Sem apoio e sem sobrenome, Flávio ganha pós que nunca fez e partido ao qual nunca se filiou

Candidato teve formação inexistente atribuída ao currículo e apareceu no sistema eleitoral como integrante do Missão; registro indevido da filiação atrasou formalização da candidatura presidencial pelo PL

Da Redação

Flávio Bolsonaro (PL) chegou à reta final para o registro de sua candidatura à Presidência envolvido em duas situações incomuns. Páginas públicas atribuíram ao senador uma pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que ele nunca cursou e, pouco depois, o sistema da Justiça Eleitoral passou a registrá-lo como filiado ao Missão, partido ao qual afirma nunca ter ingressado.

Os episódios têm origens distintas. A informação acadêmica incorreta circulava em biografias disponíveis na internet e chegou a constar na página da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A filiação partidária, por sua vez, foi inserida no sistema oficial da Justiça Eleitoral e provocou consequências práticas para a candidatura.

A sequência ocorre em um momento no qual a campanha tenta reposicionar Flávio eleitoralmente, inclusive reduzindo a exposição do sobrenome Bolsonaro em algumas peças publicitárias. A candidatura também enfrenta dificuldades para ampliar alianças partidárias além do campo bolsonarista.

A pós-graduação que não existiu

Páginas sobre a trajetória de Flávio informavam que ele havia realizado uma pós-graduação em Ciência Política na UFRJ. A informação não corresponde à formação acadêmica do candidato.

Segundo sua campanha, Flávio é graduado em Direito pela Universidade Cândido Mendes, possui pós-graduação em Políticas Públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e MBA em Empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas.

A equipe afirma que o site oficial da candidatura apresenta os dados corretos e atribuiu a informação sobre a UFRJ à reprodução de um erro que circulava na internet.

A referência à instituição também constava em uma página oficial da Alerj, onde Flávio exerceu mandato de deputado estadual. Após a repercussão, a campanha informou ter solicitado correções nos locais em que encontrou a informação equivocada.

Flávio também ganhou um partido

No dia seguinte, surgiu um problema potencialmente mais relevante para a candidatura.

O sistema da Justiça Eleitoral passou a registrar Flávio como filiado ao Missão, legenda ligada ao Movimento Brasil Livre (MBL). O senador afirma que nunca pediu ingresso no partido. O próprio Missão também nega ter autorizado sua filiação.

Como uma nova filiação partidária pode produzir efeitos sobre o vínculo anterior, o registro criou um problema para a formalização da candidatura de Flávio pelo PL.

A equipe jurídica precisou procurar o Tribunal Superior Eleitoral para corrigir a situação e restabelecer o registro partidário correspondente à filiação efetiva do senador.

TSE investiga uso indevido do sistema

A apuração inicial do TSE não identificou uma invasão externa ao sistema de filiações.

A hipótese considerada é de uso indevido de credenciais legítimas para inserir a filiação de Flávio ao Missão. O caso passou a ser investigado para identificar quem realizou a operação e em quais circunstâncias.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou providências para apurar o episódio.

Flávio afirma ter sido vítima de fraude. O Missão também declarou que entregará às autoridades informações técnicas capazes de auxiliar na identificação do responsável.

A legenda sustenta ainda que percebeu anteriormente uma movimentação relacionada à filiação e procurou o gabinete do senador para comunicar o problema.

Registro da candidatura entra na corrida contra o prazo

A inconsistência apareceu em um momento especialmente inconveniente. O prazo para registro das candidaturas termina às 19h de sábado (15), enquanto a campanha eleitoral começa oficialmente no domingo (16).

A situação precisa ser regularizada para que Flávio possa apresentar sua candidatura pelo PL sem questionamentos relacionados ao vínculo partidário.

A manifestação inicial do TSE de que ocorreu uso indevido do sistema também diferencia o episódio de uma mudança partidária voluntária. Até o momento, não há indicação de que Flávio tenha solicitado ou autorizado ingresso no Missão.

Enquanto a Justiça Eleitoral procura descobrir quem lhe deu um partido novo, a campanha tenta corrigir a formação acadêmica que terceiros acrescentaram à sua biografia.

Assim, às vésperas do início oficial da campanha, Flávio enfrenta uma combinação peculiar: tenta ampliar uma candidatura com dificuldades para conquistar novos apoios, sua equipe reduz a presença do sobrenome Bolsonaro em peças eleitorais, precisa desmentir uma pós-graduação que o candidato nunca fez e correu ao TSE para explicar uma filiação partidária que nunca pediu.