trabalhador gosta de fazer greve. A greve é o último recurso, quando as negociações param e não existe outra saída”, afirmou.
O presidente da CTB Ceará destacou que o setor financeiro registra lucros elevados, enquanto seus empregados enfrentam sobrecarga, adoecimento e insegurança em relação aos direitos.
Segundo ele, a concentração de renda no sistema bancário também afeta os clientes. Os juros elevados aumentam o endividamento das famílias e reduzem a capacidade de consumo e investimento.
Luciano relacionou a luta dos bancários à disputa sobre o papel do Estado. Bancos públicos fortes são incompatíveis com projetos que pretendem reduzir políticas sociais e transferir áreas rentáveis ao setor privado.
“A greve é a única arma que o trabalhador tem nesse caso da luta de classes”, declarou.
Mobilização não pode ser adiada por causa das eleições
Tulio reconheceu que a paralisação ocorre num período politicamente delicado, a menos de um mês das eleições. Ainda assim, rejeitou a ideia de que os trabalhadores devam suspender suas reivindicações para evitar desgaste ao governo.
Segundo ele, a categoria não pode ser responsabilizada pela demora da direção da Caixa em apresentar soluções. A greve foi construída por meio de assembleias e expressa uma decisão coletiva.
O sindicalista considera possível que a crise seja utilizada politicamente por adversários do governo. Isso, contudo, não elimina as razões concretas da mobilização nem retira da empresa a responsabilidade pela negociação.
“A gente não pode descartar que um processo de desgaste da campanha salarial seja usado para desgastar o governo. Mas também não pode esconder a insatisfação da categoria”, afirmou.
Tulio pediu que o governo federal participe da busca por uma solução e cobre da direção da Caixa uma proposta capaz de encerrar o conflito.
“Esperamos que a Caixa e o governo consigam resolver a situação. Enquanto não resolverem, a greve continua”, declarou.
Defesa dos direitos exige representação no Congresso
A entrevista também relacionou a campanha salarial às eleições de 2026. Tulio advertiu que a proteção dos bancos públicos e dos direitos trabalhistas depende da composição da Câmara dos Deputados e do Senado.
Para ele, não basta escolher uma candidatura presidencial comprometida com a Caixa e votar para o Legislativo em representantes favoráveis a privatizações e à retirada de direitos.
“Trabalhador não dá para votar em quem quer nos ferrar. Essa é a realidade”, afirmou.
Tulio criticou propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro, entre elas a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo e uma nova reforma trabalhista inspirada nas medidas adotadas na Argentina.
Segundo o sindicalista, essas propostas recebem pouca atenção porque a campanha da extrema direita procura concentrar o debate em crises e acusações, evitando uma discussão detalhada sobre seu programa econômico.
“Eles querem ganhar a eleição sem falar que pretendem desvincular a aposentadoria do salário mínimo e fazer outra reforma trabalhista”, alertou.
Flávio Bolsonaro demonstra desconhecimento sobre a Caixa
Tulio também comentou uma declaração na qual Flávio Bolsonaro teria proposto transformar a Caixa no “Bradesco das favelas”. Para o dirigente, a formulação demonstra desconhecimento sobre a instituição e desrespeito tanto aos empregados quanto aos moradores das periferias.
“A Caixa é um banco centenário que já deu muitas contribuições ao país. Essa proposta mostra desconhecimento total”, afirmou.
O sindicalista ressaltou que a Caixa já está presente nas comunidades por meio do financiamento habitacional, do FGTS e dos programas de transferência de renda. Seu papel não deve ser imitar um banco privado, mas atender a população e executar políticas que o mercado não assume.
Categoria aposta na força coletiva
Luciano Simplício demonstrou confiança no resultado da mobilização. Segundo ele, a ampla aprovação da greve mostra que os dirigentes sindicais estão conectados com a insatisfação das agências e unidades administrativas.
“A decisão não foi tomada por um número mínimo de pessoas. É a categoria que quer a greve”, ressaltou.
O presidente da CTB Ceará afirmou que a paralisação também pressiona os grupos políticos responsáveis pelas indicações na Caixa. Em período eleitoral, uma greve nacional amplia o custo da falta de negociação para todos os setores envolvidos na administração do banco.
Luciano convocou beneficiários de programas sociais e usuários da instituição a apoiar os trabalhadores.
“A população precisa apoiar essa greve porque a Caixa responde pelo FGTS, pelos auxílios e por serviços essenciais. É uma luta para manter a Caixa pública, com qualidade e servindo à sociedade”, disse.
Tulio encerrou sua participação defendendo novas contratações, melhores condições de trabalho e a recuperação das funções públicas do banco.
“A Caixa precisa buscar o desenvolvimento nacional. A gente quer um banco cada vez mais forte e a serviço da sociedade brasileira”, concluiu.
Referências
- Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, 1848
- Cadernos do cárcere, de Antonio Gramsci, escritos entre 1929 e 1935
- E vamos à luta, canção de Gonzaguinha, lançada em 1980
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