“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, diz Luciano Simplício sobre ofensiva sindical diante da extrema direita

Congresso Internacional de Direito Sindical 2026 debate inteligência artificial, redução da jornada, geopolítica e reorganização do trabalho em cenário de crise global

O programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, recebeu o sindicalista Luciano Simplício para discutir os desafios contemporâneos do movimento sindical e divulgar o Congresso Internacional de Direito Sindical 2026. A edição, apresentada excepcionalmente por Souza Júnior, contou também com comentários do professor Osmar de Sá Ponte. A entrevista serviu de base para esta matéria.

Com o tema “Sindicalismo em transformação: desafios, tecnologia e cenário global”, o congresso reúne lideranças sindicais, juristas, pesquisadores e trabalhadores para debater os impactos da inteligência artificial, da uberização, das mudanças climáticas e da reorganização econômica mundial sobre o trabalho e os direitos sociais.

Ao longo do programa, Luciano Simplício afirmou que o Brasil atravessa uma disputa decisiva entre aprofundar direitos sociais ou mergulhar em um novo ciclo de retrocessos políticos e econômicos.

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, afirmou o dirigente sindical ao convocar mobilização popular e sindical diante do avanço da extrema direita e da precarização das relações de trabalho.

A discussão partiu do cenário internacional de transformações tecnológicas aceleradas. Souza Júnior levantou preocupações sobre o impacto da inteligência artificial na destruição de empregos e na reorganização do mercado de trabalho. Osmar de Sá Ponte respondeu afirmando que o mundo vive uma nova etapa da reestruturação produtiva iniciada ainda no final do século XX.

Segundo ele, a automação, a robótica e os sistemas digitais ampliaram drasticamente a produtividade econômica ao mesmo tempo em que reduziram a necessidade de mão de obra em diversos setores.

O professor lembrou o caso do sistema bancário, que passou por forte enxugamento de trabalhadores após a informatização dos serviços. “Hoje o próprio usuário é quem toca o serviço”, afirmou.

Osmar explicou que a sociedade contemporânea vive um paradoxo: o avanço tecnológico permite reduzir jornadas e melhorar a qualidade de vida, mas o modelo econômico dominante concentra renda e mantém milhões de pessoas submetidas a cargas excessivas de trabalho, informalidade e sofrimento psíquico.

“A sociedade já conquistou meios tecnológicos para superar essa questão da carga horária”, afirmou.

Durante o debate, os convidados defenderam o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Luciano Simplício criticou setores empresariais e parlamentares que tentam associar a pauta trabalhista à destruição econômica.

Segundo ele, parte do empresariado e da extrema direita tenta transformar exploração em discurso de liberdade individual. O sindicalista criticou especialmente a lógica da uberização e do chamado empreendedorismo de sobrevivência.

“As pessoas não trabalham em dois ou três empregos porque gostam. Trabalham porque o salário não dá conta da vida”, declarou.

Luciano também relacionou o adoecimento da classe trabalhadora às mudanças climáticas, à precarização urbana e à destruição ambiental. Ele citou o crescimento de doenças físicas e emocionais, especialmente entre mulheres trabalhadoras submetidas a múltiplas jornadas.

Ao comentar o afastamento de Sara Goes devido à chikungunya, o dirigente afirmou que o impacto social das mudanças climáticas já é visível no cotidiano dos trabalhadores brasileiros.

O programa também abordou o Congresso Nacional e a correlação de forças políticas no país. Souza Júnior criticou o atual parlamento e afirmou que o Brasil vive uma “virada de chave” histórica entre aprofundar direitos ou consolidar um modelo autoritário ligado ao bolsonarismo.

Luciano Simplício classificou parte do Congresso como “inimiga do povo” e criticou parlamentares alinhados à extrema direita que defendem privatizações radicais, retirada de direitos e entrega de recursos estratégicos nacionais.

Segundo ele, o movimento sindical precisará ampliar alianças sociais e políticas para enfrentar os próximos anos.

“Para vencer o fascismo só aliança”, afirmou.

Osmar de Sá Ponte acrescentou que a democracia não pode ser reduzida apenas a método institucional. Para ele, democracia é também convivência social baseada no diálogo, no reconhecimento das diferenças e na construção coletiva de soluções.

“A democracia é um jeito de ser de convívio social”, declarou.

A entrevista também trouxe reflexões sobre desemprego estrutural, sofrimento psíquico e a fragilidade do atual modelo econômico internacional. Osmar destacou que a lógica da competitividade extrema cria insegurança permanente e reduz perspectivas de futuro para trabalhadores em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos.

Segundo ele, a precarização social ajuda a explicar o crescimento de discursos autoritários e irracionais.

“Quando você vê determinado tipo de comportamento fascista, ele nasce também dessa ausência de perspectivas”, analisou.

Luciano Simplício aproveitou o programa para divulgar o 10º Congresso Internacional de Direito Sindical, realizado no Hotel Mareiro, em Fortaleza. O evento discute temas como inteligência artificial, combate ao assédio eleitoral, sindicalização, geopolítica, participação das mulheres no sindicalismo, negociação coletiva e organização sindical no serviço público.

O dirigente afirmou que o congresso ocorre em um momento decisivo para os trabalhadores brasileiros e que a formação política se tornou instrumento central de resistência.

“Temos que nos armar de conhecimento para enfrentar esse momento”, disse.

Ao final da entrevista, Souza Júnior também apresentou a campanha “Brasil soberano, Congresso amigo do povo”, organizada por intelectuais, comunicadores e ativistas ligados à Atitude Popular. A proposta busca ampliar o debate sobre soberania nacional, democracia e representação política nas eleições de 2026.

A edição terminou com uma defesa enfática da mobilização popular, da democracia e da reorganização sindical diante das transformações tecnológicas e políticas do século XXI.

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