Debate no programa Bancos da Democracia destaca o papel das organizações da sociedade civil na construção da economia solidária e na formação de alternativas ao modelo econômico dominante
Da Redação
As organizações da sociedade civil ocupam posição estratégica na construção da economia solidária brasileira, atuando na formação de lideranças, no fortalecimento de empreendimentos populares, na defesa de direitos e na criação de mecanismos de financiamento para grupos frequentemente excluídos do sistema financeiro tradicional. Essa foi uma das principais conclusões do debate promovido pelo programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes, no dia 8 de junho.
A edição foi realizada em parceria com a professora Aline Mendonça, responsável pela disciplina Administração de Organizações da Sociedade Civil do curso de Administração Pública e Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Participaram do debate Angelique van Zeeland, coordenadora do Programa de Pequenos Projetos da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), Renan Luiz, graduando em Administração Pública e Social e bolsista do NEPEC/UFRGS, e Rosimar Teixeira, educadora e diretora do Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP).
Ao longo da conversa, os participantes discutiram os avanços alcançados pela economia solidária, os desafios enfrentados pelas organizações sociais e a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas para financiamento, comercialização e fortalecimento dos empreendimentos populares.
Rosimar Teixeira destacou que a economia solidária oferece uma lógica distinta daquela predominante no mercado convencional.
“O capitalismo incentiva o empreendedorismo individual e nós incentivamos o empreendedorismo coletivo”, afirmou.
Segundo ela, a economia solidária se sustenta em princípios como cooperação, autogestão, solidariedade e comércio justo, elementos considerados fundamentais para enfrentar desigualdades sociais históricas.
A dirigente do CAMP também chamou atenção para a relação entre autonomia econômica e emancipação social.
“Não existe empoderamento sem emancipação econômica”, declarou.
Rosimar argumentou que grande parte dos grupos acompanhados pela entidade é formada por mulheres negras das periferias urbanas, que frequentemente enfrentam obstáculos para acessar crédito, financiamento e políticas públicas adequadas.
A importância do financiamento solidário
A coordenadora da Fundação Luterana de Diaconia, Angelique van Zeeland, ressaltou que o acesso a recursos financeiros continua sendo um dos maiores desafios enfrentados pelos empreendimentos da economia solidária.
Ela explicou que a FLD apoia dezenas de projetos anualmente por meio de editais destinados a grupos comunitários, movimentos sociais, coletivos de juventude, organizações de mulheres e empreendimentos solidários.
“Como os empreendimentos conseguem avançar? Como conseguem qualificar seu trabalho? Como conseguem acesso ao fomento? Esse continua sendo um desafio central”, observou.
Angelique destacou ainda a importância das compras públicas voltadas para empreendimentos da economia solidária e da agroecologia, apontando que essas iniciativas podem fortalecer cadeias produtivas locais e ampliar oportunidades de geração de renda.
Cooperação como alternativa econômica
Um dos pontos centrais do debate foi a defesa da cooperação como alternativa ao individualismo econômico.
Os participantes argumentaram que os empreendimentos solidários demonstram, na prática, que é possível construir relações econômicas baseadas na colaboração e no fortalecimento coletivo.
Ao comentar a atuação das redes solidárias durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, Angelique lembrou que muitos empreendimentos abriram seus espaços, compartilharam equipamentos e criaram mecanismos de apoio mútuo para garantir a continuidade das atividades.
“Vimos muita solidariedade entre os empreendimentos para tentar sair juntos daquela situação”, afirmou.
Juventude e economia solidária
Outro tema debatido foi a necessidade de ampliar a participação da juventude na economia solidária.
Tanto Rosimar quanto Angelique reconheceram que os empreendimentos ainda apresentam forte presença de mulheres adultas, enquanto a participação dos jovens permanece limitada.
Para enfrentar esse desafio, as organizações têm investido em iniciativas ligadas à cultura, comunicação, tecnologia, economia criativa e projetos comunitários.
Segundo Angelique, experiências relacionadas à arte, produção cultural e comunicação digital têm atraído um número maior de jovens para o campo da economia solidária.
Rosimar acrescentou que a escuta das novas gerações é fundamental para construir formas mais eficazes de participação.
“Precisamos ouvir os jovens para entender o que os mobiliza e construir caminhos junto com eles”, afirmou.
Economia solidária como projeto de transformação
Ao final do debate, os participantes defenderam que a economia solidária não deve ser vista apenas como alternativa de geração de renda, mas como parte de um projeto mais amplo de transformação social.
Rosimar sintetizou essa visão ao afirmar que a superação das desigualdades passa necessariamente por mudanças estruturais na economia.
“Se não mexer na estrutura econômica, tudo vai continuar do mesmo jeito”, declarou.
A avaliação compartilhada pelos convidados é que experiências de cooperação, autogestão e organização comunitária continuam sendo instrumentos fundamentais para fortalecer a democracia, ampliar direitos e construir modelos econômicos mais inclusivos.
Referências
Pedagogia do Oprimido
Paulo Freire, 1968
Pedagogia da Esperança
Paulo Freire, 1992
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