“Quem mantém a floresta viva e em pé somos nós”, defendem lideranças da Amazônia

Programa Bancos da Democracia debateu a sociobioeconomia como alternativa ao modelo convencional de desenvolvimento e destacou o protagonismo de povos e comunidades tradicionais na preservação da biodiversidade

Da Redação

As comunidades tradicionais precisam ocupar o centro das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável e à preservação ambiental. Essa foi uma das principais conclusões da edição do programa Bancos da Democracia, exibida em 29 de junho, que reuniu representantes da Amazônia para discutir a sociobioeconomia e os modos de produzir e viver dos povos tradicionais. O debate foi promovido pela Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais em parceria com a professora Aline Mendonça, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Com apresentação de Sara Goes, o programa reuniu o educador popular e doutorando Paulo Chaves, a professora e agrônoma Louise Ferreira Rosal e o coordenador-geral executivo da MALUNGU, Mauro Santos. Ao longo da conversa, os convidados defenderam que a sociobioeconomia representa um modelo de desenvolvimento baseado na valorização da biodiversidade, dos conhecimentos tradicionais e das formas coletivas de organização social, em contraposição às abordagens que tratam a natureza apenas como ativo econômico.

Sociobioeconomia amplia o conceito de bioeconomia

Segundo os participantes, a sociobioeconomia vai além da exploração sustentável dos recursos naturais. O conceito incorpora as relações culturais, sociais e territoriais construídas historicamente por povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares, extrativistas e outras comunidades tradicionais.

Louise Ferreira Rosal explicou que esse modelo reconhece uma economia voltada para a manutenção da vida, não necessariamente organizada pela lógica do lucro.

“A sociobioeconomia se articula com esses modos de produzir e viver de comunidades tradicionais na perspectiva de que congrega um conjunto de coisas, de modos de vida, do trabalho e da relação com o meio biofísico que são essenciais para a manutenção da vida.”

Para a professora, a ideia de subsistência precisa ser compreendida como um conjunto de condições indispensáveis à existência humana e ambiental, e não como sinônimo de atraso econômico.

Comunidades reivindicam protagonismo

Paulo Chaves destacou que o próprio conceito de sociobioeconomia surgiu como resposta às limitações da noção tradicional de bioeconomia, que frequentemente ignora os sujeitos responsáveis pela conservação dos territórios.

Segundo ele, o termo contempla aspectos como identidade, organização social, respeito à diversidade e formas coletivas de produção.

“Quem mantém a floresta viva e em pé somos nós.”

O educador ressaltou que agricultores familiares, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e demais povos da floresta organizam sua produção em sintonia com os ciclos naturais.

“Nós entendemos que a floresta viva e em pé consegue ser muito mais rentável do que outros modos de produzir.”

Para ele, a relação dessas comunidades com a natureza vai muito além da exploração econômica, envolvendo dimensões culturais, simbólicas e espirituais construídas ao longo de gerações.

Capitalismo verde e disputa de narrativas

Durante o debate, os participantes também criticaram o chamado “capitalismo verde”, expressão utilizada para descrever estratégias de marketing empresarial que associam grandes corporações à proteção ambiental sem alterar práticas econômicas consideradas predatórias.

Louise Ferreira observou que a sociobioeconomia funciona como um contraponto a esse modelo ao colocar as comunidades tradicionais no centro das decisões sobre desenvolvimento sustentável.

Ela argumentou que preservar a floresta significa preservar modos de vida e conhecimentos produzidos ao longo de séculos, e não apenas proteger recursos naturais destinados ao mercado.

Academia ainda enfrenta resistência ao tema

A professora do Instituto Federal do Pará afirmou que a discussão também enfrenta barreiras dentro das universidades.

Segundo ela, pesquisas fundamentadas nos conhecimentos tradicionais ainda são frequentemente deslegitimadas por parte do meio acadêmico.

Louise relatou o caso de uma estudante que pesquisava plantas medicinais e ouviu, durante seu trabalho de campo, que aquilo “não era ciência”.

Para a pesquisadora, esse tipo de postura revela uma disputa sobre quais conhecimentos são considerados legítimos.

“Esses modos de vida são sustentados por pessoas que elaboram conhecimentos altamente refinados.”

Ela defendeu uma universidade mais conectada às comunidades, capaz de construir pesquisas a partir das demandas concretas dos territórios e de reconhecer a produção coletiva do conhecimento.

Burocracia dificulta acesso aos recursos

Representando a MALUNGU, organização que reúne comunidades quilombolas do Pará, Mauro Santos afirmou que um dos principais desafios está na dificuldade de acessar políticas públicas e financiamentos.

Segundo ele, muitas associações conseguem ser aprovadas em editais, mas encontram obstáculos burocráticos durante a execução dos projetos.

“A burocracia para operacionalizar não é fácil, é muito difícil.”

Mauro defendeu que bancos e instituições financiadoras adaptem seus procedimentos à realidade das comunidades tradicionais, oferecendo inclusive assessoria técnica para facilitar a execução dos projetos.

Ele também destacou a importância das cooperativas quilombolas como instrumentos de fortalecimento econômico local.

Movimentos sociais são apontados como força de resistência

Os convidados afirmaram que a consolidação da sociobioeconomia tem sido resultado direto da atuação dos movimentos sociais.

Paulo Chaves avaliou que essas organizações exercem pressão constante para que políticas públicas voltadas à preservação ambiental sejam construídas com participação efetiva das comunidades.

Segundo ele, o fortalecimento dessas organizações tornou-se ainda mais importante diante das tentativas de enfraquecimento promovidas nos últimos anos.

Para os participantes, preservar a Amazônia depende também do fortalecimento institucional de quem vive e protege esses territórios diariamente.

COP30 expôs limites da participação popular

A realização da COP30 em Belém também foi tema da conversa.

Embora reconheçam a importância do evento, Mauro Santos e Paulo Chaves avaliaram que povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas tiveram participação aquém do protagonismo esperado.

Segundo Mauro, foi necessário um grande esforço das organizações sociais para garantir visibilidade às comunidades amazônicas.

Já Paulo afirmou que muitas lideranças encontraram barreiras para participar efetivamente dos debates internacionais.

Na avaliação dos convidados, a justiça climática passa necessariamente pelo reconhecimento de quem historicamente preserva os biomas brasileiros.

Editais avançam, mas ainda são insuficientes

Apesar das dificuldades, os participantes reconheceram que governos e instituições de pesquisa passaram a abrir mais editais voltados à sociobioeconomia.

Louise Ferreira citou iniciativas ligadas ao Programa Desafios da Amazônia, à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa) e projetos desenvolvidos pelo Instituto Federal do Pará.

Segundo ela, as propostas são construídas conjuntamente com as comunidades, buscando responder às necessidades apresentadas pelos próprios territórios.

A pesquisadora também destacou pesquisas voltadas ao desenvolvimento de bioinsumos, sistemas agroflorestais, plantas medicinais e tecnologias sociais capazes de fortalecer a autonomia produtiva das comunidades tradicionais.

Referências

Outras economias frente às políticas de Transição Justa e Bioeconomia no Brasil
Organização: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)
Ano: 2025


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