Candidato confundiu Santa Quitéria com Uiraponga e usou informações de episódios distintos para defender estado de defesa em áreas afetadas pelo crime organizado
Da Redação
O candidato à Presidência Renan Santos propagou informações falsas sobre a situação da segurança pública no Ceará durante entrevista ao g1 e à GloboNews nesta quinta-feira (6). Ao defender a decretação de estado de defesa em regiões com presença de organizações criminosas, ele afirmou ter visitado Santa Quitéria e declarou que o município teria sido “tomado pelo Comando Vermelho”. A descrição mistura acontecimentos registrados em cidades diferentes do Estado e não corresponde à situação encontrada por reportagens recentes nos locais citados.
“Eu fui para uma cidade no Ceará que chama Santa Quitéria. Essa cidade foi tomada pelo Comando Vermelho”, afirmou Renan. A informação foi imediatamente contestada durante a própria entrevista. Um dos jornalistas interrompeu: “Não, não, não, não. Isso é o Iraponga”.
A correção fazia referência a Uiraponga, distrito pertencente ao município de Morada Nova, no Vale do Jaguaribe. Uiraponga ganhou repercussão nacional em 2025 após moradores deixarem suas casas em meio a uma disputa entre facções criminosas.
Santa Quitéria, por sua vez, fica em outra região do Ceará e protagonizou um episódio diferente envolvendo criminalidade e política eleitoral.
Renan prosseguiu falando sobre Santa Quitéria e afirmou que o prefeito havia vencido a eleição utilizando integrantes do Comando Vermelho como “capangas” para impedir eleitores de votar.
Há um caso documentado de interferência do crime organizado nas eleições municipais de 2024 em Santa Quitéria. A Justiça Eleitoral cassou os mandatos do então prefeito José Braga Barrozo, o Braguinha, e do vice Francisco Gardel por abuso de poder político e econômico. As investigações apontaram atuação de integrantes de uma organização criminosa para intimidar adversários e interferir no processo eleitoral.
Esse episódio, porém, não transforma Santa Quitéria na cidade descrita por Renan durante a entrevista, nem corresponde ao caso de expulsão coletiva de moradores que ganhou repercussão no Ceará.
O caso que Renan descreveu ocorreu em Uiraponga
A situação de moradores deixando suas residências ocorreu em Uiraponga, distrito de Morada Nova.
Em julho de 2025, famílias abandonaram a comunidade diante de ameaças relacionadas à disputa entre grupos criminosos. O episódio provocou uma operação das forças de segurança e transformou o pequeno distrito em tema recorrente da disputa política no Ceará.
Um ano depois, a situação era diferente daquela apresentada por Renan ao utilizar o Ceará como exemplo de território que precisaria ser retomado pelo Estado.
Reportagem do g1 publicada em 16 de julho de 2026 retornou a Uiraponga para verificar as condições da comunidade um ano depois da saída em massa de moradores. A apuração mostrou o retorno de famílias e a retomada gradual das atividades no distrito.
O mesmo foi constatado por O POVO.
Em reportagem publicada também em julho, jornalistas foram pessoalmente a Uiraponga depois que o deputado federal André Fernandes afirmou que a comunidade continuava abandonada devido às facções.
A equipe encontrou moradores, comércio e atividades na localidade, embora tenha registrado que a recuperação ainda não era completa e que imóveis permaneciam desocupados. Mais de 80 famílias já haviam retornado ao distrito, segundo informações apresentadas pela Prefeitura de Morada Nova.
Um dos moradores entrevistados por O POVO, Francisco Cleto de Oliveira, contestou a versão de que Uiraponga permanecia sem moradores e afirmou que imagens utilizadas para sustentar essa narrativa haviam sido feitas durante a madrugada.
“Quando é de madrugada, eles vão filmar a rua uma hora da manhã, não tem mais ninguém”, relatou.
Outro morador ouvido pelo jornal, o professor e produtor cultural Jonh Darly, criticou a exploração política da situação e alertou para a estigmatização de uma comunidade que havia enfrentado um período grave de violência.
Renan juntou episódios diferentes
Na entrevista à GloboNews, portanto, Renan reuniu fatos distintos. Santa Quitéria teve uma eleição marcada pela interferência de organização criminosa, episódio investigado pelas autoridades e que resultou na cassação do prefeito e do vice.
Uiraponga enfrentou outra situação: famílias deixaram temporariamente suas casas em 2025 diante de uma disputa entre facções. O distrito pertence a Morada Nova e passou posteriormente por um processo de retorno dos moradores e reforço da presença do Estado.
Ao afirmar que esteve em Santa Quitéria e que a cidade havia sido “tomada pelo Comando Vermelho”, Renan fundiu esses acontecimentos e apresentou ao público uma descrição que não corresponde aos fatos documentados. A própria entrevistadora tentou corrigir a informação, mas o candidato continuou utilizando o exemplo cearense para desenvolver sua proposta de segurança pública.
Informação falsa sustentou defesa do estado de defesa
O erro ganha relevância porque não apareceu de forma lateral na entrevista. Renan utilizou a situação atribuída ao Ceará como justificativa para uma das medidas mais controversas de seu programa para a segurança pública: recorrer ao estado de defesa em áreas sob influência de organizações criminosas.
O instrumento está previsto no artigo 136 da Constituição e permite restrições temporárias a determinados direitos em situações excepcionais. Ao ser questionado sobre os riscos para moradores que não possuem qualquer ligação com organizações criminosas, Renan argumentou que a população dessas regiões já viveria sem direitos efetivos.
“O morador já não tem direito nenhum”, afirmou.
Em outro momento, declarou que considerar moradores dessas áreas como titulares de direitos seria uma “ficção”. “Aí é acreditar uma ficção de que aquele morador de uma favela ou de uma cidade tomada pelo crime organizado é um titular de direitos. Ele tem direitos nominais”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de entrada de agentes de segurança nas residências, Renan citou como exemplo uma dona de casa cuja residência fosse utilizada por um criminoso para esconder armas. “Eu preciso entrar na sua casa para retirar ele”, declarou.
A argumentação levou as entrevistadoras a questionarem como seriam preservados os direitos dos moradores durante operações realizadas sob estado de defesa. Renan respondeu que a medida seria excepcional e teria como objetivo permitir ao Estado “recuperar os territórios”.
“Esses são os instrumentos excepcionais para eu vencer a guerra contra eles. Eu quero viver um país de normalidade”, afirmou.
O candidato também diferenciou a atuação do Comando Vermelho daquela atribuída ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo ele, o primeiro teria atuação predominantemente territorial, enquanto o PCC possuiria uma estrutura de infiltração institucional e financeira que exigiria operações de inteligência e cooperação internacional.
Foi justamente ao explicar sua proposta de intervenção territorial que Renan recorreu ao exemplo cearense construído a partir da mistura entre Santa Quitéria e Uiraponga. A entrevista expôs, assim, uma contradição relevante: uma proposta que prevê a utilização de um instrumento constitucional excepcional, capaz de restringir direitos individuais, foi defendida pelo candidato com base em uma descrição falsa da realidade de dois municípios do Ceará.
A correção feita durante a própria entrevista não levou Renan a rever a afirmação. Ele seguiu utilizando o caso como exemplo para defender sua política de segurança pública.






