Em entrevista ao Café com Democracia, autor apresenta o livro “Meu cearês cordial”, um dicionário afetivo com mais de 350 verbetes sobre a linguagem, as memórias e os costumes do Ceará
Da Redação
O arquiteto, bacharel em Direito e servidor público aposentado Eugênio Arcanjo transformou palavras ouvidas durante a infância, expressões usadas em conversas familiares e lembranças compartilhadas entre amigos no livro Meu cearês cordial. Com mais de 350 verbetes, a obra registra particularidades do modo de falar no Ceará e associa cada termo a episódios da vida do autor.
Em entrevista concedida ao jornalista Luiz Regadas no programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, nesta sexta-feira, 21 de agosto, Eugênio explicou que o livro foi construído ao longo de vários anos. A ideia amadureceu durante o período em que viveu em Brasília e ganhou forma a partir de publicações feitas no Facebook durante a pandemia.
“Eu sempre tive uma atenção com as palavras, com a influência e com o poder que elas têm na vida da gente”, afirmou. Segundo o escritor, o contato com pessoas de diferentes regiões do país tornou mais perceptíveis as características do vocabulário cearense.
Nascido em Santana do Acaraú, Eugênio também carrega referências de Caririaçu, município de origem de sua mãe, e de Fortaleza, onde viveu parte da infância, a adolescência e a juventude. Aos 23 anos, depois de concluir a graduação em Arquitetura, mudou-se para Brasília, onde permaneceu durante quatro décadas.
Na capital federal, expressões que faziam parte de seu cotidiano causavam estranhamento entre amigos e familiares de outros estados. A esposa, carioca, chegou a pensar que algumas palavras eram invenções do marido.
“Quando eu usava uma palavra típica do Ceará, ela achava que eu estava inventando. Depois confrontava com outra pessoa e confirmava”, contou.
Essas reações fizeram com que Eugênio passasse a observar e anotar os termos com mais atenção. Por volta de 2020, começou a publicar pequenos textos no Facebook, já sob o título Meu cearês cordial. Quando reuniu aproximadamente 50 verbetes, percebeu que o material poderia ser ampliado e organizado como livro.
Um dicionário construído com lembranças
Embora siga a organização alfabética de um dicionário, a obra não pretende oferecer uma pesquisa científica sobre a origem das palavras. Eugênio define o trabalho como um dicionário afetivo. O título faz referência à raiz latina de “cordial”, associada ao coração.
Os verbetes não se limitam a apresentar definições. Muitos deles são acompanhados por pequenas crônicas sobre acontecimentos vividos em Santana do Acaraú, Caririaçu ou Fortaleza. Também aparecem histórias contadas por amigos e recordações de costumes que atravessaram diferentes gerações.
“Não é um dicionário filológico ou etimológico no sentido científico. Eu associei pequenas crônicas às histórias dessas palavras na minha vida”, explicou.
Entre os termos presentes na obra estão “barruada”, “briba”, “cai duro”, “cambão”, “chegadinha”, “cunhã”, “rabissaca”, “leite mugido”, “bodega” e a expressão “dar o prego”.
A briba, por exemplo, é o nome usado em diferentes áreas do Ceará para pequenas lagartixas encontradas nas paredes das casas. Já o cai duro remete ao sanduíche que se tornou conhecido no entorno do Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza.
A chegadinha também ocupa lugar nas memórias da capital cearense. Trata-se da massa fina e crocante vendida nas ruas por comerciantes que anunciavam sua passagem com um triângulo metálico. Para Eugênio, recordar a palavra significa recuperar todo o ambiente ligado ao vendedor e à experiência das crianças que esperavam sua chegada.
O cambão, por sua vez, estava relacionado ao transporte de água no sertão. O equipamento era formado por uma vara apoiada no corpo, com recipientes pendurados nas extremidades. Ao apresentar o termo, o escritor também descreve as condições de vida e as soluções construídas em comunidades rurais.
“Leite mugido” aparece como outra lembrança sertaneja. A expressão designa o leite retirado da vaca e consumido ainda fresco, conhecido em outras regiões como “leite ao pé da vaca”.
“Não tem a poética de um chamado ‘leite mugido’. Leite mugido é muito mais poético”, comentou.
Brincadeiras que sobrevivem nas palavras
Os jogos da infância ocupam uma parte importante do livro. Um dos verbetes mais extensos é dedicado à bila, nome utilizado no Ceará para a bola de gude. Eugênio descreve modalidades praticadas pelas crianças, como os jogos de triângulo e de bojo.
Outro exemplo é a finca, brincadeira praticada em terrenos molhados durante o período chuvoso. Os participantes usavam uma haste de ferro com ponta afiada para traçar caminhos no chão e cercar o adversário. O escritor também recorda a raia, denominação que vem sendo substituída por “pipa” entre as gerações mais jovens.
Parte do material nasceu de encontros com amigos em Fortaleza. Nas conversas, o grupo procurava lembrar palavras ouvidas durante a infância e a adolescência. Eugênio registrava os termos em um caderno ou no celular para desenvolvê-los posteriormente.
O autor chama esses encontros, de maneira bem-humorada, de “sessões de espiritismo vernacular” ou “sessões de ressuscitação de palavras”. A busca virava uma espécie de jogo coletivo, alimentado pela memória de cada participante.
“Eu saía daquele bar com um monte de palavras que meus amigos tinham lembrado da infância e da adolescência”, relatou.
Apesar do trabalho de coleta, Eugênio afirma que a escrita ocorreu de forma natural. O livro não foi desenvolvido como pesquisa acadêmica, mas como narrativa de memória, construída por meio de uma linguagem cotidiana.
“É muito mais um livro de memórias do que um dicionário científico”, definiu.
Entre Santana do Acaraú, Caririaçu e Brasília
A diversidade interna do Ceará também influencia a obra. Eugênio descreve sua formação como resultado do encontro entre a região do Acaraú, no Norte do estado, e o Cariri, no Sul.
“Meu pai é de Santana do Acaraú e minha mãe é de Caririaçu. Eu tive essa formação bicultural, intercultural. O Cariri é bem diferente da ribeira do Acaraú”, observou.
Essa experiência permitiu ao escritor reunir expressões de diferentes regiões e perceber que nem toda palavra considerada cearense é utilizada da mesma maneira em todo o estado. O vocabulário apresentado no livro parte, portanto, de uma trajetória particular, atravessada por deslocamentos geográficos e geracionais.
Brasília também teve papel decisivo nesse processo. Eugênio definiu a cidade como uma “capital dos sotaques brasileiros”, marcada pela presença de pessoas vindas de várias partes do país. O convívio com essa diversidade permitiu que ele reconhecesse, por contraste, as singularidades de sua própria fala.
“Eu sempre guardei esse orgulho de ser cearense e nunca esqueci as nossas palavras. Sentia quando o estranhamento acontecia. Isso foi se marcando ao longo do tempo e se condensou agora nesse livro”, afirmou.
A língua diante da internet
Durante a entrevista, Eugênio também refletiu sobre os efeitos das redes sociais e da circulação nacional de conteúdos sobre os vocabulários regionais. Para ele, a língua está em permanente transformação, o que significa que algumas expressões desaparecem enquanto outras ganham novos sentidos.
“A língua é um organismo vivo. Sempre foi assim e sempre será. Muitas palavras já desapareceram e outras vão desaparecer”, avaliou.
O escritor reconhece que a internet pode facilitar o registro e a divulgação de expressões antigas. A própria origem pública do livro está ligada ao Facebook. Ao mesmo tempo, ele demonstra preocupação com a padronização da linguagem provocada pelo consumo dos mesmos conteúdos em diferentes regiões.
“Eu acho que a internet, se não tiver uma boa regulamentação, vai contribuir principalmente para pasteurizar, para homogeneizar tudo”, disse.
Eugênio não defende a conservação das palavras como uma recusa às mudanças naturais da língua. Seu interesse está na preservação da diversidade cultural e na possibilidade de compreender o modo de vida presente em cada expressão.
“Eu me coloco como um cultivador e um defensor dessas palavras, não por um tradicionalismo estrito, mas porque acho que as características locais são muito importantes e devem ser mantidas. São as particularidades locais que enriquecem o universal”, declarou.
Linguagem, patrimônio e memória política
A preservação do vocabulário, na avaliação do autor, está relacionada à proteção do patrimônio cultural do Ceará. O livro foi prefaciado por Romeu Duarte, arquiteto e pesquisador dedicado à conservação do patrimônio histórico.
Para Eugênio, o descuido com construções antigas encontra paralelo na desvalorização de expressões, brincadeiras e manifestações culturais transmitidas entre gerações. A obra procura mostrar que o patrimônio não se restringe a edifícios. Ele também está presente nas formas de nomear objetos, sentimentos, gestos e relações sociais.
“Há disseminadamente um desprezo pela conservação do passado, tanto do passado edificado como do passado imaterial das palavras e da língua”, afirmou.
Alguns verbetes também preservam o contexto político em que foram escritos. Parte dos textos foi elaborada entre 2020 e 2021, durante a pandemia de Covid-19 e o governo de Jair Bolsonaro. Nesses casos, Eugênio manteve referências críticas ao período e indicou a data original de produção.
“Algumas dessas palavras têm um contexto político. Eu coloco ‘escrito em 2020’ ou ‘escrito em 2021’ para que se saiba por que faço aquela correlação com a situação que a gente vivia”, explicou.
O humor aparece como elemento recorrente nos textos. Expressões utilizadas em brincadeiras ou provocações ajudam a revelar diferentes aspectos das relações sociais no Ceará. O autor pondera, porém, que algumas delas carregam sentidos hoje considerados ofensivos ou inadequados. O registro, nesse caso, não equivale à defesa do uso, mas permite observar mudanças nos costumes e na compreensão sobre determinados termos.
Novos verbetes já estão sendo reunidos
O primeiro lançamento de Meu cearês cordial ocorreu em 13 de agosto, no Cantinho do Frango, em Fortaleza. Segundo Eugênio, o encontro reuniu amigos de diferentes períodos de sua vida e gerou novas contribuições para o projeto.
Depois de ler o livro, várias pessoas passaram a enviar mensagens com outras palavras e recordações. O escritor já mantém um novo conjunto de verbetes anotados e pretende incorporá-los a uma segunda edição.
O lançamento em Santana do Acaraú foi marcado para as 19 horas desta sexta-feira, 21 de agosto, no restaurante Vila Licânia, com participação da Academia Santanense de Artes e Letras. Eugênio integra a entidade, que tem como patrono o artista Audifax Rios.
O autor também pretende lançar o livro em Brasília no mês de novembro. Enquanto não define um ponto permanente de venda em Fortaleza, os exemplares podem ser solicitados diretamente pelo e-mail eugenioarcanjo@gmail.com, com envio pelos Correios.
Referências
Meu cearês cordial, de Eugênio Arcanjo
Prefácio de Romeu Duarte
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